Sin título
Diapositivas del conjunto (2)
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- Canto Inês de Castro (Canto III)
- Passada esta tão próspera vitória,
- Tornado Afonso à Lusitana Terra,
- A se lograr da paz com tanta glória
- Quanta soube ganhar na dura guerra,
- O caso triste e dino da memória,
- Que do sepulcro os homens desenterra,
- Aconteceu da mísera e mesquinha
- Que despois de ser morta foi Rainha.
- Tu, só tu, puro amor, com força crua,
- Que os corações humanos tanto obriga,
- Deste causa à molesta morte sua,
- Como se fora pérfida inimiga.
- Se dizem, fero Amor, que a sede tua
- Nem com lágrimas tristes se mitiga,
- É porque queres, áspero e tirano,
- Tuas aras banhar em sangue humano.
- Estavas, linda Inês, posta em sossego,
- De teus anos colhendo doce fruito,
- Naquele engano da alma, ledo e cego,
- Que a fortuna não deixa durar muito,
- Nos saudosos campos do Mondego,
- De teus fermosos olhos nunca enxuito,
- Aos montes insinando e às ervinhas
- O nome que no peito escrito tinhas.
- Do teu Príncipe ali te respondiam
- As lembranças que na alma lhe moravam,
- Que sempre ante seus olhos te traziam,
- Quando dos teus fernosos se apartavam;
- De noite, em doces sonhos que mentiam,
- De dia, em pensamentos que voavam;
- E quanto, enfim, cuidava e quanto via
- Eram tudo memórias de alegria.
- De outras belas senhoras e Princesas
- Os desejados tálamos enjeita,
- Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas,
- Quando um gesto suave te sujeita.
- Vendo estas namoradas estranhezas,
- O velho pai sesudo, que respeita
- O murmurar do povo e a fantasia
- Do filho, que casar-se não queria,
- Tirar Inês ao mundo determina,
- Por lhe tirar o filho que tem preso,
- Crendo co sangue só da morte ladina
- Matar do firme amor o fogo aceso.
- Que furor consentiu que a espada fina,
- Que pôde sustentar o grande peso
- Do furor Mauro, fosse alevantada
- Contra hûa fraca dama delicada?
- Traziam-na os horríficos algozes
- Ante o Rei, já movido a piedade;
- Mas o povo, com falsas e ferozes
- Razões, à morte crua o persuade.
- Ela, com tristes e piedosas vozes,
- Saídas só da mágoa e saudade
- Do seu Príncipe e filhos, que deixava,
- Que mais que a própria morte a magoava,
- Pera o céu cristalino alevantando,
- Com lágrimas, os olhos piedosos
- (Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
- Um dos duros ministros rigorosos);
- E despois, nos mininos atentando,
- Que tão queridos tinha e tão mimosos,
- Cuja orfindade como mãe temia,
- Pera o avô cruel assi dizia:
- (Se já nas brutas feras, cuja mente
- Natura fez cruel de nascimento,
- E nas aves agrestes, que somente
- Nas rapinas aéreas tem o intento,
- Com pequenas crianças viu a gente
- Terem tão piedoso sentimento
- Como co a mãe de Nino já mostraram,
- E cos irmãos que Roma edificaram:
- ó tu, que tens de humano o gesto e o peito
- (Se de humano é matar hûa donzela,
- Fraca e sem força, só por ter sujeito
- O coração a quem soube vencê-la),
- A estas criancinhas tem respeito,
- Pois o não tens à morte escura dela;
- Mova-te a piedade sua e minha,
- Pois te não move a culpa que não tinha.
- E se, vencendo a Maura resistência,
- A morte sabes dar com fogo e ferro,
- Sabe também dar vida, com clemência,
- A quem peja perdê-la não fez erro.
- Mas, se to assi merece esta inocência,
- Põe-me em perpétuo e mísero desterro,
- Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente,
- Onde em lágrimas viva eternamente.
- Põe-me onde se use toda a feridade,
- Entre leões e tigres, e verei
- Se neles achar posso a piedade
- Que entre peitos humanos não achei.
- Ali, co amor intrínseco e vontade
- Naquele por quem mouro, criarei
- Estas relíquias suas que aqui viste,
- Que refrigério sejam da mãe triste.)
- Queria perdoar-lhe o Rei benino,
- Movido das palavras que o magoam;
- Mas o pertinaz povo e seu destino
- (Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
- Arrancam das espadas de aço fino
- Os que por bom tal feito ali apregoam.
- Contra hûa dama, ó peitos carniceiros,
- Feros vos amostrais e cavaleiros?
- Qual contra a linda moça Polycena,
- Consolação extrema da mãe velha,
- Porque a sombra de Aquiles a condena,
- Co ferro o duro Pirro se aparelha;
- Mas ela, os olhos, com que o ar serena
- (Bem como paciente e mansa ovelha),
- Na mísera mãe postos, que endoudece,
- Ao duro sacrifício se oferece:
- Tais contra Inês os brutos matadores,
- No colo de alabastro, que sustinha
- As obras com que Amor matou de amores
- Aquele que despois a fez Rainha,
- As espadas banhando e as brancas flores,
- Que ela dos olhos seus regadas tinha,
- Se encarniçavam, fervidos e irosos,
- No futuro castigo não cuidosos.
- Bem puderas, ó Sol, da vista destes,
- Teus raios apartar aquele dia,
- Como da seva mesa de Tiestes,
- Quando os filhos por mão de Atreu comia !
- Vós, ó côncavos vales, que pudestes
- A voz extrema ouvir da boca fria,
- O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
- Por muito grande espaço repetistes.
- Assi como a bonina, que cortada
- Antes do tempo foi, cândida e bela,
- Sendo das mãos lacivas maltratada
- Da minina que a trouxe na capela,
- O cheiro traz perdido e a cor murchada:
- Tal está, morta, a pálida donzela,
- Secas do rosto as rosas e perdida
- A branca e viva cor, co a doce vida.
- As filhas do Mondego a morte escura
- Longo tempo chorando memoraram,
- E, por memória eterna, em fonte pura
- As lágrimas choradas transformaram.
- O nome lhe puseram, que inda dura,
- Dos amores de Inês, que ali passaram.
- Vede que fresca fonte rega as flores,
- Que lágrimas são a água e o nome Amores.
Información
- Descripción
- Diapositivas sobre Sin título, creado por Alana Silva el 26/05/2020.
- Creado por
- Alana Silva
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