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Jessica Barbosa Portugiesisch 1 Seite

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Platao:

Se é que alguns livros mudam o mundo, a República pode bem reivindicar o primeiro lugar. É habitualmente considerada a realização suprema de Platão como filósofo e escritor, brilhantemente suspensa entre os primeiros diálogos zetéticos e inconclusivos e as especulações cosmológicas e dúvidas menos impositivas dos mais tardios. No decurso dos séculos foi provavelmente objecto de mais comentários e sujeito a críticas mais radicais e apaixonadas do que a grande maioria dos outros grandes textos fundadores do mundo moderno. Na realidade, a história das interpretações deste livro constitui, por si mesma, uma disciplina académica, com capítulos de especialistas sobre quase todos os episódios da história da religião e da literatura nos últimos dois mil anos, e até mais. Para mencionar apenas os poetas ingleses mais importantes, há livros integralmente dedicados ao platonismo e Chaucer, Spenser, Shakespeare, Milton, Blake, Shelley e Colleridge, para referir apenas alguns, e muitos outros sobre movimentos e épocas inteiras: Platão e o cristianismo, Platão e o renascimento, Platão e a época vitoriana, Platão e o nazismo, Platão e nós mesmos. A história da influência directa de Platão na filosofia constitui por si mesma outro estudo, apimentado por nomes como Fílon de Alexandria, Macróbio, Porfírio, Pseudodionísio, Eriúgena, tal como os mais conhecidos Plotino, Agostinho e Dante. Por vezes, o Platão de que se trata é o autor de outros textos, nomeadamente do inspirado Banquete ou do teologicamente ambicioso Timeu. Mas a República raramente anda longe.

Quem quer que se demore pelos vastos e silenciosos mausoléus onde se alinham os trabalhos sobre Platão e a sua influência corre o risco de sufocar. Quem quer que escreva sobre este assunto tem de ter consciência de um gigantesco e relutante auditório, composto de estonteantes hordas de espíritos fiscalizando e criticando omissões e simplificações. Muitos destes espíritos pertencem aos mais brilhantes linguistas, académicos, filósofos, teólogos e historiadores das suas respectivas épocas que não vêem com bons olhos o jardim a que dedicaram as suas vidas ser espezinhado por estranhos e infiéis. E a República constitui o santo dos santos, mesmo no centro do santuário, uma vez que durante séculos foi o único tema obrigatório dos estudos filosóficos, e representou na educação desses mesmos académicos a peça central e inspiradora.

Platão escreveu a sua filosofia sob a forma de diálogos, uma forma que requer diferentes vozes e o fluxo e refluxo dos argumentos. Já na antiguidade se notou que o Sócrates, que é o herói desses diálogos, e o próprio Platão são personagens intermutáveis que facilmente admitem múltiplas interpretações: “É bem sabido que Sócrates tinha o hábito de reservar o seu conhecimento ou as suas crenças; um hábito que Platão aprovava”, escreveu Santo Agostinho. Uma maneira de interpretar isto é que Platão, e presumivelmente Sócrates, tinham realmente doutrinas a ensinar, mas, por qualquer razão irritante, preferiam revelá-las apenas parcialmente, um pouco de cada vez, numa espécie de striptease intelectual. Esta foi a orientação seguida ocasionalmente por comentadores tontos apaixonados pela ideia de mistérios esotéricos escondidos, acessíveis exclusivamente aos iniciados, entre os quais lhes agrada imaginar-se incluídos.

O modo correcto de interpretar a observação de Agostinho é que Platão sentia que a filosofia era mais o objecto de uma actividade do que a absorção de um corpo estático de doutrina. Um processo, não um resultado. Sócrates permanece o grande educador, e aqueles que o procuravam seriam simultaneamente ouvintes e questionadores, participantes no diálogo, e teriam eles próprios de enveredar pelos labirintos do pensamento. A recepção passiva da palavra de nada valeria — este havia sido um dos erros dos adversários de Platão, os sofistas, que cobravam dinheiro por fornecer o produto que vendiam como sabedoria prática (o que nos poderia fazer pensar nas pilhas de saber vazio e literatura comercial que atafulham actualmente as livrarias). No final do diálogo Fedro, de Platão, Sócrates profere um discurso contra o ler filosofia como parente pobre do fazê-la. Muitos repetiram esta ideia posteriormente. Schopenhauer descreve a leitura como um mero substituto do pensar por si e prefere citar Goethe, o alemão de saber enciclopédico: “O que herdastes dos vossos antecessores, tendes primeiro de ganhá-lo por vós mesmos a fim de poderdes possuí-lo”. Robert Louis Stevenson defendeu que a literatura não é senão a sombra de uma boa conversação. “A conversa é fluida, experimental, continuamente prosseguindo a busca e o progresso; enquanto as palavras escritas permanecem rígidas e tornam-se como que em ídolos até mesmo para o escritor, escamoteando o erro incontornável e fixando os dogmatismos no âmbar da verdade”.

A insistência no compromisso, em Platão, vai de par com a sua adopção da forma do diálogo, em que diferentes vozes se fazem ouvir, e são as curvas e contracurvas da argumentação, mais do que uma qualquer conclusão obtida, que nos ajudam a expandir o espírito, à medida que lemos. Nesta perspectiva, a filosofia consiste na descoberta através do diálogo e argumentação (“dialecticamente”); tudo o que lermos mais tarde pode, quando muito, constituir um instrumento para recordar a compreensão obtida neste processo.

