Apuntes
Sin título
Contenido del apunte (1)
Página 1
O objetivo deste trabalho é apresentar algumas reflexões referentes a Consciência, ressaltando seu processo de constituição,suas mediações e sua importância para a compreensão das formas de pensar, sentir e agir do ser humano, utilizamos também propostas e análises do autor Vygotski que faz uma reflexão complexa sobre tal questão.
Desde o princípio a psicologia era "a descrição e a explicação dos estados de consciência". No entanto, ao decorrer dos anos a dificuldade de se estudar cientificamente a consciência levou muitos psicólogos, incluindo os da emergente escola do behaviorismo, a se voltarem para as observações diretas do comportamento,com tempo, a psicologia já havia praticamente perdido a consciência e se autodefinia como "a ciência do comportamento." Ao se referir à necessidade de avançarmos nos estudos sobre a consciência, Vygotski afirmava: "O estado em que se encontra a nossa ciência mantém-na ainda muito longe da fórmula final de um teorema geométrico que coroe com o último argumento, como queríamos comprovar". O autor tinha razão na época e ainda hoje a tem: apesar dos avanços alcançados nessa área, há ainda muito o que pesquisar sobre a questão da consciência. Ao refletir se sobre a questão, Vygotski aponta o fato de que a exclusão da consciência do campo da psicologia científica sugere a adoção de dois caminhos muito diversos. De um lado, a postulação de uma psicologia sem psique, quando se admite a possibilidade de o comportamento do homem ser explicado sem que se recorra a fenômenos subjetivos. De outro, a aceitação de uma psicologia que pretende estudar a psique pura, desvinculada do comportamento. Em ambos os casos, há uma posição dualista, na qual se institui a divisão entre objetivo/subjetivo e interno/externo. No entanto, começou a avançar as análises sobre a categoria da consciência, e os conceitos mentais começam reaparecer, até mesmo com avanços da neurociência que foi possível relacionar a atividade cerebral ao sono, aos sonhos, e a outros estados mentais. A psicologia estava recuperando a consciência. Vygotski afirma que a natureza psicológica dos homens representa o agregado de relações sociais internalizadas que se tornaram, para o indivíduo, funções e formas de sua estrutura. Assim, grande é a ênfase dada pelo autor à origem social da linguagem e do pensamento. De igual forma, outro ponto analisado por Vygotski é que as funções psicológicas superiores são produtos da atividade cerebral. Segundo ele, a psicologia dialética parte da unidade dos processos psíquicos e fisiológicos: A psique não deve ser considerada como uma série de processos especiais que ocorrem em algum lugar acima e à parte dos processos cerebrais, senão como expressão subjetiva deles mesmos (processos), como uma característica especial das funções superiores do cérebro. Pode-se afirmar, portanto, que para a psicologia sócio histórica, o homem é um ser ativo, social e histórico. Essa é a sua condição humana, a qual lhe permite constituir suas formas de pensar, sentir e agir, ou seja, constituir sua consciência.
Mas o que realmente é a consciência? Para a maioria dos psicólogos atuais é a nossa percepção de nós mesmos e do ambiente à nossa volta. Nosso foco de percepção nos permite reunir informações de variadas fontes ao refletirmos o passado e planejarmos o futuro. Como afirma Leontiev: o reflexo da realidade objetiva pela consciência não se produz passivamente, mas de maneira ativa, criativa, sobre a base e no decorrer da transformação prática da realidade”. É nesse sentido que se afirma ser o homem ativo e social: O homem, ao nascer, é candidato à humanidade e a adquire no processo de apropriação do mundo. Nesse processo, converte o mundo externo em um mundo interno e desenvolve, de forma singular, sua individualidade.
