Módulo 3 de 6 · Mídia
CODIFICAÇÃO, ARMAZENAMENTO E RECUPERAÇÃO DA MEMÓRIA
A CODIFICAÇÃO, ARMAZENAMENTO E A RECUPERAÇÃO
De uma maneira bem simplificada, chamamos de memória a capacidade que os seres vivos têm de adquirir, armazenar e evocar informações.
Todo ato de lembrar implica que houve sucesso em pelo menos três aspectos: A aquisição (codificação), consolidação (armazenamento) e evocação (recuperação). Esses processos não ocorrem necessariamente de maneira linear no tempo, mas sim simultaneamente . Enquanto armazenamos uma informação podemos estar a evocando, sem que para isso seja necessário o térimo de uma etapa para que outra se inicie.
A aquisição diz respeito ao momento em que a informação chega até nosso sistema nervoso e se dá por meio das estruturas sensoriais, as quais transportam a informação recebida até as regiões encefálicas. No processo de aquisição esses dados sensoriais podem ser traduzidos em um código. O processamento superficial decorre da codificação de características superficiais do estímulo, enquanto o processamento profundo é focado no significado dos dados sensoriais. Como comentado no tópico anterior, um evento ou objeto de pouca importância aparente, pode passar a ter alto grau de recordação em momento futuro.
Ter a consciência do significado das afirmações e o que ela representa (código semântico). A codificação reporta-se à aprendizagem deliberada, ou seja, a aprendizagem que exige esforço, levando à memorizar a informação. Sua relação com a atenção é direta, de tal forma que podemos pensar que esse processo de aquisição pode ser composto tanto do aspecto perceptivo, como o foco da atenção propriamente dito. Quanto maior a dedicação em compreender às informações, mais profundamente podemos levar a uma codificação duradoura.
Após a aquisição da informação, poderá ocorrer o processo de consolidação, que diz respeito ao momento de armazenar a informação. Esse armazenamento - que representa a memória - segundo as teorias vigentes podem se dar de duas maneiras distintas: (a) através de alterações bioquímicas ou (b) através de fenômenos eletrofisiológicos.
Ainda que não haja consenso a respeito (muito pelo contrário), nos fenômenos eletrofisiológicos, acredita-se que memorização efêmera decorra da atividade elétrica neural (ou seja, sem efetiva colaboração bioquímica proteica) em um conjunto de neurônios, que em regra se mantem somente pelo tempo enquanto encontra-se em uso, sendo após isso extinta. É isso o que ocorre na memória sensorial e na memória de trabalho (ou memória operacional) como discutido anteriormente.
Os fenômenos bioquímicos (traços de memória) podem por sua vez ocorrer por alterações estruturais (morfológicas) e funcionais de uma rede neural.
Como exposto por Mourão Junior e Faria (2015):
"As alterações estruturais compreendem a formação de novas espinhas dendríticas (as quais permitem que um determinado neurônio receba mais aferências de outros neurônios) ou então a formação de novos prolongamentos axonais (os quais permitem que um dado neurônio transmita mais sinais para os neurônios com os quais ele se conecta). Podem ocorrer ainda alterações morfológicas que criam novos circuitos que anteriormente não existiam. Finalmente, no caso das alterações funcionais, são formados novos canais iônicos ou novas proteínas sinalizadoras, que otimizam a transmissão sináptica. É interessante observar que, tanto as alterações morfológicas quanto as funcionais, têm como substrato biológico o mesmo fenômeno: a síntese proteica. Assim, a informação (quando repetida várias vezes), de alguma maneira ainda desconhecida, produz fatores que atuam no DNA do neurônio, fazendo com que este comande a síntese de novas proteínas, que podem ser, por exemplo, canais iônicos (produzindo alterações funcionais), ou espinhas dendríticas e prolongamentos axonais (produzindo alterações morfológicas)".
Oportuno destacar que a consolidação de maior duração ocorre durante determinadas fases do sono. Eis que aparentemente desconexos, o conteúdo dos sonhos possa ser a evocação de fragmentos de memória, em um processo de descarte e seleção de novos fragmentos para consolidação. Até hoje o sono e os sonhos ainda são um mistério absoluto na neurociência em relação aos seus mecanismos de seleção da memória e aprendizagem. Vale destcar que como o sono, outros fatores como atenção, motivação, nível de estresse e estado emocional são fundamentais para o processo de consolidação de memórias.
A evocação (ou recuperação) envolve a organização dos traços de memória em uma sequência coerente no âmbito da memória de trabalho. Dois tipos de recuperação pode ser distinguidos, o reconhecimento e a recordação. Reconhecimento ocorre diante de um estímulo previamente conhecido e armazenado, familiar. Você reconhece facilmente os seus colegas do trabalho, seus familiares, simplesmente ao passar por eles. Na recordação, não encontramos um estímulo previamente conhecido de imediato ou pelo menos de maneira consciente imediata (o qual será evocado). Existe certa voluntariedade em querer recuperar a informação, devendo “puxá-la” da memória. De certa forma, são processos relacionados temporalmente, pois quando reconhecemos algo ou alguém, logo em seguida, começamos a recordar espontaneamente uma série de informações referentes ao objeto ou a pessoa, sua características, nossa percepção sobre, etc.
Quando perguntamos, qual a roupa você usou ontem? Ou de quem será a palestra nos próximos dias, seriam formas de relembrar (diferente de reconhecer, mas também uma forma de recuperar a informação). Porém, ao ver a roupa ou a foto do palestrante nas redes sociais, você estará reconhecendo.
Cada informação, cada engrama, produz modificações nas redes neuronais, que mantendo-se, permitirá uma segunda etapa, que será a sua recuperação.
A evocação (ou recuperação) envolve a organização dos traços de memória em uma sequência coerente no tempo (fenômeno chamado de integração temporal) e ocorre principalmente no córtex pré-frontal, através de um processo denominado memória de trabalho, o qual será detalhado mais adiante. Alguns autores apontam que existem dois tipos de recuperação frequentemente distinguidos: o reconhecimento e a recordação.
Um ponto importante é que durante o processo de evocação ocorre uma verdadeira edição de fragmentos de memória no âmbito da memória de trabalho, em junção com as funções executivas visando formar um todo cognitivo. Com isso, nas memórias de longa duração podem ocorrer perdas durante o processo de consolidação, pois toda vez que evocamos uma memória, modificamos essa memória que pode sofrer adições (fictícias) ou subtrações (reais) em seu acesso. Com isso, ao relatar uma vivência, estamos cada vez mais distantes de relatar o que realmente aconteceu. Por isso cada um lembra de um determinado fato à sua maneira. Logo, a evocação está longe de ser uma reprodução como uma tecnologia de digital arquivada (e que mesmo assim pode sofrer mudanças com o tempo). Trata-se, em verdade, mais de um processo criativo do que reprodutivo.