Esta concepção dramática do que Platão representa torna mais difícil de criticar. Pode-se rejeitar uma conclusão, mas é muito mais difícil rejeitar um processo de expansão imaginativa e, se levarmos a sério o paralelo com o teatro, pode parecer tão tolo como “rejeitar” o King Lear ou o Hamlet. Na realidade, o paralelismo não impede a crítica, mas encoraja-a. No decurso dos dramas platónicos, as teses são afirmadas e defendidas, os argumentos apresentados e as pessoas persuadidas. Por vezes, o drama culmina numa aparente conclusão. E em todos estes casos é apropriado perguntar-se se as teses, os argumentos e conclusões são de facto aceitáveis. Fazê-lo não é nem mais nem menos do que participar no drama e entrar na arena dialéctica, a actividade que Sócrates e Platão nos recomendam.

Mas Platão e a República têm os seus detractores. No quadro de Rafael A Escola de Atenas, Platão e Aristóteles ocupam ambos o centro da cena, mas enquanto Aristóteles aponta para a Terra, Platão aponta para cima, para os Céus. Coleridge estabeleceu o mesmo contraste, dizendo que todos nascem ou platónicos ou aristotélicos, querendo significar que Platão é um místico, que se movimenta na abstracção, enquanto Aristóteles é o homem empírico e prosaico que encara as coisas como se apresentam no mundo tal qual o vemos. E Coleridge prosseguiu: “Não creio ser possível que alguém que nasceu aristotélico venha a tornar-se um platónico e tenho a certeza que ninguém que nasceu platónico pode alguma vez tornar-se um aristotélico”.

Muito da República pode ser lido como relativamente incontroverso, independentemente da nossa posição quanto ao conteúdo metafísico dos capítulos centrais da obra, em especial o excerto que todos recordam, o Mito da Caverna. Na melhor das interpretações, está muito longe de sugerir uma imagem visionária e romântica, fruto de êxtases e iluminações divinas. De facto, podemos dar-lhe um sentido menos enfático, e vê-lo como um apelo razoável a uma compreensão do mundo real do mesmo género da que, dois milénios depois, é oferecida pela ciência e pela matemática. Pode ser que Platão tenha sido terrivelmente atraiçoado pelos platónicos — um destino frequente dos grandes filósofos.

Mas há outras razões, menos doutrinais, que deviam levar-nos a considerar surpreendente a soberania da República. A obra arrasta-se infindavelmente de forma labiríntica. Longe de serem convincentes, os argumentos vão desde os menos sólidos até aos tão absurdamente frágeis que levam alguns intérpretes a negar que alguma vez tenha havido a intenção de os apresentar como argumentos. A teoria sobre a natureza humana, tal como se apresenta, é fantasiosa e pode parecer inconsistente. As suas supostas implicações políticas são fundamentalmente desagradáveis e muitas vezes chocantes. Tanto quanto Platão nos deixou um legado no domínio da política, incluem-se nele a teocracia ou governo de sacerdotes, o militarismo, o nacionalismo, a hierarquia, o conservadorismo, o totalitarismo e o completo desprezo pelas estruturas económicas da sociedade, nascido da sua condição privilegiada de esclavagista. Na República, Platão consegue ligar-se simultaneamente ao mais rígido dos conservadorismos e à mais extrema e visionária das utopias. Ainda por cima, a teoria do conhecimento da obra é um verdadeiro desastre. A tentativa de chegar ao que aparentemente pretendia — mostrar que o indivíduo moral, e só ele, é feliz — é, em grande medida, uma sequência de passes de magia.

Mais insidiosamente, na medida em que se pode falar de um estilo estético ligado a Platão, não é algo que nos possa facilmente fascinar, a menos que estejamos demasiado impregnados dele para podermos escapar-lhe. A quinta-essência do platonismo, pelo menos em Inglaterra, encontramo-la na luminescência dourada da época vitoriana tardia e da época eduardina — o vagamente homoerótico, vagamente religioso, emocionalmente paralisado, ocioso e classista mundo dos campos de jogos, colégios caros e universidades preguiçosas, o mundo de Walter Pater ou de E. M. Forster, de literatos e estetas meio esquecidos como John Addington Symonds ou Goldsworthy Lowes Dickinson, ou meninos bonitos poetas como Rupert Brooke. Esse não é o nosso mundo. Também não é propriamente um mundo de esclavagistas, mas o capitalismo regurgita os seus próprios parasitas.

Outro aspecto igualmente chocante, aos olhos de alguns, é que, ao escrever a República, Platão atraiçoou completamente o seu mestre Sócrates. Sócrates é o primeiro e o maior dos heróis liberais, mártir da liberdade de pensamento e expressão. Para autores como John Stuart Mill e George Grote — pensadores pragmáticos, liberais e utilitaristas — esse é o verdadeiro Sócrates, o eterno espírito de reflexão, crítica e, potencialmente, de oposição ao próprio estado. Mas na República ele é apresentado como um perfeito dogmático, em completo contraste com a abertura de espírito, a paciência e o espírito inquisitivo que os seus admiradores apreciam. Aparece como porta-voz de uma sociedade repressiva, autoritária, estática e hierárquica na qual tudo até mesmo as relações sexuais e o planeamento familiar é regulamentado pelas classes políticas que, deliberadamente, usam a mentira para esse fim. No sistema social que nos apresenta, o Sócrates liberal teria sido executado muito mais expeditamente do que pela democracia ateniense. Na República, o Sócrates liberal é o porta-voz da ditadura. Ao apresentá-lo desta forma, Platão atraiçoa-se a si mesmo: ele próprio, em tempos poeta, exige agora o exílio dos poetas.