A linguagem, segundo Vygotski , também produzida social e historicamente, é o instrumento fundamental nesse processo de constituição do sujeito. Os signos, entendidos como instrumentos convencionais de natureza social, são os meios de contato com o mundo exterior e, também, do homem consigo mesmo e com a própria consciência. As palavras desempenham um papel central não só no desenvolvimento do pensamento, mas também na evolução histórica da consciência como um todo. Uma palavra é um microcosmo da consciência humana. Os signos representam, assim, a forma privilegiada de apreensão da consciência. Desse modo, Vygotski chega a uma de suas conclusões mais importantes, qual seja: a análise semiótica é o único método adequado para estudar a estrutura do sistema e do conteúdo da consciência. Para ele no entanto, a atividade humana não é internalizada em si, e sim como atividade significada, tal como um processo social, mediado semioticamente. A consciência, dessa forma, é semioticamente estruturada, resultado dos próprios signos, ou seja, de instrumentos construídos pela cultura e pelos outros que, quando internalizados, se tornam instrumentos internos e subjetivos da relação do indivíduo consigo mesmo. Signo é, pois, entendido neste caso como tudo aquilo que possui um significado e que remete a algo situado fora de si mesmo: é o elemento que integra as funções psíquicas superiores. É fundamental que não se compreenda o signo simplesmente como uma ferramenta que transforma o mundo externo. Diferentemente dos instrumentos, orientados para regular os objetos externos que, na realidade, constituem condutores da influência humana sobre o objeto da atividade, os signos são orientados para regular as ações sobre o psiquismo das pessoas. Dessa maneira, o homem, ao internalizar alguns aspectos da estrutura da atividade, internaliza de fato não apenas uma atividade, mas uma atividade com significado, como um processo social que, como tal, é mediado semioticamente, ao ser internalizado.
Uma outra questão fundamental para Vygotski diz respeito ao fato de que as funções psicológicas, como toda produção cultural e social, são produtos da atividade humana. O homem transforma a natureza com sua atividade por meio dos instrumentos e, assim, transforma-se a si próprio. Dessa maneira, se o ser humano forma-se por meio de uma relação dialética com a realidade social, não cabe a ideia de que a constituição do sujeito resulte de uma mera transposição do plano social para o individual. A constituição do sujeito é vista, pois, como resultado de um processo de conversão do social no individual, sem que indivíduo e sociedade mantenham entre si uma relação isomórfica. Pino oferece algumas pistas acerca de como melhor compreender o termo conversão, de que fala Vygotski. Indica, como uma das mais interessantes, aquela ligada ao uso do termo para designar mudanças pelas quais o indivíduo pode passar. Essa pista, segundo Pino aponta no sentido de que a conversão é um processo semiótico: descobrir/assumir uma significação nova das coisas. [...] A conversão de que fala Vygotski consistiria em transformar materialidades concretas em produções simbólicas, como é próprio de toda atividade humana. Assim, progressivamente, pela mediação das relações sociais, o homem vai se constituindo em uma unidade de produção, na qual, em um processo contínuo, matéria será convertida em produções semióticas e processos de dimensão social serão convertidos em processos de dimensão individual. A noção de conversão pressupõe, portanto, a noção de superação e de mediação, pois o que ocorre não é a internalização de algo de fora para dentro, mas a conversão de algum elemento da realidade social, em algo que mesmo permanecendo quase social se transforma num elemento constitutivo do sujeito. Retoma-se, assim, a ideia de que, para compreender a gênese da consciência, é necessário analisar os processos de internalização da linguagem.
Se a gênese da consciência reside na compreensão da atividade significativa atividade de transformação mediada e instrumental do meio , chega-se ao significado da palavra como unidade de análise da consciência, visto conter as propriedades do todo, elementos constitutivos e inseparáveis: o pensamento e a linguagem. Para Vygotski: O significado de uma palavra representa um amálgama tão estreito do pensamento e da linguagem, que fica difícil dizer que se trata de um fenômeno da fala ou um fenômeno do pensamento. Assim, o significado é fenômeno do pensamento apenas quando o pensamento ganha corpo por meio da fala, e só é fenômeno da fala na medida em que a palavra está ligada ao pensamento, sendo iluminada por ele. A linguagem é, portanto, instrumento fundamental no processo de mediação das relações sociais, por meio do qual o homem se individualiza, humaniza-se, apreende e materializa o mundo das significações que é construído no processo social e histórico. A compreensão da gênese da consciência se dá, portanto, pelo entendimento da atividade significativa, atividade de transformação mediada e instrumental do meio, em última instância, pelo significado da palavra.
