Notizen
Ohne Titel
Inhalt der Notizen (1)
Seite 1
Página 36: Tinha então 54 anos, era uma ruína, uma imponente ruína. Imagine o leitor que nos amamos, ela e eu, muitos anos antes (...)
Vejo-a assomar à porta da alcova, pálida, comovida, trajada de preto (...) Da cama, onde jazia, contemplei-a (...) Havia já dois anos que nos não víamos, e eu via-a agora não qual era, mas qual fora, quais fôramos ambos (...)
(...) O que por agora importa saber é que Virgília - chamava-se Virgília - entrou na alcova, firme, com a gravidade que lhe davam as roupas e os anos, e veio até meu leito.
Página 37: (...) Virgília deixou-se estar de pé; durante algum tempo ficamos a olhar um para o outro, sem articular palavra. Quem diria? De dois grandes namorados, de duas paixões sem freio, nada mais havia ali, vinte anos depois; havia apenas dois corações murchos, devastados pela vida e saciados dela, não sei se em igual dose, mas enfim saciados. (...)
_Anda visitando os defuntos? disse-lhe eu. - Ora, defuntos! respondeu Virgília com um muxoxo. E depois de me apertar as mãos: _Ando a ver se ponho os vadios para a rua.
Não tinha a carícia lacrimosa de outro tempo; mas a voz era meiga e doce. Sentou-se. Eu estava só, em casa, com um simples enfermeiro; podíamos falar um ao outro sem perigo. Virgília deu-me longas notícias de fora, narrando-as com graça, com um certo travo de má língua, que era o sal da palestra; eu, prestes a deixar o mundo, sentia um prazer satânico em mofar dele, em persuadir-me que não deixava nada.
Página 64: (...) e facilmente se imagina que mais de uma dama se inclinou diante de mim a fronte pensativa, ou levantou para mim a olhos cobiçosos. De todas porém a que me cativou logo foi uma... uma... não sei se diga; este livro é casto, ao menos na intenção; na intenção é castíssimo. Mas vá lá; ou se há de dizer tudo ou nada. A que me cativou foi uma dama espanhola, Marcela, a 'linda Marcela', como lhe chamavam os rapazes do tempo.
_Marcela é uma prostituta - disse sem rodeios seu Quincas. _Uma prostituta elegante, uma cortesã. Os rapazes ricos procuravam essas moças para viverem a sensação de uma conquista. (...)
(...) perguntou-me meu tio, em segredo, se queria ir a uma ceia de moças, nos Cajueiros. Fomos; era em casa de Marcela (...) Que gentil que estava a espanhola! Havia mais uma meia dúzia de mulheres (...) bonitas, cheias de graça, mas a espanhola... O entusiasmo, alguns gole de vinho, o gênio imperioso, estouvado, tudo isso me levou a fazer uma coisa única; à saída, à porta da rua, disse a meu tio que esperasse um instante, e tornei a subir as escadas.
_Esqueceu alguma coisa? perguntou Marcela de pé no patamar.
_O lenço.
Ela ia abrir-me caminho para tornar à sala; eu segurei-lhe nas mãos, puxei para mim, e dei-lhe um beijo. Não sei se ela disse alguma coisa, se gritou, se chamou alguém; não sei nada; sei que desci outra vez as escadas, veloz como um tufão, e incerto como um ébrio.
Página 66: ... Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos.
Página 74: (...) Não desci, e acrescentei um versículo ao Evangelho: - Bem-aventurados aqueles que não descem, porque deles é o primeiro beijo das moças. Com efeito, foi no domingo esse primeiro beijo de Eugênia, - o primeiro que nenhum outro varão jamais lhe tomara, e não furtado ou arrebatado, mas candidamente entregue, como um devedor honesto paga uma dívida. Pobre Eugênia! Se tu soubesses as ideias me vagavam pela mente fora naquela ocasião! Tu, trêmula de comoção, com os braços nos meus ombros, a contemplar em mim o teu bem-vindo esposo (...)
Página 75: Ora aconteceu, que, oito dias depois (...) ouvi uma voz misteriosa, que me sussurrou as palavras da Escritura (Act., IX, 7): 'Levanta-te, e entra na cidade'. Essa voz saía de mim mesmo, e tinha duas origens: a piedade, que me desarmava ante a candura da pequena, e o terror de vir a amar deveras, e desposá-la. Uma mulher coxa! Quanto a este motivo da minha descida, não há duvidar que ela o achou e mo disse. Foi na varanda, na tarde de uma segunda-feira, ao anunciar-lhe que na seguinte manhã viria para baixo. _Adeus, suspirou ela estendendo-me a mão com simplicidade; faz bem. - E como eu nada dissesse, continuou: _Faz bem em fugir ao ridículo de casar comigo. Ia dizer-lhe que não; ela retirou-se lentamente, engolindo as lágrimas. (...)
Página 76: Virgília? Mas então era a mesma senhora que alguns anos depois...? A mesma; era justamente a senhora que em 1969 devia assistir aos meus últimos dias, e que antes, muito antes, teve larga parte nas minhas mais íntimas sensações. Naquele tempo contava apenas uns quinze ou dezesseis anos; era talvez a mais atrevida criatura da nossa raça, e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que já lhe coubesse a primazia da beleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não é romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas; mas também não digo que lhe maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha, não. Era bonita, fresca, saía das mãos da natureza, cheia daquele feitiço, precário e eterno, que o indivíduo passa a outro indivíduo, para os fins secretos da criação. Era isto Virgília, e era clara, muito clara, faceira, ignorante, pueril, cheia de uns ímpetos misteriosos; muita preguiça e alguma devoção, - devoção, ou talvez medo; creio que medo.