Uma obra pode ter muitos defeitos e serem-lhe perdoados se o autor se revela um exemplo de doçura e luminosidade, como acontece com a personagem literariamente criada por Platão, o Sócrates dos primeiros diálogos. Mas no caso isso não nos ajuda muito. É verdade que, no início, deve ter havido em Platão a doçura e a luz necessárias à criação do Sócrates heróico e liberal. Mas se essa figura se esfuma, como acontece na República, não há muito mais que possamos colocar no prato da balança. Sabemos muito pouco sobre Platão e o que há para saber não é, de um modo geral, atraente. Integrado no seu contexto histórico, podemos encontrar um velho azedo típico, um aristocrata desiludido, odiando a democracia ateniense, convencido de que governam as pessoas erradas, com um medo profundo da própria democracia, constantemente escarnecendo dos artesãos, agricultores e, afinal, de qualquer trabalho produtivo, desprezando radicalmente todo o anseio dos trabalhadores pela educação, e, em última análise, manifestando um apego indefectível ao regime intolerável de Esparta.

Mas, como tantas vezes em Platão, há algo que confunde essa imagem, simpaticamente revelado pela reacção de Nietzsche ao facto de Platão, no seu leito de morte, ter lido Aristófanes, o autor cómico: “nada me fez meditar tanto na natureza secreta e esfíngica de Platão do que o felizmente conservado episódio de que, debaixo da almofada do seu leito de morte não havia uma bíblia, nem nada de egípcio, pitagórico ou platónico — mas um livro de Aristófanes. Como poderia Platão ter suportado a existência — uma existência grega que ele repudiou — sem Aristófanes?”

Dizem-nos que Jesus chorou, mas não que tenha rido. Com Platão, tal como com Sócrates, o riso está frequentemente mais perto do que se imagina. E isto é um bom sinal. Talvez o velho azedo não fosse, afinal, tão azedo. Mas isto não tem realmente importância, porque é a obra concreta que perdura que nos diz respeito, e não a sombra do seu autor que partiu há muito. E, aquilo que se costuma dizer, que apesar de muitos livros serem erradamente esquecidos, nenhum é erradamente lembrado, é uma verdade inquestionável. Assim, precisamos de trabalhar arduamente para nos reconciliarmos com o poder da República que, incontestavelmente, perdura. Precisamos de compreender a atracção que este livro exerceu e continua a exercer sobre a imaginação dos leitores.

A República está dividida em dez livros ou diálogos em que Platão discorre sobre seu pensamento sobre o Estado ideal, que também expressa sua doutrina sobre o homem ideal. Serve-se da figura de Sócrates como personagem principal. Este trava com seus interlocutores profundos debates sobre diversos temas, desde o discurso sobre a superioridade da justiça em relação à injustiça, passando pela construção da cidade ideal com todos os seus elementos, com destaque para figura e a importância dos filósofos, às reflexões metafísicas sobre os dois mundos, o sensível e o inteligível, até chegar às conclusões sobre o destino da alma.

Introdução

Quem é Platão? Nasceu em Atenas, em 428/427 a.C. Arístocles era seu verdadeiro nome. Descendente do rei Codro e de Sólon, possuía inclinação natural à vida política. Segundo Aristóteles, Platão foi inicialmente discípulo de Crátilo, seguidor de Heráclito e, posteriormente, de Sócrates. Decepciona-se com os métolos utilizados na política de seu tempo, no regime oligárquico comandado por Cármides e Crítias. Inicia um período de viagens, após o qual, funda a Academia, escola que viria a adquirir grande prestígio em pouco tempo. Escreve várias obras, entre as quais destacam-se: Fedro, Teeteto, Banquete, Filebo, Protágoras, Górgias, República, a obra em questão. Pelo conjunto de sua obra e seu legado, situa-se entre os maiores pensadores de todos os tempos. 1

A República, obra prima de Platão. Com maestria, através dos discursos de Sócrates, descreve-se na República as diversas concepções políticas então conhecidas, contrapondo-as com a ideia de um Estado perfeito. Rejeita inteiramente como inadequadas para sua cidade ideal a visão mítica de mundo, presente nos poetas, como também a influência dos sofistas para a educação política do homem grego. As distinções e categorias presentes nas concepções sobre o Estado fazem referência àquelas que existem em cada homem. Assim, oligárquico, democrático, tirânico e real é o Estado, mas também cada cidadão presente neste.

A República inicia com a ideia da superioridade da vida do homem justo sobre o injusto. Esta ideia desdobra-se em vários argumentos durante toda a obra. O tema da educação dos cidadãos, em especial dos guardiões da cidade, os filósofos, que tem início no livro dois, passa pelo livro três e também é retomado em vários outros momentos, o que leva a crer que Platão o tem em grande conta.

Nota-se que para Platão, a felicidade é fruto da vivência de determinadas virtudes, como são a sabedoria, a coragem e a temperança. Este discurso é planteado no quarto livro. Elemento também significativo é o da possibilidade de paridade entre o homem e a mulher, no que se refere às funções dentro do Estado, segundo alguns critérios de seleção. Este tema e o da regulamentação das uniões conjugais, procriação e educação da prole estão presentes no livro cinco. Se existe alguém preparado para o governo da cidade ideal, esse alguém é o filósofo. Sua superioridade em relação aos demais cidadãos, desenvolvida pela educação e pelas virtudes que adquiriu durante a vida, faz dele o mais apto para tão elevado cargo. O livro seis trata deste argumento.

