Mapa mental
Virginia Woolf

Conteúdo do mapa
Virginia Woolf
Primeiro Livro
- As Ondas
- Flush: romance considerado secundário
- mas que fez muito sucesso na época
- permitiu que ela comprasse carro novo pra irmã dela
- mas que fez muito sucesso na época
- Flush: romance considerado secundário
- As Ondas
Ao Farol
- Ao Farol, a personagem Mrs. Ramsay é inspirada na mãe de Woolf — uma figura de beleza, presença emocional e certo ideal familiar — e o ambiente de verão à beira do mar retrata experiências de férias que Virginia viveu com a família na Cornualha.
- Familiar Obra(s) refletida(s) Forma da inspiração Julia (mãe) Ao Farol Figura materna idealizada, memória, perda Leslie (pai) Ao Farol Intelectual severo, patriarcal Thoby (irmão) As Ondas, Mrs Dalloway Morte precoce, luto, sentido da vida Ambiente de férias familiares Ao Farol Cenário marítimo, infância nostálgica Dinâmica entre irmãos As Ondas Identidade múltipla, formação do eu
- Edward Albee
- Quem tem medo de Virginia Woolf?
- peça que foi inspiração pro filme
- Quem tem medo de Virginia Woolf?
- Edward Albee
- Biografia 10 anos antes da morte
- As ondas na praia, que executavam geralmente um tamborilar calmante compassado e de modo consolador pareciam repetir seguidas vezes, enquanto ela se sentava com as crianças, as palavras de uma velha cantiga de ninar murmurada pela natureza: “De você cuido eu — sou seu amparo”, mas que em outros momentos, súbita e inesperadamente […] não tinham tal sentido benigno, mas como um rufo espectral de tambores batiam sem remorsos a medida da vida, faziam pensar na destruição da ilha e seu engolfamento no mar, advertindo a ela, cujo dia havia escoado num rápido afazer depois de outro, que tudo era efêmero como um arco-íris — este som antes abafado e oculto sob os outros sons subitamente estrondou oco em seus ouvidos e a fez olhar para cima num impulso de terror.
- Virginia Woolf escrevia cartas e anotações de diário numa velocidade espantosa. Seus editores, ao publicar coletâneas póstumas desses textos, reproduziram suas palavras tal como ela as escreveu, mantendo intactas as irregularidades de pontuação e grafia. Esses escritos sem padronização e sem censura dão uma vívida impressão da personalidade da autora, e cito-os ao longo de todo o livro sem nenhuma alteração editorial. De igual modo, uso títulos provisórios de Woolf para obras em andamento. The Years [Os anos], por exemplo, é mencionado de início como “The Pargiters” [“Os Pargiters”] e “Here and Now” [“Aqui e agora”], conforme o uso de Woolf, e Between the Acts [Entre os atos] aparece como “Pointz Hall”.
- As formas que um cérebro retém Mas os mortos, pensou Lily, encontrando em sua intenção certo obstáculo que a fez parar e refletir, dando um passo ou mais para trás, oh, os mortos! murmurou ela, nos davam pena, facilmente eram postos de lado e até meio desprezados por nós. Eles estão à nossa mercê. Virginia Woolf, Ao farol
- Julia e Leslia: pais
- Numa das fotos de família de Virginia Woolf, seus pais, Julia e Leslie, estão lendo, enquanto a futura romancista, com onze anos de idade, senta-se no fundo da sala e olha além deles para as lentes da câmera. Trinta e quatro anos depois, em Ao farol, Woolf dramatiza essa foto e nos diz o que os personagens estão pensando. Numa noite tranquila de verão, Mr. e Mrs. Ramsay sentam-se lado a lado, concentrados aparentemente em seus livros, mas na realidade mantêm uma discussão em silêncio, pois cada um já ouviu tanto do outro que a fala se fez supérflua. Silenciosamente, ele a censura por recusar-se a dizer que o ama, negando-lhe assim obediência plena. Silenciosamente, ela replica que deve haver limites, que ele deve deixar-lhe algum espaço onde ela respire e se renove em seu ânimo. Embora as diferenças entre os dois estejam enraizadas a fundo, na maior parte do tempo eles se correspondem bem, e a cena termina com uma trégua incômoda, mas amorosa, que se estenderá de maneira indefinida.