Página 78: Desde então fiquei perdido. Virgília comparou a águia com o pavão, e elegeu a águia, deixando o pavão com o seu espanto, o seu despeito, e três ou quatro beijos que lhe dera. Talvez cinco beijos; mas dez que fossem não queria dizer coisa nenhuma. (...)
Página 80: Virgília é que já sabia se não lembrava da meia dobra; toda ela estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu pensamento; - era o que dizia, e era verdade.
Há umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias e pecas. O nosso amor era daquelas; brotou com tal ímpeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante criatura dos bosques. Não lhes poderei dizer, ao certo, os dias que durou esse crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite, abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quiserem chamar, um beijo que ela me deu, trêmula, - coitadinha, - trêmula de medo, porque era ao portão da chácara. Uniu-nos esse beijo único, - breve como a ocasião, ardente como amor, prólogo de uma vida de delícias, de terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de aflições que desabrochavam de alegria (...)
Página 92: Tranquilizei-a como pude; disse que podiam ser cuidados políticos. Virgília concordou que seria, mas ficou ainda muito excitada e nervosa. (...) Uma janela aberta deixava entrar o vento, que sacudia frouxamente as cortinas, e eu fiquei a olhar para as cortinas, sem as ver. Empunhara o binóculo da imaginação; lombrigava, ao longe, uma casa nossa, uma vida nossa, um mundo nosso, em que não havia Lobo Neves, nem casamento, nem moral, nem nenhum outro liame, que nos tolhesse a expansão da vontade. Esta ideia embriagou-me; eliminados assim o mundo, a moral e o marido, bastava penetrar naquela habitação dos anjos.
_Virgília, disse, eu proponho-te uma coisa.
_Que é?
_Amas-me?
_Oh! Suspirou ela, cingindo-me os braços ao pescoço. (...) perguntei-lhe se tinha coragem.
_De que?
_De fugir. Iremos para onde nos for mais cômodo, uma casa grande ou pequena, à tua vontade, na roça ou na cidade, ou na Europa, onde te parecer, onde ninguém nos aborreça, e não haja perigos para ti, onde vivamos um para o outro... Sim? Fujamos. Tarde ou cedo, ele pode descobrir alguma coisa e estarás perdida, porque eu o matarei, juro-te.
Página 93: (...) Virgília empalidecera muito, deixou cair os braços e sentou-se no canapé. (...)
_Não escaparíamos talvez; ele iria ter comigo e matava-me do mesmo modo.
Mostrei-lhe que não. O mundo era assaz vasto, e eu tinha os meios de viver onde quer que houvesse ar puro e muito sol; ele não chegaria até lá; só as grandes paixões são capazes de grandes ações, e ele não a amava tanto que pudesse ir buscá-la, se ela estivesse longe. Virgília fez um gesto de espanto e quase indignação; murmurou que o marido gostava muito dela.
_Pode ser, respondi eu; pode ser que sim...
(...) Justamente, nesse instante, apareceu na chácara Lobo Neves. Não tremas assim, leitora pálida, descansa, que não hei de rubricar esta lauda com um pingo de sangue. Logo que apareceu na chácara, fiz-lhe um gesto amigo acompanhado de uma palavra graciosa; Virgília retirou-se apressadamente da sala, onde ele entrou daí a três minutos.
(...)
_Cansado? perguntei eu.
_Muito; aturei duas maçadas de primeira ordem, uma na câmara e outra na rua. E ainda temos terceira, acrescentou, olhando para a mulher.
_Que é? perguntou Virgília.
_Um... adivinha!
Virgília sentada ao lado dele, pegou-lhe em umas das mãos, compôs-lhe a gravata, e tornou a perguntar o que era.
_Nada menos que um camarote.
(...)
Virgília bateu palmas, levantou-se, deu um beijo no filho, com o ar de alegria pueril, que destoava muito da figura; depois perguntou se o camarote era de boca ou no centro, consultou o marido, em voz baixa, acerca da toilette que faria, da ópera que se cantava e de não sei que outras coisas.
Página 113: A carta anônima
(..) Virgília contou-me tudo, dai a dias na Gamboa.
O marido mostrou-lhe a carta, logo que ela se restabeleceu.Era anonima e denunciava-nos. Não dizia tudo; não falava, por exemplo, nas nossas entrevistas externas; limitava-se a precavê-lo contra a minha intimidade e acrescentava que a suspeita era publica. Virgília leu a carta e disse com indignação que era a ultima infame.
-Calunia?Perguntou Lobo Neves.
-Infame.
O marido respirou; mas, tornando à carta, parece que cada palavra dela lhe fazia com o dedo um sinal negativo, cada letra bradava contra a indignação da mulher. (...)
Página 116: Fim de um diálogo
_Sim, é amanhã. você vai a bordo?
_Está doida? É impossível.
_Então, adeus!
_Adeus!
_Não se esqueça de Dona Plácida. Vá vê-la algumas vezes. Coitada! Foi ontem despedir-se de nós; chorou muito, disse que eu não a veria mais... É uma boa criatura, não é?
_Certamente.
_Se tivermos de escrever, ela receberá as cartas. Agora até aqui a...
_Talvez dois anos?
_Qual! ele diz que só até fazer as eleições.
_Sim? então até breve. Olhe que estão olhando para nós.
_Quem?
_Ali do sofá. Separemo-nos.
_Custa-me muito.
_Mas é precioso; adeus, Virgília!
_Até breve. Adeus!
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- Notiz am Ohne Titel, erstellt von Julia Hirayama am 29/05/2017.
- Erstellt von
- Julia Hirayama
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