De fato, as formas de significação, que traduzem as formas de sociabilidade humana, permitem compreender não só a constituição das funções psicológicas superiores como a própria consciência. A significação, dessa maneira, não pode ser entendida como algo pronto. Ao contrário, deve ser vista como um processo no qual constantemente os signos, ou significados instituídos, são reelaborados em razão de condições históricas próprias. Vale dizer que os processos de significação são, de um lado, constituintes da consciência e, de outro, sua função. A consciência, portanto, surgirá não só mediante a encarnação dos signos, mas também por intermédio do processo de significação, que traduz as condições de funcionamento da sociedade, suas estruturas de relação e suas práticas sociais. Mas a consciência pertence, também, a um sistema com leis específicas, que é o sistema psíquico. Todo fenômeno ideológico, ao longo do processo de sua criação, passa pelo psiquismo, ou seja, todo signo ideológico exterior, qualquer que seja sua natureza, banha-se nos signos interiores, na consciência. Ele nasce deste oceano de signos interiores e aí continua a viver, pois a vida do signo exterior é constituída por um processo sempre renovado de compreensão, de emoção, de assimilação, isto é, por uma integração reiterada no contexto interior.
No esforço de compreender a consciência pelos processos de significação, não se pode esquecer que essa atividade significativa não é simplesmente cognitiva e intelectual: ela contém, ainda, uma dimensão emocional. A consciência constitui a forma como o indivíduo apreende o mundo físico e social, em um trabalho de interpretação da vida, de nós mesmos, da relação com o mundo, através do pensar, do sentir, do sonhar. Segundo Vygotski, pensamento e emoção não podem ser compreendidos de forma dicotomizada, uma vez que o processo cognitivo não existe descolado da emoção: independentemente de o pensamento ser lógico ou emocional, ele sempre será um fenômeno que tem como base a emoção. Discutindo inexistência de dicotomia entre pensamento e emoção, Vygotski afirma que: o pensamento propriamente dito é gerado pela motivação, isto é, por nossos desejos e necessidades, nossos interesses e emoções. Por trás de cada pensamento há uma tendência afetivo volitiva, que traz em si a resposta ao último por que de nossa análise do pensamento. Uma compreensão plena e verdadeira do pensamento de outrem só é possível quando entendemos sua base afetivo-volitiva. Dessa forma, o atuar, pensar, sentir, perceber constituem um processo único, cujas partes só se diferenciam funcionalmente para, em um outro processo paralelo, novamente virem a se integrar. Assim, o pensamento deve ser concebido como emocional e a linguagem como algo sempre emocionado, ou seja, ambos terão como elemento constitutivo a dimensão afetiva, expressando uma avaliação do sujeito.