- "seneramente-presente-ausente"
- Ao farol diverge da foto por um detalhe importante: Virginia está ausente da versão fictícia; ou seja, não há criança na sala com Mr. e Mrs. Ramsay. Woolf tentou obter um tipo especial de impessoalidade, estar ao mesmo tempo envolvida na ação e invisível ou, como ela mesma escreveu sobre Shakespeare, estar “serenamente presente-ausente”. Segui seus passos, tanto quanto permite o gênero biográfico, combinando um estilo discreto à tentativa de transmitir verdades emocionais, bem como históricas, sobre pessoas e fatos. No processo, tive de examinar minhas convicções no que se refere à natureza da biografia e ao papel do biógrafo.
- Tanto o instantâneo como a cena fictícia estão em sintonia com a complexidade das relações humanas. Ambos, cada qual a seu modo, são subversivos, focando-se as tensões por baixo da superfície da vida familiar, os momentos cruciais “entre os atos”. O casal, na foto, é estabelecido por sua posição social e intelectual — o vestido da mãe, a barba do pai, os livros e quadros e o biombo pintado —, enquanto a filha olha atenta além deles, como se os dois já pertencessem ao passado. Ao farol faz eco a esse tema, descrevendo uma vida familiar aparentemente estável que se demonstra frágil e impermanente. A parte central do romance, intitulada “O tempo passa”, que vem logo após a discussão silenciosa entre Mr. e Mrs. Ramsay, apresenta um ciclo implacável de crescimento e decadência, as estações que se sucedem e as vastas forças naturais que ameaçam destruir todos os valores humanos. O contraste entre essas vistas diferentes da mesma cena doméstica influenciou a forma desta biografia.
- Peneirando esses milhões de palavras, o escritor ou a escritora, ao que parece, deve abrir mão de motivos pessoais e apagar-se a fim de sobreviver. Apesar de os sentimentos do biógrafo, sobre o sujeito que lhe serve de tema, serem decisivos, seu trabalho é visto muitas vezes como se envolvesse apenas o refinamento da informação bruta e a elaboração de um estilo — fundindo-se à pessoa do emissor, num silêncio implacável, com a mensagem que ele emite. Mas, como Virginia Woolf lembrou a seus leitores, inevitavelmente atribuímos aos outros nossos próprios sentimentos e intenções. Sobretudo quando o sujeito já não se encontra presente para contradizer-nos.
- Os mortos estão à nossa mercê, diz Lily em Ao farol, ponto desenvolvido por Woolf em seu ensaio sobre Christina Rossetti. Procurando imaginar o passado, ela observou, haveremos de ajustar seus habitantes
- a padrões de todo tipo dos quais eles ignoravam tudo, pois pensavam quando estavam vivos que poderiam ir aonde quisessem; e, quando falarem, haveremos de entender em seus ditos significados que nunca ocorreram a eles, pois acreditavam quando estavam vivos que diziam sem rodeios o que lhes vinha à cabeça. Mas tudo é diferente, quando estamos numa biografia.
- Mesmo assim, ainda se leem vidas e há quem deseje escrevê-las. Em meu caso o impulso biográfico veio em hora tardia, após anos de preocupação com a obra de Virginia Woolf — um modo de refocar minha atenção, talvez, depois de longa exposição. Por saber como os escritores projetam seus próprios sentimentos e motivos em seus sujeitos, espero compensar essa tendência lembrando ao leitor que, embora o estilo possa ser discreto e a sequência de fatos essenciais bem estabelecida, o modo de ler e os fatos que alguém seleciona são profundamente influenciados por sua história pessoal
- mas a ideia de um diploma e uma carreira a seguir me parecia destituída de sentido. Passava de ano sem me esforçar e devorava grandes quantidades de ficção e poesia, inclusive as obras de Virginia Woolf. Casei-me e entrei para a faculdade, conservando meu interesse por Woolf, que não estava na moda. Uma amiga me encorajou a escrever uma tese sobre seus romances, dizendo-me: “Anime-se, ninguém tece uma frase como ela, vê se você nos diz o que está acontecendo naquele quarto só para si.”