A alegoria da caverna, texto de capital importância em toda a obra de Platão está apresentada no sétimo livro. Aplicada à vida e à vocação do filósofo, este mito descreve como o filósofo, tendo alcançado a libertação do mundo sensível, tem como dever, tentar trazer os que ainda são escravos da aparência para a luz da Verdade. Além de retomar o argumento sobre a justiça, o livro oitavo expõe também a origem e a transformação pelas quais passam os diversos regimes democráticos. Não há maior infelicidade que viver num regime tirânico, seja para o que governa como para os governados. Este e outros agumentos são desenvolvidos no livro nove. No Estado perfeito, não podem co-existir com a Verdade suprema a aparência do conhecimento, baseada na poesia e na imitação. Este é um dos principais argumentos do último livro.

Conteúdo da obra2

O Livro um inicia com uma discussão entre Sócrates e Glauco sobre as vantagens e desvantagens da velhice. Deste assunto, passa-se ao tema principal de todo este livro, que de certo modo, também está presente na obra toda, a saber: sobre a virtude da justiça. Diante do que diz Polemarco, que a justiça consiste em fazer o bem aos amigos e o mal aos inimigos, Sócrates responde que é necessário antes, distinguir entre os verdadeiros e os falsos amigos e inimigos, pois as aparências podem enganar. O homem justo deve realmente agir como tal e não apenas parecer. Neste ínterim, Trasímaco entra no diálogo desafiando Sócrates a uma resposta diante do argumento segundo o qual a justiça consiste no interesse do mais forte, ou seja, daquele que detém o poder. Sócrates refuta esta tese, com um discurso sobre as diversas artes existentes, afirmando que cada uma não defende o próprio interesse, mas o interesse daqueles que dela aos quais está destinada. A justiça, como arte, é um bem para os outros, não para si. E quem não age assim, é um mercenário. Trasímaco passa a defender a superioridade da injustiça sobre a justiça, afirmando que esta se identifica com a virtude, ao que Sócrates recusa, com o argumento de que a injustiça enfraquece a ação humana pelas discórdias que gera naqueles que a praticam. Termina o livro afirmando que somente o indivíduo que possui a justiça é feliz.

No Livro dois, os amigos de Sócrates, Glauco e Adimanto, desejando que este aprofundasse seu argumento sobre a justiça, fingem estar do lado de Trasímaco e propõem duas teses como desafio àquela que Sócrates acabara de defender sobre a justiça. O primeiro, Glauco, distingue três possíveis categorias de bem: os que são desejáveis por si mesmos, os que são desejados pelas vantagens que proporcionam e os que se desejam apenas por suas vantagens. Segundo Glauco, na opinião daqueles de quem está se fazendo porta voz, todos almejam apenas esta terceira categoria. Para Sócrates, porém, a justiça se encontra na segunda destas categorias. Indo adiante em seu argumento, Glauco sustenta que na verdade, o grande desejo do homem é cometer injustiças sem sofrer punições por tal ato e mais, aquele que não as comete, age assim por medo das punições que pode vir a sofrer. Neste ponto, entra no diálogo Adimanto, e acrescenta novos argumentos em favor da tese de Trasímaco. Diz que, na verdade, os homens não louvam tanto a justiça em si, mas a reputação que se pode adquirir com a mesma. Sustenta esta ideia com o mito de Giges. Desta forma, melhor seria ser injusto, adquirindo a fama de justo. Diante disso, Sócrates propõe que a questão seja analisada num âmbito maior, aquele do Estado. Então, apresenta uma cidade ideal, composta por lavradores, artesãos e mercadores, cada uma destas classes, desempenhando na cidade o papel que lhe cabe. Glauco intervém novamente, propondo que seja acrescentada a estas classes, uma outra, a dos guardiões ou guerreiros, destinada à defesa da cidade. Surge, porém, a questão de sua educação. Inicia-se uma exposição dos dois componentes desta educação, a música e a ginástica. Em relação à educação musical, porém, Sócrates recomenda que seja eliminada a influência das obras poéticas, em referência às imagens negativas que estas apresentam dos deuses e heróis.

O Livro três continua discorrendo sobre a educação dos guardiões. Estes devem ser educados com as virtudes da coragem e a temperança. Devem rejeitar as poesias e os mitos que suscitam o medo da morte. Sócrates admite, em seguida, que somente os governantes tem o direito de mentir aos súditos, se a finalidade de tal ato for o bem da cidade. Ainda sobre a poesia, Sócrates a distingue em três tipos: narrativa, imitação e mista. Os guerreiros devem afastar-se daquela imitativa. A partir disso, é iniciada uma longa exposição sobre os meios pelos quais se realizam a educação dos guerreiros: a música e a ginástica. No que se refere à educação pela música, há uma descrição dos instumentos musicais, de seus rítimos e harmonias, selecionando aqueles que são mais adequados e aqueles que não são. Quanto à educação pela ginástica, esta tem por objetivo desenvolver, não somente a força física, mas especialmente a força moral. Por isso, ela deve estar em sintonia com aquela educação musical.