Cabe aqui destacar a contribuição de Heller (1985) para a compreensão dessas questões. Para a autora, um aspecto essencial a ser considerado nessa discussão é a unidade entre sentimento, pensamento e moralidade. Sentimentos não podem jamais ser tratados e apreendidos fora do conhecimento e/ou da ação moral e vice-versa. De fato, segundo Heller, sentir seja positiva ou negativamente significa estar implicado em algo e, dessa forma, a implicação vai estar sempre presente no atuar e no pensar. A implicação, nesse sentido, representa um fator constitutivo e inerente do atuar e pensar; a implicação está incluída em tudo isso, por via da ação ou da reação. Ao discutir o conceito de implicação, Heller afirma ser inconcebível haver implicação zero, ou seja, a presença de um acontecimento sem significado. Não obstante, pode ocorrer, sim, situações de baixa implicação, muitas vezes relacionadas àquelas situações rotineiras, repetitivas. No entanto, diante do surgimento de obstáculos, novas vivências são suscitadas, tanto cognitiva como afetivamente, surgindo novos significados, gerando inquietação, movimento, novas possibilidades e, consequentemente, uma maior implicação. Desse modo, a implicação é vista como parte estrutural, inerente ao pensamento e à ação. De igual forma, a compreensão do sentir, como estar implicado em, requer a clareza de que subjetivação e objetivação são no desenvolvimento do homem e no do indivíduo duas direções inseparáveis, interdependentes e tangenciais. O ser humano, ao nascer, traz consigo um código genético que tem inscrito somente as condições para a existência da espécie, o que Heller denomina de essência muda da espécie. No entanto, o caráter próprio da espécie humana é externo aos indivíduos no momento de seu nascimento. Assim, segundo a autora, o homem nasce com uma máquina (cérebro) programada para operações ideativas (simbólicas) e para projeções, com capacidade de armazenar memória e desenvolver operações simultâneas. Sem dúvida, tais tarefas não são subministradas pelo cérebro no momento do nascimento. São subministradas pelo mundo, pelo ser no mundo, pela subsistência e orientação nele, pelo sistema de símbolos, como a linguagem, as formas de manipulação, as objetivações em geral; dito de outro modo, pelo caráter próprio da espécie. Em sua existência, portanto, o homem começa a se apropriar das tarefas do mundo e a integrá-las, desenvolvendo, assim, a relação sujeito/objeto, que o caracteriza como ser humano. Em última instância, o sentimento informa sobre a importância do objeto para o sujeito e não sobre a natureza do objeto; fornece informação sobre o que realmente se é; avalia o significado dos objetos para o sujeito. Sem dúvida, o homem também faz, de si mesmo, objeto de sua consciência, ou seja, sem a consciência de si, não pode haver ser humano. No entanto, o processo de estar implicado em algo pode se dar de diferentes formas: o centro da minha consciência pode estar ocupado pela própria implicação, ou pelo objeto em que estou implicado. Portanto, o sentimento pode ser figura ou fundo. Para a autora, sentimento e emoção são diferentemente conceituados. Em um processo de estar implicado em algo, se a tônica estiver na implicação, a emoção estará no centro da consciência, ou seja, pode-se dizer que dos elementos componentes da organização da consciência, a emoção ocupa lugar central. Por outro lado, se a tônica estiver em algo em que se está implicado (por exemplo, a própria tarefa), o sentimento é fundo. Sintetizando, Heller coloca que seria mais adequado afirmar que a emoção tende a ser mais figura, e o sentimento, mais fundo. A implicação aparece como figura (como emoção) em casos em que a ação, o pensamento ou a relação com alguém (ou com algo) se encontra impedida. Por outro lado, quando se está concentrado na resolução de um problema, a implicação tende a permanecer mais como fundo (como sentimento). A autora deixa claro, portanto, que a implicação é parte inerente, estrutural, e não mero acompanhamento da apreensão intelectual. Vê-se, então, que para compreender a construção social da consciência, o pensar, agir e sentir só podem ser vistos de maneira integrada. Como um exemplo das várias questões que merecem maior aprofundamento, destaca-se o fato de que apesar das emoções serem sempre constituídas a partir das experiências, elas são, por um lado, significadas (passando a ter um sentido para o sujeito e podendo ser expressas pela linguagem) e, por outro, podem não o ser (permanecendo inconscientes). Tal reflexão implica uma discussão bastante complexa: a questão do inconsciente, definido de forma semelhante por Vygotski, o inconsciente constitui os aspectos não significados, aqueles que, muitas vezes, são cultural e socialmente negados: a vida psíquica supõe uma série de fenômenos excessivamente fragmentários, que continuam a existir mesmo sem termos consciência deles. Consciência e inconsciente vivem, assim, uma relação de mediação, na qual um não se dilui no outro, cada qual mantendo sua identidade, ainda que um não exista sem o outro. Pode-se afirmar, portanto, que o inconsciente é parte constitutiva da consciência e vice-versa. Tentando esboçar uma análise da relação entre consciente e inconsciente, da tensão constante existente entre eles, acredita-se que será pelo movimento de ressignificação, da dinâmica que o inconsciente impõe à consciência, que os aspectos não significados podem se articular, integrando-se ao processo de ressignificação e se tornando, dessa forma, conscientes. Dessa maneira, empenho deve ser feito visando à compreensão das formas de significação expressas pelo sujeito, tendo clareza de que não se pode ficar na aparência: há que se alcançar explicações para os sentidos atribuídos, de modo que se revelem e se explicitem as formas de pensar, sentir e agir. Será pelas significações (mesmo que carregadas de emoções mal apreendidas pelo sujeito), pela busca de suas determinações, que se poderá investigar a constituição histórica e social, única e irrepetível do sujeito.