- A reputação de Virginia Woolf até então, no começo da década de 1960, estava em baixa, mas já se destinava a talvez reerguer-se, apesar de a sabedoria convencional sustentar que três ou quatro estudos existentes cobriam o assunto mais do que adequadamente. A sugestão de minha amiga vingou. Woolf me atraía por ser um pouco bizarra e não estar no currículo padrão. Apenas por prazer, eu a tinha lido — era um dos meus escritores favoritos — e nem pensara na possibilidade de explorar seus livros para um tema de tese. Mulheres e ficção — era uma área ainda não atravancada, sem a lama incrustada em Yeats e Eliot.
- Meu orientador em Columbia disse: “Feminismo hoje em dia, sabe, não leva longe. Virginia Woolf não era um animal político. Era uma lady, não gostava de trabalhadores, nem de negros e judeus.” “Mas há ideias radicais, subversivas, em todos os livros dela”, eu disse. Decisivamente, ele deu uma tragada no cachimbo apagado. “E. M. Forster diz que ela era uma esnobe e se orgulhava disso, uma autêntica britânica. Mas acho que você devia ir em frente. Pode dar o que falar.”
- E assim foi decidido. A tese, que descrevia a guerra de Woolf contra seu condicionamento como uma lady da alta classe média, foi publicada no final da década de 1960, bem no começo da revivescência de Bloomsbury. Depois, em 1972, a biografia de Virginia Woolf por Quentin Bell modificou o retrato da artista que eu trazia na mente. Ressalvados breves excertos, eu ainda não conhecia suas cartas e diários, que confirmavam o caráter subversivo dos romances. Havia agora uma densa penumbra de escritos anteriormente inéditos a oferecer uma riqueza de detalhes, uma Viginia ignorada, que ninguém podia esperar
- Ao mesmo tempo, uma nova onda de feminismo dava ao trabalho dela visibilidade muito maior, transformando-a em um ícone, uma grande precursora; críticas feministas, estudando seus enfoques políticos e psicológicos, mostraram a sutileza com que ela havia antecipado discussões posteriores de gênero, construtos culturais e ordem social. Ao longo dos anos, seu retrato ganhou complexidade; tornou-se mais estranho, porém mais familiar, como o de uma pessoa que eu realmente já conhecia, mas ainda assim se mantinha esquiva, dois passos à minha frente, apesar dos ensaios críticos que eu então escrevia tentando estar a seu lado.
- quase chorei com o que o autor descreveu da mãe dele
- O refrão dos sacrifícios de minha mãe — ela daria qualquer coisa pelos filhos, costumava dizer, para que eles vivessem bem e não sofressem como ela tinha sofrido; tudo o que esperava em retorno era um pouco de gratidão — traz à mente a discussão, por Virginia Woolf, da esposa e mãe que se autossacrificava na Inglaterra vitoriana.
- Em janeiro de 1931, com 49 anos, Woolf falou numa reunião de mulheres profissionais sobre sua carreira de escritora e suas tentativas de matar o “Anjo da Casa”. O ideal angélico, descrito numa bem conhecida sequência vitoriana de poemas, era sinônimo de estereótipos sexuais que ainda predominavam na década de 1930. Mulheres virtuosas, de acordo com o mito, viviam num estado quase incorpóreo, erguendo-se etereamente acima da luxúria animal e dedicando suas vidas ao bem-estar da família. Durante sua juventude, como disse Virginia, nos últimos anos do reinado de Vitória, todas as casas de classe média tinham um “Anjo” residente — que era, tanto quanto o aparador e as cortinas, peça do mobiliário. Não obstante a sua radiância moral, a mulher era um corpo prático e fazia suas tarefas domésticas com grande eficiência, o que se tornava ainda mais conveniente para o Dono da Casa. O veredicto de Virginia sobre tal personagem foi compassivo e mordaz.
- O “Anjo”, sustentou a autora, era intensamente simpática. Ela era imensamente charmosa. Ela era profundamente abnegada. Superava-se nas difíceis artes da vida familiar. Dia a dia ela se sacrificava. Se havia galinha, ela ficava com o pé; se havia uma corrente de ar, lá iria sentar-se — ela era, em suma, constituída de tal modo que nunca tinha uma opinião ou um desejo próprios, preferindo sempre simpatizar com as opiniões e os desejos dos outros. Acima de tudo — quase nem preciso dizer — ela era pura.
