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Modul 2 von 6 · Medien

A MEMÓRIA COMO UM PROCESSO PSICOLÓGICO

Fabrício Rios

A MEMÓRIA COMO UM PROCESSO PSICOLÓGICO

A memória como um processo psicológico

 

                     “Experiências repetidas convertem memória de curto prazo em memória de longo prazo” (Erick Kandel – Princípios da Neurociência)

                       

 

Vimos no módulo anterior como o pensamento sobre a importância entre e a memória foram sendo filosoficamente discutidas ao longo do tempo. Mas hoje, como podemos definir esse conceito ainda que abstrato sobre a memória?

 

Vejamos uma boa contextualização e conceituação utilizados pela Dra. Silvia Helena Cardoso:

“A memória é uma faculdade cognitiva extremamente importante porque ela  forma a base para a aprendizagem. Se não houvesse uma forma de armazenamento mental de representações do passado, não teríamos uma solução para tirar proveito da experiência.

Assim, a memória envolve um complexo mecanismo que abrange o arquivo e a recuperação de experiências, portanto, está intimamente associada à aprendizagem, que é a habilidade de mudarmos o nosso comportamento através das experiências que foram armazenadas na memória; em outras palavras, a aprendizagem é a aquisição de novos conhecimentos e a memória é a retenção daqueles conhecimentos aprendidos.”

 

Ainda no século passado William James definiu, por introspecção, os conceitos de memória primária e memória secundária. A memória primária se estenderia por um curto prazo de tempo e dela fariam parte eventos pertencentes ao "presente psicológico" que após serem percebidos ainda não deixaram a consciência. A memória secundária pertenceria ao "passado psicológico" e já esteve ausente da consciência. Posteriormente estes conceitos evoluíram em memória de curto prazo (ou memória imediata) e memória de longo prazo, respectivamente. Atualmente existe muitas evidências que permitem diferenciar memória de curto prazo (retenção de itens por apenas alguns segundos) de memória de longo prazo (retenção de itens por intervalos maiores).                    

 

Além disso, muitos autores diferenciam as memórias além da função tempo de armazenamento (ultrarrápida ou sensorial, curto prazo e longo prazo), como também o da sua natureza  (explícita, implícita e de trabalho).

 

Dentre as primeiras teorias, que ainda nos traz importantes observações, temos a Teoria da Memória por Estágios (TME), que tem como referencial o fator tempo.

 

Sua premissa básica é que as memórias são dados passíveis de armazenamento em vários compartimentos, se movimentando por estágios. Essas informações então poderiam transitar de uma memória de curto prazo intermediária, na qual após processos de repetição, passariam a ser consolidadas em um memória de longo prazo. Semelhante à uma biblioteca, o volume de informações nas estantes apesar de serem maiores, são mais dispendiosas de consultar, quando comparado aos livros já selecionados que estão sobre a sua mesa. De fato, muitos também irão classificar a memória de curto prazo como uma memória de trabalho.

 

Contudo, a TME não se ateve (e nem era necessário no momento) sobre a influência do próprio indivíduo (como estratégias e objetivos) no processo de memorizar. Ou seja, a memória é processo ATIVO, e a mera repetição não conduz a informação para uma memória de longo prazo. Isso quer dizer que a memória é um processo ativo, na qual as atitudes e desejos influenciam diretamente a transferência de tais informações para um estado de maior consolidação.

 

Pelo menos alguns fatores que determinam a qualidade da memorização. Dentre esses, a profundidade do processamento está diretamente relacionada com a atenção e envolvimento intelectual para com aquilo que se deseja aprender. Veja que não são os fenômenos que são memorizados, mas sim o que pensamos sobre ele durante o processo. Ou seja, entre duas pessoas, um evento pode ser marcante e ser fixado em sua memória, enquanto para o outro, em pouco tempo será esquecido. Talvez disso derive assertivas como "o primeiro amor nunca se esquece".

 

Desse modo, podemos dizer que determinada informação considerada bruta ou originária, será diretamente impregnada com os significados que possam ser mais facilmente recordados. 

 

Se eu te dissesse que meu aniversário é 04 de agosto, possivelmente ao final desse curso você já teria até esquecido. Mas e seu te disser que meu aniversário é no dia 11 de setembro (e de fato o é), e que em 11/09 foi o dia do atentado que abalou o mundo com a destruição das Torres Gêmeas de Nova York? Certamente você lembraria mais facilmente.

 

Com isso, muitos autores passaram a classificar os tipos de memória de acordo com o tempo de sua "permanência", podendo ser ela sensorial, a curto prazo (imediata e de trabalho) e a longo prazo.

 

A memória sensorial  seria aquela que tem origem nos órgãos sensitivos. As informações obtidas pelos sentidos se mantêm por um curtíssimo espaço de tempo (0,1 a 2 segundos), caso o estímulo não seja recuperado. A memória sensorial nos permite reter as informações de estímulos visuais, auditivos, gustativos, olfativos, táteis ou proprioceptivos, e com isso possuem uma característica fundamentalmente elétrica.  Essa informação pode tanto passar para a memória a curto prazo, ou ainda não ser conscientemente codificada. Por isso, muitos autores não a mencionam, pois a alocam como uma condição prévia da codificação, pois envolve a percepção do indivíduo do mundo em sua volta, apresentando, portanto, caráter pré-consciente . 

