Fundacionismo empirista de David Hume

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Inês  Fernandes
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Fundacionismo empirista de David Hume

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  • Teoria filosófica que defende que o conhecimento é possível, dado que existem crenças de tal modo autoevidentes e autosuficientes que se tornam autojustificáveis, não estando dependentes de outras para se validarem. Estas, denominadas crenças básicas, para Hume, são obtidas empiricamente. Objetivos da sua epistemologia: » Construir uma objeção sólida ao argumento da regressão infinita do ceticismo radical; » Desacreditar os ideais do fundacionismo racionalista de Descartes; » Construir uma resposta positiva sólida ao problema da possibilidade do conhecimento.
  1. Críticas a Descartes

    Annotations:

    • 1. A dúvida metódica não questionou todos os possíveis fundamentos de conhecimento como prometia, pelo seu caráter radical e universal, escapando-lhe a memória. Este questionamento poderia por em causa a fidelidade do cogito, uma vez que para ter a certeza de que penso ("penso, logo existo"), devo ter recordação de tal; 2. O cogito é falível na medida em que ao invés de provar aquilo que Descartes pretendia com ele assegurar, a existência de substâncias pensantes com base na sua capacidade racional de formular pensamentos, a sua crença básica não o é por clarificar uma coisa diferente que sustenta a existência de pensamentos à semelhança de objetos exteriores, nunca deixando claro a sua associação obrigatória a uma entidade pensante; OBJEÇÃO AO COGITO 3.Mesmo que o cogito representasse uma crença básica, a ideia que lhe estava inerente de que por meio da razão é possível atingir a verdade das coisas, seria inútil sem a associação a conteúdo para processar pois o conhecimento a priori é já por ele certo e o que tem relevância, sobre o mundo, não pode ser produzido sem recurso aos sentidos.
    1. Crença básica: Sentidos

      Annotations:

      • Para Hume, o fundamento do conhecimento são as informações provenientes dos sentidos. E é exatamente por essas crenças serem tão autoevidentes, autosuficientes e autojustificáveis que dispensam argumentação que as suportem.
      1. Conteúdo mental do ser humano: Perceções

        Annotations:

        • Hume acredita que tudo o que experienciamos na nossa mente, toda a informação nela reunida pode ser inserida na categoria de perceções. Mais à frente na sua argumentação vai concluir que toda e qualquer perceção não é mais que uma representação do objeto exterior e que se altera consoante a perspetiva que se tem dele, nunca correspondendo inteiramente a ele. 
        1. Impressões

          Annotations:

          • Correspondem à informação adquirida por experiência imediata do mundo exterior através dos sentidos, ou seja, sensações.
          1. Internas: emoções e sentimentos

            Annotations:

            • Ex: alegria, tristeza, medo, raiva, nojo, expectativa, intuição,...
            1. Externas: olfato, paladar, visão, audição e tato

              Annotations:

              • Ex: cheira a comida, vejo a cor azul, ouço um trovão, sinto frio, saboreio um gelado de chocolate
            2. Ideias
              1. Simples

                Annotations:

                • Correspondem a memórias ou recordações de impressões. Ex: lembro-me de ver um avião. PRINCÍPIO DA CÓPIA: Toda e qualquer ideia (simples) corresponde a uma cópia menos vívida e menos intensa de uma impressão. ARGUMENTO DO CEGO DE NASCENÇA: (1) Se as ideias não são cópias de impressões, então um cego de nascença pode ter a ideia da cor azul sem no entanto ter tido a sua impressão. (2) No entanto, um cego de nascença não pode ter a ideia da cor azul. (3) As ideias são cópias menos vívidas e intensas de impressões.
                1. Complexas

                  Annotations:

                  • Correspondem ao resultado da união de ideias simples e/ou complexas.  Ex: rena + nariz vermelho + voar = Rodolfo, a rena Em última instância derivam de impressões pois as ideias simples que as compõem são cópias de impressões.
                  1. Princípios de associação de ideias

                    Annotations:

                    • Tipos de relações de aproximação que se pode estabelecer entre ideias, de modo a que a consideração de uma evoque o surgimento da outra no nosso pensamento.
                    1. Semelhança

                      Annotations:

                      • Entre ideias parecidas. Ex Princípio das causas atuais (biologia) e Princípio da uniformidade da Natureza (filosofia de Hume)
                      1. Contiguidade

                        Annotations:

                        • Entre ideias "vizinhas" no espaço ou no tempo. Ex. Pensar no laboratório de biologia faz lembrar a sala de informática. Pequeno almoço faz lembrar  ir para a escola
                        1. Causalidade

                          Annotations:

                          • Entre ideias que aparentam ter uma relação causal, isto é, uma conexão necessária, na medida em que uma é a causa da outra, que é a consequência. Ex: Pensar em mau cheiro faz pensar em gases libertados por alguém, pois habitualmente, o segundo é a causa do primeiro
                          1. Problema da causalidade

                            Annotations:

                            • "Qual  a origem da relação causal que estabelecemos entre dois acontecimentos?" Primeiramente, enquadremos a causalidade na bifurcação de Hume, de modo a saber se procuramos um fundamento racional ou empírico. Ex: Os analgésicos atenuam a dor. Causa: analgésicos; Efeito: dor passa. + Não se trata de uma relação de ideias pois: não é uma verdade necessária, uma vez que necessita comprovação experimental, a sua negação não provoca a contradição dos seus termos e tece enunciados sobre o mundo; + Por exclusão de partes é uma questão de facto, pelo que é uma verdade contingente, isto é, exige verificação experimental e origem empírica , já que implica a existência de entidades concretas no mundo exterior.
                            1. Origem empírica

                              Annotations:

                              • Agora que comprovado que a causalidade é uma questão de facto, isto é, tece enunciados sobre o mundo exterior, torna-se evidente que para a sua validação deve ter uma origem empírica, ou seja, uma impressão que lhe corresponda.
                              1. Experiência mental: Adão Inexperiente

                                Annotations:

                                • Para solucionar o problema da causalidade, Hume vai recorrer à seguinte experiência: Tomemos por exemplo um indivíduo dotado de todas as faculdades mentais e racionais sem qualquer experiência do mundo exterior, no qual é inserido. A sua reação primária à conjunção sucessiva de um fenómeno a seguir ao outro seria de incompreensão e confusão. Todavia, a repetição contínua e igual da ocorrência conjunta desses fenómenos provocar-lhe-ia a ideia de que essa conjunção constante, experienciada regularmente compondo um hábito, era de facto provocada por uma conexão necessária/relação causal entre o fenómeno anterior e o posterior, o que é por si uma ideia errada. Esta formulação criar-lhe-ia a expectativa da experiência de conjunção constante dos fenómenos, por cada vez que um é observado. Em suma, a definição de causalidade como conexão necessária é, segundo Hume, errada,. A relação causa/efeito deve ser encarada como a expectativa perante a experiência de conjunção constante de fenómenos, que tem por base o hábito. Assim, é possível concluir que o seu único fundamento é psicológico, proveniente de uma impressão interna. Deste modo, Hume alcançou a origem empírica da causalidade, incógnita que ansiava resolver.
                              2. Problema do raciocínio indutivo

                                Annotations:

                                • "Será o raciocínio indutivo fiável?" O raciocínio indutivo/causal corresponde à forma de fazer previsões futuras ou explicações para fenómenos presentes ou passados com base em leis formuladas através da causalidade entre os intervenientes. Encontra-se na base do conhecimento científico. Com a resolução do problema anterior tornou-se clara que a definição de relação causa/efeito entre elementos pode ser antes interpretada como a conjunção constante entre elementos, o que provoca a expectativa da sua repetição habitual. No entanto, o que garante que futuramente as coisas ocorram como até agora se têm verificado?
                                1. Princípio da Uniformidade da natureza

                                  Annotations:

                                  • Princípio que assegura que os acontecimentos futuros se darão de igual forma aos acontecimentos passados e presentes, estabelecendo assim, o caráter uniforme da natureza. Deste modo, raciocínio indutivo é formulado pela : conjunção constante de fenómenos + PUN
                                  1. PUN é injustificável

                                    Annotations:

                                    • Assim, em ordem a validar o raciocínio indutivo, deve justificar-se a fidelidade dos seus componentes: - A conjunção constante é observável  - O PUN não é justificável Vejamos:  (1) Se PUN é justificável, então pode ser justificado demonstrativamente ou empiricamente. (2) PUN não pode ser justificado demonstrativamente por não compor uma relação de ideias, visto a negação não ser contraditória; (3) PUN não pode ser comprovado empiricamente uma vez que, ainda que componha uma questão de facto, qualquer tentativa de a justificar experimentalmente/através de verificação envolve petição de princípio (ao tentar afirmar que a natureza é uniforme estou a pegar em conjunções constantes passadas como exemplo e a assumir que se verificarão, baseando-me em incertezas e no próprio PUN) (4) O PUN não é justificável
                                    1. O raciocínio indutivo não é fiável
                                      1. Ceticismo moderado de Hume

                                        Annotations:

                                        • Com os problemas formulados, Hume chega a conclusões que o tornam cético em relação  ao raciocínio indutivo e ao mundo exterior, por ser injustificável a sua validação. No entanto, admite que não devem ser abandonadas tais crenças, por razões pragmáticas - para continuar a formular ciência e conhecimento - e psicológicas - de modo a mantermos a sanidade mental.
                                  2. Problema do mundo exterior

                                    Annotations:

                                    • "As nossas perceções são produzidas por objetos exteriores à mente que se lhes assemelham?" + Assumimos que existe um mundo exterior à nossa mente, independente das nossas perceções; + Assumimos também que esse mundo exterior é a causa das nossas perceções, como se houvesse uma conexão necessária entre eles. Como visto anteriormente, para Hume, esta conexão necessária baseia-se apenas na expectativa de acordo com o hábito, sendo racionalmente inválida; + Mesmo assim, analisando essa causalidade segundo a definição de Hume (como conjunção constante habitual dos fenómenos) parecem surgir problemas: para que haja a dita conjunção constante, é necessário que haja uma impressão que corresponda aos objetos exteriores. No entanto, a sua correspondência real é impossível; + Isto porque, uma impressão é uma perceção e todas as nossas perceções não passam de representações mentais dos objetos externos que observamos (argumento da perspetiva da mesa) e não à sua realidade, uma vez que a informação recebida pelos sentidos é processada e filtrada mentalmente, impedindo a ligação direta entre o objeto e a mente; + Ora, para saber se o objeto e a perceção se assemelham seria necessário desprender-me dos meus sentidos, que me transmitem uma realidade diferente da exterior, o que é por natureza impossível; ASSIM, é impossível conhecer verdadeiramente o mundo exterior (e saber se se assemelha às nossas perceções) por não ser possível a sua ligação direta com a mente, é impossível saber se os objetos exteriores são a causa das nossas perceções (pois não é possível observar a conjunção constante entre eles já que é impossível ter a impressão exata da realidade) e, em última análise, é impossível saber se o mundo exterior à mente existe (pois tal é uma questão de facto que não pode ter fundamento pelas razões enunciadas previamente).
                                    1. É impossível saber se o mundo exterior existe
                          2. Tipos de conhecimento: Bifurcação de Hume

                            Annotations:

                            • Organização binária do conhecimento (crenças verdadeiras justificadas) em:
                            1. Relação de ideias

                              Annotations:

                              • Caracterizam-se por: - Conhecimento a priori - São geralmente irrelevantes pois dizem-nos apenas conhecimento sobre o significado dos conceitos- Necessariamente verdadeiras (a sua negação provoca a contradição dos seus termos)-Demonstrativamente justificadas (por exemplo a matemática e a lógica, uma vez que podem ser atingidas racionalmente)- Não fazem enunciados sobre o mundo (o que significa que não implicam ou afirmam a existência de entidades concretas)Ex: Nenhuma reta tem início nem fim. A sua negação seria: Algumas retas têm início e fim. O que por definição está mal.
                              1. Questão de facto

                                Annotations:

                                • Caracterizam-se por: + Conhecimento a posteriori + Serem verdades contingentes a verificação (ou seja, são apenas verdadeiras se assim comprovado pela experiência) + Necessitarem de origem empírica para a sua validação (justificadas experimentalmente) + Fazerem enunciados sobre o mundo exterior, daí afirmarem ou implicarem a existência de entidades concretas + A  sua negação não a torna contraditória. Ex: O papel é uma substância inflamável. A sua negação consistiria no seguinte: O papel não é uma substância inflamável. Tal, por natureza não é contraditório ao conceito de papel nem ao conceito de inflamével. 
                                1. Critica ao ceticismo radical

                                  Annotations:

                                  • Como deduzido através da Bifurcação de Hume, todas as crenças verdadeiras justificadas que dizem respeito ao mundo exterior têm por base a experiência empírica, diretamente associada aos sentidos, que são a crença básica do empirismo. Assim, contrariamente à premissa (1) do argumento da regressão infinita nem todas as crenças são justificadas por outras, uma vez que os sentidos são crenças básicas; e, contrariamente à premissa (2) do mesmo argumento, caso as nossas crenças sejam devidamente fundadas, é impossível cair numa regressão infinita de justificações uma vez que o fundamento de tais crenças, referentes ao mundo têm por base sólida a experiência empírica.
                            2. Objeções à teoria de Hume
                              1. Crítica à definição de causalidade de Hume: Thomas Reid

                                Annotations:

                                • A definição de Hume de causalidade enquanto conjunção constante tem problemas. Para Reid, tal não é  - Condição suficiente, uma vez que existem fenómenos constantemente associados por conjunção que não são a causa um do outro (dia e noite) - Condição necessária, pois existem fenómenos que não se baseiam no hábito de conjunção para se verificarem como causa ou efeito de outros (origem do universo deu-se apenas uma vez, teve uma causa mas não surge como conjunção constante)
                                1. Crítica ao princípio da cópia: David Hume

                                  Annotations:

                                  • Contraexemplo do tom de azul desconhecido : Nem todas as ideias são cópias de impressões, na medida em que experimentalmente colocando uma vasta gama de tons de azul, com um escondido, e exibindo este conjunto a alguém que nunca antes viu o tom de azul desconhecido, este alguém seria mesmo assim capaz de formular a ideia dessa cor, sem nunca antes ter tido a sua impressão Pelo que, nem todas as ideias são cópias de impressões.
                                  1. Crítica à Bifurcação de Hume

                                    Annotations:

                                    • A bifurcação de Hume é um princípio auturrefutante, pelo que não se pode justificar demonstrativamente, pois não corresponde a uma relação de ideias, nem se pode validar empiricamente, pelo que não corresponde a uma questão de facto. Assim, não é conhecimento.
                                    1. Crítica de Russel

                                      Annotations:

                                      • Hume é hiperbólico na aceitação de qualquer crença que não lhe seja 100% justificável, não se orientando de acordo com a abdução -» critérios demasiado restritos. Segundo Russel, aceitar o mundo exterior e a indução é o mais plausível.
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