- (...)a ira de Virginia impregna o triste catálogo de virtudes. O ideal espúrio lhe assombrara a juventude, pois esse era o “Anjo” dos pais dela. Eles tinham adotado seus valores e aceitado os papéis desiguais por ele prescritos porque “um relacionamento real entre homens e mulheres era então inatingível”. O “Anjo” infectara de irrealidade a vida dessas pessoas. A falsidade se tornou pior, de certa forma, após a morte de sua mãe, no primeiro ano da adolescência de Virginia. Por trás do mito da virtude doméstica ocultava-se a realidade mais torpe, que era o meio-irmão mais velho de Virginia, George, entrar à noite em seu quarto para acariciá-la e beijá-la. Não havia a quem ela recorrer para pedir orientação ou ajuda, nenhuma escapatória da culpa e confusão mental.
- Leslie Stephen, cada vez mais velho, estava muito envolvido com o próprio sofrimento para notar o que ela padecia. Cada vez mais surdo e irascível, sujeitava suas filhas a uma chantagem emocional, insistindo que sempre deveria haver um “Anjo” na casa e que uma delas teria de herdar a função. Virginia se estarrecia com a autopiedade que transformou esse homem, que podia ser tão sensível, num tirano grosseiro, cego aos sentimentos alheios. Em seguida à morte do pai, o “Anjo” passou a ser ainda mais insidioso, tentando abafá-la, com a sabedoria convencional que trazia, para a impedir de pensar e escrever livremente — uma afronta contra a qual ela violentamente se rebelou. “Pulei em cima dela e lhe cortei o pescoço”, disse ela às ouvintes. “Fiz o que pude para matá-la. Minha justificativa, caso eu tivesse de ser ouvida em juízo, seria a de que agi em legítima defesa.”
- Essa vinheta irônica mal sugere a extensão e amargor de sua luta, que perdurou em plena meia-idade e culminou com seu esforço para recriar o passado em Ao farol. Ela aí reconstruiu o mundo de sua infância e traçou vívidos retratos de seus pais, a fim de reduzir o poder que eles ainda tinham sobre ela. “Eu costumava pensar nele & mamãe todos os dias”, anotou Virginia em seu diário. “Ambos me obcecavam, de um modo nada saudável; & escrever sobre eles era um ato necessário.” O romance ajudou-a a dissipar nostalgias, mas o “Anjo”, sendo ectoplasmático, insistia em voltar à vida, pois “é muito mais difícil matar um fantasma do que uma realidade”. E o fantasma punha disfarces sutis, explorando ainda sua necessidade de aprovação paterna.
- O livro seguinte de Virginia, Orlando, uma biografia fantástica de sua amiga Vita Sackville-West, foi uma espécie de sonata fantasma na qual seu novo amor por Vita fundiu-se com o velho desejo de agradar a seu pai. A história de Orlando, que vive por trezentos anos e em meados desse tempo passa por uma mudança de sexo, é simultaneamente uma crônica da literatura inglesa e uma lembrança de amor. Na transformação do herói / heroína, de homem em mulher, reflete-se a infusão do fantasma do pai de Virginia no corpo de sua amante lésbica. O livro diz, no interior de sua lógica onírica: meu pai (representado pelos clássicos ingleses, que aprendi a amar com ele) e minha amante (a escritora aristocrática, descendente de nobres elizabetanos) habitam um corpo único, integrando-se harmoniosamente na figura andrógina de Orlando.
- Três anos mais tarde, olhando em frente para uma nova década após terminar The Waves [As ondas], um romance austero que retrata seus amigos e o modo de ser de todo o grupo, Virginia anunciou com alguma confiança que finalmente o “Anjo” estava morto. Ela agora entraria numa fase em que criava crônicas sem nostalgia — justapondo a época vitoriana à moderna para observar que a tirania doméstica da primeira levara ao fanatismo político da última. Ela reagiria à mudança do clima político na década de 1930 ao escrever em defesa da liberdade numa era de campos de concentração.