O Livro quatro inicia com uma resposta à objeção de Adimanto, para o qual os guardiões não seriam felizes em tal cidade. Sócrates especifica que na cidade ideal, importa o bem da coletividade, não apenas de uma única classe de cidadãos. A legislação esteja baseada sobre poucos princípios fundamentais, especialmente, a justiça. Para que seja garantida a existência da justiça, é necessário que os cidadãos aprendam a desenvolver a prática de três virtudes: a sabedoria, a coragem e a temperança. A sabedoria é a virtude daqueles que têm por função o governo da cidade. A coragem é necessária aos guardiões quando estão no campo de batalha para atacar ou defender sua cidade. A temperança, por sua vez, deve estar presente em todas as classes de cidadãos. Para Sócrates, a justiça existe na medida que cada um desempenha bem seu papel como cidadão. A justiça no Estado se identifica com a justiça no indivíduo. Existe, pois, correlação entre Estado e indivíduo, isto é, a estrutura da alma é análoga aquela da cidade. Novas distinções são apresentadas, desta vez, sobre a alma. Nela estão presentes as faculdades racional, concupscível e irascível. O homem é justo quando sua faculdade racional impera sobre as outras.

No Livro cinco, Adimanto pede esclarecimento sobre a participação das mulheres e das crianças nesta cidade ideal. Fica evidente que, para Sócrates, a mulher pode desempenhar funções semelhantes às do homem, desde que passe, como este, por um processo seletivo rigoroso. Disto se conclui que a diferença de sexo não implica, necessariamente em uma diferença de atitudes. Desta premissa, Sócrates passa à questão das regras quanto às uniões entre homens e mulheres, como também sobre sua procriação. A primeira regra é que os matrimônios devem ocorrer entre os melhores cidadãos, a partir de uma idade pré-estabelecida, para que seja garantida a qualidade e a quantidade adequada para esta cidade. A educação dos filhos deve iniciar imediatamente ao nascimento. Os jovens devem receber uma educação para a guerra, devem ser levados pelos seus pais para assistirem às batalhas e aprender com estes o seu futuro ofício. Sobre as guerras, Sócrates adverte que não deve haver batalhas com outras cidades gregas. As desavenças entre estas sejam consideradas desentendimentos, como o que acontece numa família, os quais, com o passar do tempo, podem ser dissolvidos pela reconciliação. Com certa tensão, Sócrates anuncia, em seguida, seu próximo argumento, no qual defende que a cidade tenha por governantes os filósofos. Entende por filósofo aquele que ama a verdade pura. Em seguida, estabelece a diferença entre a ignorância, a ciência e a opinião: a ignorância é a falta de conhecimento, a ciência, é o conhecimento do ser, e a opinião, é um estado intermediário entre as duas.

No início do Livro seis são expostos alguns argumentos que justificam a razão pela qual os filósofos devem ser os governantes da cidade: somente o filósofo conhece o ser e a verdade; ademais, é sincero, não é apegado aos bens mundanos; aprende com facilidade e possui harmonia interior. A este ponto, Adimanto faz uma objeção, ressaltando que os filósofos também são pessoas estranhas no parecer dos cidadãos. Em resposta a esta objeção, Sócrates observa que se isto acontece, primeiro, é somente nos Estados existentes, governados por demagogos e, segundo, é devido à influência dos sofistas no ambiente da formação do filósofo, pois este, não é em si malvado, porque mesmo a pessoa de natureza excelente pode sofrer influência se não for bem educada, deixando claro que nenhuma das constituições vigentes favorecem à filosofia. Somente a cidade ideal permite ao filósofo desempenhar sua função de governante. A educação dos filósofos deve focar a disciplina mais elevada, a qual tem por objeto o bem. Aqui inicia-se a exposição de densos conceitos e reflexões metafísicas, como o que gira em torno da ideia do bem. Para explicá-la, Sócrates faz uso de uma analogia baseada na luz solar. Introduz também o conceito de mundo sensível e mundo inteligível. Para Sócrates, a visão do bem situa-se no âmbito deste mundo inteligível. Prossegue em sua análise falando sobre os quatro tipos de objetos do conhecimento: as imagens, os objetos sensíveis, os conceitos científicos e as ideias. Os primeiros dois fazem parte do mundo sensível, os últimos, do mundo inteligível.

No Livro sete, como esclarecimento do complexo discurso do livro precedente, apresenta-se o mito da caverna, uma alegoria na qual alguém (o filósofo) se liberta da prisão do mundo sensível, conhece a Verdade do mundo inteligível e se vê, em seguida, no dever de voltar para libertar os que permaneceram na caverna. Após a apresentação deste mito, Sócrates desenvolve a ideia do tipo de educação que deve receber o filósofo para que chegue ao conhecimento do Bem. Recorda as disciplinas da música e da ginástica, que devem também ser acompanhadas da matemática, da geometria, da astronomia, da harmonia e, sobretudo, da dialética, porque esta útima tem por finalidade o conhecimento do bem. Em seguida, são colocados os critérios de escolha dos futuros filósofos dialéticos, as suas qualidades e também os graus de sua educação, a partir da infância: após um período de introdução aos exercícios físicos, devem estudar as várias disciplinas durante toda a juventude. Aos trinta anos devem passam por uma iniciação à dialética. Completando os cinquenta anos, os filósofos recebem o encargo do governo do Estado.