 

 

A memória de curto prazo retêm a informação durante um período limitado de tempo, podendo ser esquecida ou ser direcionada para a memória de longo prazo a depender da necessidade do processo de condificação. A memória de curto prazo pode ser distinguida em uma memória imediata ou em uma memória de trabalho. A memória de trabalho também se caracteriza por ser um fenômeno de natureza elétrica. não induzindo de imediato alterações físicas nos neurônios, e com isso não alterando a morfologia neural ou das conexões sinápticas. Porém, o termo memória de trabalho passou a ser utilizado há pouco tempo, aparecendo na literatura somente na década de 1960. 

 

Na memória imediata a informação recebida fica retida durante um curto período de tempo e podemos conservar mesmo até sete elementos (como letras, palavras, algarismos, etc), variando entre cinco e nove unidades em cada indivíduo.

 

A memória de trabalho por sua vez, a informação mantêm-se enquanto ela nos e útil, e apesar de o objetivo não ser a memorização mais permanente,  implicam uma certa memorização para se poder resgatar quando necessário em um determinado período de tempo. Possui então como característica central uma duração ultrarrápida (de apenas poucos segundos) e capacidade limitada (retém apenas 5 a 9 itens), estando muito relacionada  à atividade de armazenamento e de utilização de informação ligada especificamente à realização de tarefas. Como exemplo memorizar o número no imã da geladeira e discar o número, etc. Após o evento, essa memória pode ser facilmente esquecida caso não tenha se estabelecido como necesssária ou importante. 

Como exposto por Mourão Junior e Faria (2015), são características essenciais que diferenciam a memória sensorial:

  • (a) sua matéria-prima são as informações que chegam até nós pelos sentidos;
  • (b) é ultrarrápida, ou seja, apresenta curtíssima duração (da ordem de poucos segundos), apesar da variação de tempo entre diferentes tipos de estímulos (a memória visual, por exemplo, é mais curta que a memória auditiva);
  • (c) apresenta maior capacidade de armazenamento que a memória de trabalho, apesar de durar bem menos tempo que esta;
  • (d) apresenta caráter pré-consciente, ou seja, ocorre antes que tomemos consciência da informação que os sentidos nos trazem;
  • (e) tal qual a memória de trabalho, trata-se tão somente de um fenômeno elétrico nos neurônios, não produzindo alterações morfológicas ou funcionais nas sinapses (como ocorre com as memórias de longa duração)

 

A memória de trabalho passa a ser importante por possibilitar o encadeamento das ideias durante um diálogo, pois asim podemos lembrar (temporariamente) das palavras que foram ditas e, posteriormente, ocorrer sentido no conjunto das palavras. Ao fim da conversa, é bem provável que venhamos a esquecer a sequencia exata das palavras utilizadas pelo interlocutor, mas seremos capazes de lembrar o seu conteúdo. Claro, que a depender da força impregnada e do processo que codificamos a informção, teremos diferentes graus de motivação em armazenar os fragmentos da informação. Sendo esse o caso, tal memória de trabalho poderá ser transformada em em memória de longo prazo. A memória de trabalho funciona como a nossa mesa de estudo, e nela também podemos comparar as novas informações que estamos recebendo com informações anteriores, consolidadas, como um verdadeiro sistema de processamento. 

 

Nesses termos, a consolidação é justamente a passagem de uma memória de curto prazo, para memória de longo prazo.   Os sistemas de memória de longa duração são capazes de armazenar muitas informações, como uma biblioteca, no entanto, a memória de trabalho, que entra em ação na evocação dessas informações, nos permite recuperar apenas alguns dos livros mais importantes naquele momento do pensamento.  Portanto, a memória de trabalho possui importante função de gerenciamento, trazendo à consciência as informações de maneira sequencial e ordenada, coordenando os eventos do presente com as memórias evocadas de um passado que se integra na realidade que se apresenta.

 

No aspecto da aprendizagem formal, a consolidação passa a ser mais fácil quando ao término de estudos, por exemplo, ocorre a prática diversificada, como a resolução de exercício sobre o tema. Tais práticas podem inclusive passar a ser um comportamento não consciente de aprendizagem, um hábito de aprender a aprender. E com isso, temos o uso de diversos tipos de memórias, compondo a memória de longo prazo, o que irá incluir as memórias declarativas (com o seu conteúdo aprendido) e a não declarativa (com seus hábitos e condicionamentos), como será discutido em um dos módulos.

 

Essa memória de longa duração (ou também conhecida como remota ou "permanente") é responsável por armazenar todo o conhecimento de uma pessoa, por longos períodos de tempo, meses, anos ou até mesmo décadas. Sua possibilidade de evocação (explicada a seguir) ou simplesmente de acesso é muito maior quando comparado as demais modalidades. A formação de uma memória de longa duração leva, em média, entre três e oito horas, e no decorrer do processo diversos fatores podem afetar sua consolidação, desde o uso de substâncias químicas, como a interferência de condições emocionais, que afetam a codificação dessas informações externas. 

 

Iremos estudar melhor a memória de longa duração nos próximos módulos.

 

 

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