- As ondas foi uma obra de transição, um romance gravemente intelectual na forma de “solilóquios” por seis amigos. O retrato em grupo, visto em conjunto, não os apresenta como personagens convencionais, mas como fases distintas de um único “ser humano completo”; a visão do livro, sobrepondo personalidades, sugere uma renúncia à existência pessoal, um desejo de anonimato sem ego. Às vezes Virginia se valia de um desprezo swiftiano pela raça humana, assumindo o estilo lupino e predatório sugerido por seu nome de casada — os dois lados opostos dela — Woolf/Anon — que afinal escapavam como gênios de uma garrafa. Traços de ira e de renúncia perpassam por toda sua obra da década de 1930 — a sátira de lobo e a visão absoluta não mais suavizadas por charme, não mais ligando-a à filha de seu pai, a “Ginny” adolescente.
- Com As ondas por trás, Virginia expressou certo otimismo qualificado quanto ao futuro. “Oh, é mesmo, entre 50 & 60 acho que escreverei alguns livros bem singulares, se eu viver até lá. Quero dizer que eu acho que estou a ponto de dar corpo, finalmente, às formas exatas que meu cérebro retém. Que longa labuta chegar a esse começo — se As ondas for meu primeiro livro em meu próprio estilo!”
- A última década de Virginia Woolf constitui uma etapa distinta e coerente de seu desenvolvimento. Como assinalou Carolyn Heilbrun, ela “se tornou aos cinquenta uma pessoa diferente”. Seu irado tratamento do “Anjo da Casa” pode servir como um sinal de sua concentração crescente em realidades sociais. Enquanto preparava sua palestra, ela teve uma inspiração para um novo livro sobre as mulheres e o trabalho, um livro para confirmar a rebelião das mulheres contra a autoridade patriarcal e mostrar como elas tinham usado suas novas liberdades. Esses temas a preocuparam por vários anos e acabaram constituindo a base de The Years 23[Os anos] e Three Guineas [Três guinéus].
- Mas o legado vitoriano tinha outro aspecto. Por trás do “Anjo” prestativo se ocultava seu duplo, um espírito tolhido e amargo que emergia em momentos inesperados para proclamar a inferioridade de negros, colonizados e judeus. O desdém pelos pobres e sem instrução estava no ar, na sociedade de alta classe média da juventude de Virginia, e ela herdou muitos de seus preconceitos. Seu sentimento de superioridade como uma lady estava entranhado fundo; como a maioria de seus amigos, de vez em quando ela deixava escapar um termo como “crioulo” ou (apesar de seu marido judeu) uma observação antissemita. Tinha uma língua afiada e um talento satírico que era capaz de produzir instantâneos de memorável crueldade. Os primeiros diários soam às vezes como se fossem obra de um remanescente do Ancien Régime.
- Era preconceituosa!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
- Em uma das entradas mais antigas descreve seus sentimentos ao ver, durante um passeio no campo, “uma longa linha de imbecis” cujos olhares dementes e corpos desgraciosos a repeliram — ela mesma tinha sofrido recentemente uma crise nervosa e a visão de tais figuras disformes “era completamente horrorosa. Todos deveriam ser mortos”. Em outra ocasião, ao registrar seu modo de lidar com uma das empregadas, ela fez uma anotação sobre a desesperança dos pobres, que “não têm oportunidades; nem boas maneiras nem autocontrole para se protegerem; nós temos o monopólio de todos os sentimentos generosos — (ouso dizer que não é de todo verdade; mas há algum sentido nisso)”. O julgamento e a retração, fáceis, refletem a rigidez da visão inerente à classe.