O Livro oito retoma a reflexão iniciada no primeiro livro sobre a felicidade do homem justo e a infelicidade do injusto. Desenvolve esta a questão relacionando as quatro formas de governo existentes com os quatro tipos de homem. São estas, a timocracia, a oligarquia, a democracia e a tirania. A timocracia aproxima-se da aristocracia. O nascimento da aristocracia se deve à corrupção da timocracia, pois neste regime, reinam a ambição e um oculto amor pelo dinheiro. O homem timocrático tem a sua alma guiada pelo elemento impulsivo, por isso, é ambicioso e ávido por dinheiro. Nasce o regime oligárquico, baseado no senso de divisão do Estado entre ricos e pobres. O homem oligárquico também é dominado pelo elemento impulsivo. As ações deste governo provocam revolta na classe mais pobre, o que, por consequência, gera o regime democrático. O homem do regime democrático tem sua alma dominada pelo elemento concupscível. A democracia também não se sustenta como regime, pois da disputa pelo poder, destaca-se aquele que se tornará o tirano, representante do Estado tirânico. Uma vez que toma o poder, o tirano, pelo medo de ser destituído, elimina os melhores cidadãos.

No Livro nove, Sócrates explica a razão pela qual no governo tirânico, injusto, não pode haver felicidade. Inicia com o argumento de que, num tal regime, os cidadãos desenvolvem sentimentos sempre contrários à lei. Estes sentimentos se manifestam, sobretudo, nos sonhos. Para o tirano, o que importa é a satizfação de seus apetites. A este estado, Sócrates contrapõe o Estado Ideal, este sim, promotor da perfeita felicidade. Passa então, à prova da infelicidade do homem tirânico. Na primeira prova, compara a tirania com o Estado ideal: o regime tirânico e o homem que o representa é escravo do medo e das lamentações, por isso é sumamente infeliz; já no Estado ideal, vive o homem real, ao contrário do tirano, goza da máxima felicidade, por ser membro de um regime proporcional ao seu grau de perfeição. Na segunda prova, faz uma relação entre três tipos de prazer e sua correspondência com as três partes da alma.

O Livro dez retorna à discussão sobre a influência da poesia e da imitação na formação do cidadão. Desta vez, Sócrates é ainda mais enfático sobre a necessidade de que sejam abolidas da cidade ideal tanto a poesia, quanto a imitação da arte. Inicia com uma densa reflexão filosófica onde distingue entre as ideias, os objetos sensíveis e os objetos da arte. Para Sócrates, o poeta e o pintor imitam os objetos sensíveis, ou seja, a aparência dos verdadeiros objetos, os inteligíveis. Por isso, estão três graus distantes da Verdade, pois o imitador não possui nem ciência, nem opinião sobre aquilo que imita. Quanto à arte, esta gera ilusão, excitando às paixões e partes inferiores da alma, como por exemplo, é demonstrado nos efeitos negativos da poesia trágica e cômica. Assim, não há espaço nesta cidade para Omero e outros poetas. Passa-se, então, para outra discussão, referente às recompensas asseguradas ao homem virtuoso após sua morte. Com isto, Sócrates toca no tema da imortalidade da alma. Diante da solicitação para que explique sobre a questão, apresenta o mito de Er, que descreve a realidade pela qual a alma passará após sua saída neste mundo, sobre o julgamento ao qual será submetida e sobre o modo pelo qual irá re-encarnar.

Apreciação e considerações finais

A leitura da República é elemento indispensável para quem deseja introduzir-se na filosofia de Platão. Nesta obra está exposta sua concepção filosófica sobre cosmos, sobre o homem, o Estado, a física, a metafísica, isto é, configura-se como uma espécie de síntese de sua produção filosófica.

Excelentes lições sobre os princípios que devem reger a vida, em especial em sua dimensão pública e política, onde o ideal de Estado corresponde ao ideal de homem. Tem-se mesmo a impressão de que Platão quer purificar o homem de sua época, e de todas as épocas, das influências baseadas em uma concepção mítica ou então utilitarista da realidade.

A a educação de verdadeiros cidadãos, exige métodos condizentes com sua natureza, cujo escopo é a excelência, a perfeição. Em seu Estado, pressupõe a divisão de classes e postula, assim, uma hierarquia, segundo a função de cada uma. Das mais importantes novidades parece ser a que prevê os filósofos como os mais indicados ao governo deste Estado ideal, devido aos valores pelos quais pautam a sua existência.

Uma leitura mais atenta, permite ainda iniciar-se na densa e profunda reflexão metafísica deste grande pensador. Por meio desta, toma-se contato com noções essenciais de toda sua obra, como os conceitos que se referem ao mundo das ideias, o mundo real, em contraposição com o mundo sensível, mera aparência daquele.

Platão mantém nesta obra o consagrado estilo literário do diálogo. Estes e inúmeros outros elementos fazem desta obra, uma das mais importantes da história do pensamento ocidental, tanto por sua originalidade, como pela perenidade de conceitos, no que se refere à concepção sobre o cosmos, e o homem enquanto ser político.