Segundo Rey, as configurações subjetivas devem ser compreendidas como uma categoria que pretende explicar uma zona do real, possibilitando uma maior compreensão da constituição do interno e, mais precisamente, do novo. Segundo o autor, as configurações são categorias complexas, pluridimensionais, que representam a unidade dinâmica na qual se definem os diferentes sentidos subjetivos dos eventos sociais vividos pelo homem Neste sentido, o autor chama a atenção para o fato de que o externo só adquire sentido no momento em que entra em contato com o interno, uma vez que o externo, em razão de sua própria condição, não pode definir o interno. A história do próprio interno, do subjetivo, é que vai alocar significado ao externo. Deste modo, no processo constante de internalização, o social aparece configurado em termos subjetivos, ou seja, a realidade aparece de outra maneira, constituída subjetivamente, na forma de configuração. Segundo Rey, as configurações constituem-se no plano psicológico mas, simultaneamente, são expressões das diferentes atividades e relações sociais desenvolvidas pelo sujeito. Ainda segundo o autor: ...as configurações não se constituem em uma expressão de uma lógica do interno ou do externo, senão que expressão de uma lógica em que o externo e o interno se integram, dando lugar a um novo processo, no qual o interno permanentemente se externaliza e vice-versa. Fica claro, portanto, que o social não pode ser definido como externo ao subjetivo: ele é, antes, um dos seus determinantes essenciais. Por outro lado, o social é, sim, externo, visto que, como forma de realidade, não se esgota naqueles aspectos que são significados pelo sujeito individual. De igual modo, o social é também interno, porque sua significação depende de um processo de constituição de sentido, no qual interno e externo perdem sua condição de antinomia e se integram em uma complexa relação de mediação. A partir dessas colocações, é possível considerar que a realidade aparece constituída subjetivamente, na forma de configuração, permitindo apreender os sentidos subjetivos que se organizam em torno de determinados fatos, objetos, eventos etc. Um exemplo do próprio Rey pode auxiliar a compreender melhor esta intrincada questão. Escolheu-se a atividade de leitura, por ser considerada de natureza social e socializadora. Inicialmente, para entender o sentido subjetivo que a leitura tem para o sujeito, deve-se perguntar pelos motivos que o impulsionam a essa atividade, verificando-se que uma multiplicidade deles se organiza em seu redor, a vontade de ler talvez sendo o motivo mais importante. No entanto, para que se possa compreender qual a configuração psicológica que se constitui em torno dessa atividade (compreendida como um conjunto de relações), torna-se necessário que se busque o maior número possível de elementos (motivos) envolvidos. Assim, além da vontade de ler, outros motivos aparecem configurados: a necessidade de comunicação, a possibilidade de independência adquirida com a leitura, o desejo de aumentar a auto-estima, a segurança etc. Essas necessidades, construídas ao longo da história do indivíduo, vão se configurando em motivos específicos para a leitura. A inter-relação dinâmica desses diferentes elementos (motivos) leva-os a se constituírem como estados portadores de um valor emocional estável. Serão justamente esses estados emocionais estáveis que definirão o sentido subjetivo atribuído pelo sujeito à leitura. Ou seja, da articulação desse conjunto de diferentes elementos (motivos carregados de emoções) surgem algumas emoções mais fortes, estáveis, irrepetíveis, que conferem, para um dado sujeito, sentido à atividade de leitura. Mas o sentido subjetivo terá, necessariamente, alguns aspectos significados e outros não, ou seja, vários aspectos constitutivos da configuração não são significados, vale dizer: não são conscientes. O sujeito pode processar cognitivamente uma ou mais emoções envolvidas e que podem preponderar na configuração, chegando a um sentido, sem necessariamente, no entanto, apreender a