- Atitudes igualmente míopes e ligadas à classe tingiram sua obra madura da década de 1920. A heroína do seu “romance de sociedade”, Mrs. Dalloway, não permitirá que notícias sobre atrocidades distantes perturbem a rotina agradável de seu dia. Ela admite que é mimada; ela sabe que há pessoas inocentes que estão sendo “retiradas à força da existência, mutiladas, congeladas […]. Se nada conseguia sentir pelos albaneses, ou seriam armênios?, ela porém adorava suas rosas (isso não ajudaria os armênios?) — as únicas flores que aguentava ver cortadas”. O narrador de Woolf aparentemente endossa esse apelo a sensações privadas e dá a entender que aceita, se não a endossa de todo, a visão das rosas, por sua heroína, como ajuda humanitária. Não se trata apenas de o genocídio se achar muito distante; Clarissa é igualmente insensível na maneira como trata o primo pobre que ela lamenta ter de convidar para sua festa. Virginia deplorava o lado desagradável da lady da alta sociedade, não obstante se i
- Esse viés é apenas um dos lados do quadro. As simpatias políticas de Woolf, mesmo que raramente ela as expresse em seus primeiros anos, tendiam firmemente para a esquerda democrática e para o Partido Trabalhista, do qual Leonard Woolf foi um consultor de alto nível. Quando moça, ela lecionou como voluntária, no Morley College, para homens e mulheres da classe trabalhadora. Mais tarde, participou das atividades de base da Women’s Cooperative Guild, uma rede de consumidoras da classe operária. Além disso, como artista e intelectual, tinha um compromisso, bem oposto ao de uma lady, com ideias avançadas e a estética modernista. Seus reflexos de classe alta e a política socialista coexistiram sem fricção notável, absorvidos ou obscurecidos pela riqueza de sua personalidade artística. Virginia oscilou às vezes entre extremos de impiedade e sensitividade, nisso se assemelhando à fictícia Clarissa Dalloway(...)
- adequadamente descrita por Alex Zwerdling como uma “personalidade laminada, feita de camadas que não se interpenetram”. A vida real, por certo, não é assim tão definida, e as várias camadas da personalidade de Virginia se fundiram e mudaram perceptivelmente ao longo dos anos.
- Em 1929, quando publicou sua crítica feminista, A Room of One’s Own [Um teto todo seu], o impulso igualitário se tornara predominante; ela já via à sua frente uma época em que escritores examinariam as vidas de mulheres comuns que permaneciam ignoradas, condenadas à obscuridade — “pois os jantares todos estão prontos; os pratos e os copos, lavados; as crianças foram para a escola e depois sumiram no mundo […]. Não há uma só biografia ou história que tenha uma palavra a dizer sobre isso”. Algum futuro e aventuroso romancista talvez venha penetrar “sem condescendência ou bondade […] naqueles quartinhos perfumados onde tomam assento a cortesã, a prostituta e a dama com o cachorrinho”. Uma boa dose de condescendência transparecia em seu tom, mas isso também mudou no final da década de 1930 — não mais estigmas raciais nem observações depreciativas sobre os pobres, naquela atmosfera carregada.
- À medida que os ditadores consolidavam seu poder sobre o continente europeu, e que tropas de assalto prendiam e matavam seus oponentes, Virginia se identificou cada vez mais com os rebeldes e as vítimas da opressão, declarando-se “desenquadrada”, pacifista e (devido a seu casamento) judia. Essa nova postura formou outra camada, complicando ainda mais a mistura, quer social, quer intelectual e artística, de suas identidades. A complexidade de seu modo de ver, na década de 1930, contrastava fortemente com as intimações prevalecentes à pureza ideológica e a uma simples tomada de posição.
- declarando-se “desenquadrada”, pacifista e (devido a seu casamento) judia. Essa nova postura formou outra camada, complicando ainda mais a mistura, quer social, quer intelectual e artística, de suas identidades. A complexidade de seu modo de ver, na década de 1930, contrastava fortemente com as intimações prevalecentes à pureza ideológica e a uma simples tomada de posição.
- Ainda é difícil reconciliar as múltiplas camadas da personalidade de Virginia e tentar resolver o problema tornando-a meramente uma coisa ou outra. Duas décadas atrás, Jane Marcus descreveu-a como “uma guerrilheira de saia vitoriana”, revolucionária e “marxista” (as citações são de Jane), e esses rótulos foram influentes, fixando o teor para boa parte da crítica subsequente. Os mesmos rótulos tenderam a obscurecer o conservadorismo de Woolf, que persistiu pela década de 1930 adentro. Sua criação como lady deixou marcas no programa radical de Three Guineas, que ela apresentou a uma audiência de privilegiadas senhoras da alta classe média, e veio à tona no desprezo que sentiu por seus vizinhos de aldeia, quando a guerra a exilou em Sussex. Uma guerrilheira das mais incomuns, que era uma dedicada pacifista; e uma marxista que nunca se referiu a Marx, nem no diário, nem nas suas extensas notas de leitura.