Kant:

O opúsculo de I. Kant Resposta à pergunta: Que é o iluminismo? (1784) é, como se sabe, um texto clássico. Por razões várias. É um dos manifestos mais ‘interessantes’ da Ilustração europeia. Como tal, figura não só como um dos mais contundentes apelos ao exercício autónomo da razão, à liberdade de pensamento, mas constitui ainda uma expressão sintomática de um momento fundamental na estruturação da consciência moderna, com o seu afâ de novidade, de expansão e conquista do mundo e da natureza, de destruição da ordem estática das sociedades, mas também com o seu desprezo da tradição, com a vertigem do solipsismo. É, por outro lado, um texto-alvo no recente debate sobre o projecto da modernidade e a reacção pós-moderna (assim na obra de M. Foucault e de J. Habermas, entre outros). Propõe ainda, de certo modo, um ideal imperativo e inatingível - precisamente a consecução da genuína e plena ilustração intelectual - e disso Kant parece dar-se conta no final do ensaio, embora permaneça, contra o que promove, enredado nos preconceitos da sua época, a saber, uma versão algo abstracta da razão arrancada ao húmus da história, encarada sem os nexos relacionais que ligam os seres humanos no seu destino; a inatenção ao papel quase transcendental da linguagem na estruturação do pensamento; a falta de consideração do vínculo entre razão e autoridade (nas suas múltiplas formas), além da pedante convicção de que as idades anteriores aos tempos modernos mergulhavam na ‘menoridade culpada’. "

Na obra Resposta à Pergunta: Que é “Esclarecimento”? [“Beantwortung der Frage: Was ist Aufklärung?”], de 1784, Immanuel Kant sintetiza a confiança desta época na razão (contexto da Revolução Francesa). De acordo com este texto “o Esclarecimento é a saída dos homens da menoridade da qual eles mesmos são culpados. Menoridade é a incapacidade de servir-se de seu entendimento sem a tutela de outrem. inicia seu discurso definindo menoridade como sendo a incapacidade do homem em fazer uso do seu entendimento sem direção de outro indivíduo. Depois, ele define esclarecimento como sendo a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado, segundo Kant.

O homem é culpado de sua menoridade porque já se libertou dos seus instintos animais (“direção estranha”), podendo fazer uso do seu entendimento. Logo, o que o leva ao não esclarecimento é a preguiça e a covardia, por ser mais cômodo ser menor.

Desta forma, o homem entrega o seu esclarecimento à tutores, que, depois de embrutecerem seus “pupilos” e cuidadosamente tê-los preservado a fim de não ousarem “andar” sozinhos, mostram-lhes em seguida o perigo que os ameaça se tentarem. “Andar” seria fazer uso do seu próprio entendimento, revelando uma forte analogia com o mito da caverna de Platão.

Esses “avisos” tornam o homem tímido e temeroso, sendo difícil para ele desvencilhar-se da menoridade, que para ele já se tornou quase uma natureza, chegando mesmo a criar amor a ela. Esse sufocamento por parte dos tutores é feito por preceitos e fórmulas, que são os grilhões de uma perpétua menoridade.

Se a verdadeira liberdade fosse dada, é quase inevitável que um público se esclareça. Tais indivíduos, libertos da menoridade, espalhariam ao seu redor o espírito de uma avaliação racional do próprio valor e da vocação de cada homem em pensar por si mesmo, o espírito do esclarecimento.

Certamente, haverá obstáculo para o esclarecimento geral por parte do próprio público, quando incitado por alguns dos seus tutores ainda não esclarecidos, objetivando manter a ordem vigente. Se um desses tutores se esclarecesse, também seria vítima de seus próprios preconceitos anteriores.

Por isso, um público só muito lentamente pode chegar ao esclarecimento. Kant então conclui, de uma forma bastante interessante, que uma revolução poderia talvez realizar a queda do despotismo pessoal ou da opressão da ordem vigente, porém nunca produziria a verdadeira reforma do modo de pensar, necessária para o esclarecimento geral. Apenas novos preconceitos servirão para conduzir a grande massa “destituída de pensamento”, constituindo uma forte crítica à filosofia comunista-marxista.

Nesse momento, Kant define o uso público e o uso privado da razão. O uso público é aquele que qualquer homem, enquanto sábio, faz da sua razão diante do grande público do mundo letrado. O uso privado é aquele que o sábio pode fazer de sua razão em um certo cargo público ou função a ele confiada.

No uso privado, o sábio deve seguir as normas a que esta subordinado pelo cargo, podendo dar conhecimento de suas idéias ao público, mas desde que estas não entrem em conflito com tais normas. Isso se torna um absurdo, pois o fato dos próprios tutores do povo serem eles mesmos menores resulta na perpetuação dos absurdos. Kant critica a censura pelo poder e o apoio ao despotismo espiritual (pela igreja) contra os súditos, dificultando ainda mais o esclarecimento.

O autor então dá pistas de como poderia ser uma constituição religiosa não fixa, onde homens, na qualidade de sábios, pudessem fazer seus reparos publicamente a possíveis defeitos nas instituições vigentes. Essas últimas manteriam-se intactas até o completo entendimento de tais reparos.

Kant afirma que não estamos em uma época esclarecida, mas em uma época de esclarecimento, pois falta muito para que os homens em conjunto sejam capazes de fazer uso público de suas razões.

Os homens se desprendem por si mesmos progressivamente do estado de selvageria, principalmente quando o regime vigente dá liberdade em matéria religiosa; mas esse processo é lento e muito difícil. Kant dá ênfase à matéria religiosa como ponto principal do esclarecimento, porque “no que se refere as artes e ciências nossos senhores não têm interesse em exercer tutela sobre seus súditos”, além de que a menoridade religiosa é a mais prejudicial e desonrosa.

Kant então finaliza o seu discurso, de uma forma brilhante, lembrando o rei filósofo de Platão, e a complementaridade entre o Antigo Testamento, da ordem e obediência, e o Novo Testamento, da verdade e liberdade.