multiplicidade de estados emocionais presentes. Certamente, o próprio processo de constituição das emoções envolvidas na configuração permanece oculto para o sujeito. Pode-se dizer que o caminho desejável seria o de se apropriar do maior número possível de elementos constitutivos das configurações, tornando-os conscientes. Deve ficar claro que as configurações são históricas e se modificam ao longo da vida: transformam-se em atividade, em história, em relacionamentos. Dessa maneira, falar de sentido subjetivo, expresso pelo sujeito num determinado momento, acerca de determinado objeto ou fato social, não expressa a totalidade das emoções vividas e historicamente constituídas. A categoria configurações subjetivas permite, pois, alcançar aos sentidos subjetivos, que se constituem, como afirma Rey, para além de um fato cognitivo, um afeto constituído. As configurações podem, ainda, conter elementos antagônicos, sentimentos conflitantes, fazendo com que as emoções que aparecem como predominantes e mais estáveis gerem um sentido subjetivo contraditório, que inclua prazer e desprazer, amor e ódio. As configurações devem, pois, ser vistas sempre em movimento, em constante interpenetração, em contínua transformação diante de novas atividades, de novas relações e de novas necessidades. Dependendo das relações estabelecidas, elementos dinâmicos alteram-se, transformando a configuração e, portanto, o sentido subjetivo que, dessa forma, só pode ser entendido como histórico e dinâmico. A compreensão das emoções é fundamental para que se possa pensar em como as modificações se processam. De fato, na base, e mesmo constituindo as contradições, há sentimentos muitas vezes não significados, que movimentam e estimulam novas posições e alterações. A mudança, nessa ótica, é encarada como um processo subjetivo, mas de natureza social, no qual as relações vividas vão sendo integradas de maneira contraditória pelo sujeito: o diferente move o constituído, que se desintegra ao integrar o externo. A subjetividade é, assim, histórica: constrói-se ao longo da vida do sujeito e, por essa razão, não pode refletir o imediato, uma vez que a história da subjetividade deverá, também, incorporar e refletir a realidade objetiva. Ora, para que mudanças determinadas historicamente, como processo subjetivo, que integra tanto aspectos significados (conscientes) como não significados (inconscientes) ocorram, não basta o processo de assimilação e construção do novo, pela linguagem e pensamento, ainda que ambos sejam sempre mediados por sentimentos. Segundo Rey (1996), é necessário que as configurações se alterem, de modo que o novo mobilize não apenas as significações constituídas, como também os sentimentos não significados, construídos não intencionalmente. De outra forma, corre-se o risco de que, sem a desintegração do constituído, surjam sentimentos impeditivos da integração do novo. Vê-se, então, que as formas de pensar e sentir o mundo expressam uma integração, muitas vezes contraditória, de experiências, de conhecimentos (aspectos significados), de uma história social e pessoal (mediada pela ideologia, pela classe social, pelas instituições etc.) e de emoções vividas, mas não necessariamente significadas. Finalizando, a consciência deve ser vista como um sistema integrado e multideterminado, em uma processualidade permanente, na qual é possível a reconstrução interna do mundo objetivo. As colocações feitas até o momento evidenciam a dialética da consciência: o quanto ela é tencionada por produtos históricos e pela subjetividade dos sujeitos, o quanto ela é social e ideológica, intersubjetiva e particular. Isso posto, mais uma vez parece ser preciso concordar com Vygotski quando ele afirma que não temos de ignorar os fatos da consciência, mas materializá-los, transladá-los a um idioma objetivo que existe na realidade e desmascarar e enterrar para sempre as ficções, fantasmagorias etc..
Información
- Descripción
- Apunte sobre Sin título, creado por Estefany Sabrine el 29/05/2017.
- Creado por
- Estefany Sabrine
- Visitas
- 0
- Valoración