- no ensaio “Virginia Woolf in Her Fifties” [“Virginia Woolf aos cinquenta anos”], descreve-a de um modo mais simples e menos restritivo como uma escritora de gênio que descobriu toda a extensão de sua ira e expressou-a em termos que foram relevantes para a crise de sua época.
- Ante a ameaça de guerra, que crescia constantemente, a atmosfera da década de 1930 desordenou muitas das antigas convicções de Virginia; não apenas sua consciência de classe, mas também os objetivos artísticos que produziram Mrs. Dalloway e Ao farol tinham se tornado supérfluos. A crise testou-lhe os valores e o caráter, forçando-a a dar nova ênfase aos fatos da vida e ao mundo externo, a fixar novos objetivos em resposta às pressões dos acontecimentos políticos. Como disse enquanto estava escrevendo o livro seguinte, Os anos, ela se obrigou a “quebrar todos os moldes” e a encontrar uma nova forma de expressão, mais em sintonia com a consciência social do momento.
- Minha decisão de escrever esta biografia surgiu de um fascínio pelo modo como as pessoas mudam sob grande tensão. Parti para descrever as mudanças por que Virginia passou na década de 1930 com seus esforços para se opor à insanidade coletiva sem tornar as coisas piores. Os bárbaros estavam ganhando por toda parte, e sua vitória significaria o fim da civilização tal como ela a conhecera. Virginia acreditava que uma pessoa sadia deveria recusar-se a imitar o inimigo, respondendo à violência com resistência passiva e uma veemente “indiferença”. Resistindo ao ânimo prevalecente, acentuava a importância da razão, da tolerância e da alegria, reafirmando essas atitudes civilizadas enquanto vozes estridentes tentavam sufocá-la, sufocando-se entre si.
- Ao olhar para sua luta, senti que a esclarecida Virginia da década de 1930, que demonstrou, sob fogo, grande sanidade e coragem (sua decisão de escolher o momento e a maneira de morrer não diminui isso), necessitava de uma biografia só para ela. O desafio seria mapear a interseção de sua evolução pessoal com os eventos históricos. Ademais, o biógrafo teria de dar a entender a interpenetração das emaranhadas camadas que se desenvolvem em torno de uma personalidade no decurso da mudança, apresentando não só a Virginia reformada, mas também as reversões a uma Virginia primeva que ainda nutria antigos preconceitos e às vezes cedia a eles.
- Ela mesma deu alguns indícios de como realizar a tarefa. Em 1939, declarou sua insatisfação com a forma biográfica padronizada (estava então pelo meio de uma biografia autorizada de Roger Fry que escrevia) e notou como a verdade é esquiva e evanescente, mesmo sobre fatos que a pessoa conhece por experiência direta. Contudo, pode-se chegar a uma compreensão; ela acreditava que havia um padrão oculto por trás do “algodão cru” aparentemente fortuito da vida cotidiana e que era possível definir os temas ou motivos básicos que conectam a existência de alguém a esse padrão subjacente. Tais motivos centrais nos calibram, são “as concepções ou varas de medir” que dão forma e sentido às nossas vidas.
- Atraído por esse modo de ver, observei a interação dos motivos ao longo dos diários e cartas de Virginia, traçando suas variações, as imagens que se desdobram e se sobrepõem umas às outras — suas constantes referências à água, por exemplo —, os significados refratados a partir de um núcleo único, como num primeiro rascunho de As ondas, onde ela representou “muitas mães, como uma onda sucedendo a outra”, e prosseguiu para evocar a vibrante ascensão e queda das civilizações antigas, Egito, Grécia e Roma. Virginia disse a um amigo que esse romance era “totalmente contrário à tradição da ficção […]. Estou escrevendo de acordo com um ritmo, não com uma trama”. Toda escrita, disse ela, “nada mais é que pôr palavras nas costas do ritmo”.