Ele justifica que um monarca esclarecido, chefe de um poderoso e disciplinado exército pode dizer ao povo o que é praticamente impossível (o que Deus diz ao homem): “Raciocinai tanto quanto quiserdes e sobre qualquer coisa que quiserdes; apenas obedecei”.

Kant argumenta que a natureza por baixo desse duro envoltório da ordem dá espaço ao ensejo de expandir a liberdade de espírito do povo e, pouco a pouco, o povo se tornaria cada vez mais capaz de agir de acordo com a liberdade, e o governo (ou regime vigente) acharia conveniente para si próprio tratar o homem, que agora é mais que uma simples máquina, de acordo com a sua dignidade.

O que a Matriz de Avaliação diz sobre essa a obra?

“O filósofo alemão, Immanuel Kant, também preocupado com o uso da razão, escreveu, em 1784, o texto Resposta à pergunta: o que é o esclarecimento?, a partir do qual pensa e problematiza seu próprio tempo e apresenta orientações para o uso da razão a fim de emancipar os seres humanos de uma condição de minoridade. Nessa obra, o uso da razão mostra-se como necessário para livrar os homens de um estado de submissão, estado esse pelo qual os próprios homens são responsabilizados. Seja por acomodação ou por indolência, os homens permitem que outros tomem decisões essenciais em seu lugar, e isso não por falta de inteligência, como nota o autor, mas por falta de coragem. Permitem que se erijam tutores que se preocupam, pensam e agem no lugar do sujeito. Nesse sentido, o lema do Iluminismo Sapere aude!, ou “Ouse saber!”, é reivindicado por Kant como uma divisa para que os homens façam o uso público da razão para assim atingir a maioridade intelectual. Para Kant, somente uma sociedade livre pode gerar indivíduos autônomos.

Não obstante ter sido escrito no século XVIII, o texto guarda grande atualidade e é rico em reflexões sobre a liberdade humana e o uso do pensamento como instrumento de emancipação. Entretanto, sendo o ser humano um ser racional, caberia, em nossos tempos, questionar: por que a dificuldade de compreender que suas atitudes interferem de forma decisiva na preservação ou na destruição do ambiente?” (Fonte: Página 4 da Matriz dos Objetos de Avaliação do Programa de Avaliação Seriada)

“No campo da história das ideias, cabe indagar: como o texto de Kant, Resposta à pergunta: o que é o esclarecimento?, ao tratar do uso da razão, reflete-se na Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU, 1948) e na Constituição Federal, Capítulo II, Direitos Sociais Fundamentais, artigos 6° ao 11° (Congresso Nacional Constituinte, Brasil, 1988)? Que relações entre este texto e os movimentos da abolição da escravatura e instituição da república brasileira podem ser estabelecidas?” (Fonte: Página 11 da Matriz dos Objetos de Avaliação do Programa de Avaliação Seriada)

“A compreensão desse aspecto coloca o ser humano não só como a espécie mandatária dos destinos dos outros seres vivos, mas também como uma espécie que transforma e compreende o mundo de forma diferente das demais. Kant, no texto Resposta à pergunta: o que é o esclarecimento?, propõe que são autônomos e livres os homens que vivem segundo o uso público da razão.” (Fonte: Página 24 da Matriz dos Objetos de Avaliação do Programa de Avaliação Seriada)

“No campo do pensamento e das Ciências, vale destacar a construção de ideologias e paradigmas a partir do Iluminismo – e dos seus desdobramentos. Verifica-se a abrangência desse fenômeno, sobretudo quando se abordam os movimentos de emancipação na América Latina, em particular no Brasil. Há obras filosóficas que antecedem este processo e apontam aspectos relevantes desta formação do mundo ocidental contemporâneo, dentre as quais convém destacar o texto de Kant, Resposta à pergunta: o que é o esclarecimento?” (Fonte: Página 26 da Matriz dos Objetos de Avaliação do Programa de Avaliação Seriada)

“A perspectiva apresentada por Immanuel Kant, no texto Resposta à pergunta: o que é o esclarecimento?, propõe ultrapassar limitações vinculadas às orientações empiristas ou racionalistas, num esforço de síntese entre essas escolas filosóficas.” (Fonte: Página 29 da Matriz dos Objetos de Avaliação do Programa de Avaliação Seriada)

“A partir do cartesianismo, um conjunto de perspectivas desdobrou-se em distintas correntes filosóficas, numa espécie de tensão entre racionalismo e empirismo, tendo em comum a crença na razão enquanto faculdade humana potencialmente suficiente para produzir novos conhecimentos científicos. No século seguinte, Kant, em seu texto Resposta à pergunta: o que é o esclarecimento?,

provoca seus leitores ao uso público da razão. Esse filósofo propõe a liberdade e a autonomia no horizonte das possibilidades humanas, denuncia a facilidade com que a maioria se mantém sob a tutela de outros – por comodidade ou covardia, e enuncia em sua teoria uma síntese entre racionalismo e empirismo.

Essas orientações filosóficas possibilitaram às ciências novas perspectivas na produção de conhecimento e levaram ao desenvolvimento de teorias que fundamentaram novas formas de apreensão da realidade, em um esforço de categorização e classificação. ” (Fonte: Página 38 da Matriz dos Objetos de Avaliação do Programa de Avaliação Seriada)

Etica a nicomaco

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Notiz am Ohne Titel, erstellt von Jessica Barbosa am 27/06/2017.
Erstellt von
Jessica Barbosa · Jun 2017
Aktualisiert
5 Feb 2018
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