- Assim o ato de dar à luz, a ascensão e queda das civilizações e o fluxo de palavras numa frase são tecidos juntos por um ritmo em comum, ligando-se ademais a outros motivos: a revolta de Virginia contra a frase “masculina” e as convenções vitorianas; seu hábito de ir compondo frases durante longas caminhadas diárias (o passo avantajado que herdou do pai alpinista); e seu uso do andar, na ficção, como um motivo. Essas imagens e suas associações, secundadas pelo quebrar das ondas e o rio a correr, formam uma tessitura simbólica que nos traz mais perto a própria Virginia, não por explicar, mas por lhe estabelecer a presença, convidando-nos a ver as coisas como ela as via.
- (...)ouvir o que Virginia Woolf realmente disse, não o que se esperaria que ela dissesse. Acreditar nela, em suma, resistindo à tentação de impor qualquer paradigma — repressão, abuso sexual, bipolaridade; confiar em seu próprio testemunho e traçar os motivos autocriadores, o cerne da identidade, definido por suas próprias palavras. Ela punha em dúvida as fórmulas psicológicas e insistia que nós vamos a esmo “perpetuamente nomeando e estreitando essas paixões imensamente compósitas que são lançadas ao longe”. Tomei-a por guia de outro modo, ao dar ênfase especial aos compassos bizarros e às texturas variegadas da vida do dia a dia. Tal estilo, que se concentra no esforço de recuperar o próprio ponto de vista do sujeito — o que Virginia chamou de “concepções ou varas de medir” — moldando a história de modo a apresentar esses motivos condutores, constitui a “alobiografia”: um gênero de escrita que assume a posição do outro, que é o sujeito biográfico.
- Seguindo essa direção, resolvi não especular sobre fatos, mas confiar nas evidências das cartas, diários e outras fontes da época, limitando-me ao que podia ser fundamentado de todo no registro documental. Usei muito raramente a palavra “talvez”, e só após cuidadosa consideração. Mantendo-me tão perto quanto possível do ponto de vista de Virginia Woolf, resolvi também não antecipar mais do que o necessário os fatos, lembrar-me de que o tempo flui numa direção e de que o conhecimento prévio do biógrafo, embora lente poderosa, pode facilmente distorcer a visão.
- Ela foi uma escritora difícil, uma ironista que inventava histórias e conduzia seus leitores por obscuras veredas. Frequentemente brincalhona e às vezes maliciosa, comprazia-se embelezando os fatos sobre pessoas, o que levou alguns críticos a duvidarem de sua confiabilidade como testemunha. Mas, como qualquer bom satirista, era adepta de que entre fato e fantasia se traçassem limites precisos, como em geral o fez. Seu amigo William Plomer observou que ela “realmente era devotada aos próprios fatos em si”. Apesar de seu talento poético estar em grande evidência, o outro lado dela, o ser social, era “uma espécie de cientista” interessado na “verdade antropológica”. Observadora astuta de pessoas e acontecimentos, Virginia Woolf usou suas fantasiosas revisões da insípida realidade para causar deleite e aumento de consciência, não para manipular ou iludir. Ao mesmo tempo, sua vida foi toldada pela misteriosa afinidade entre arte e sofrimento.
- Ela falou de um modo comovedor e simples sobre assuntos importantes, como seu amor pelo marido e pela irmã, seu ódio de tiranos e ditadores, seu sistema nervoso tão rebelde. Particularmente durante a década de 1930, viveu em consonância com sua irônica descrição de si mesma como “a mais verdadeira das pessoas”. Quando resenhistas elogiavam a beleza de sua escrita, ignorando-lhe a substância, ela protestava; preferia que a conhecessem como autora de uma escrita feia, mas honesta, uma artista séria que apenas ia tentando dizer, tão exatamente como possível, alguma coisa que nunca tinha sido dita.
- Como Virginia Woolf disse após terminar As ondas: “Meu barco zarpou. Balouço entre garrafas vazias e pedaços de papel higiênico. Oh & as empregadas.” Reflete-se em sua história uma luta constante contra as interrupções banais, contra os fatos casuais do dia a dia que interferiam em seu trabalho literário. Relativamente pobre após a morte do pai, ela teve de ganhar sua vida. Sir Leslie Stephen, malgrado todo o renome, era somente um homem de letras e não deixou capital suficiente para garantir-lhe o sustento, ao menos pelos padrões da alta classe média. Virginia e Leonard (por ela chamado de seu “judeu na penúria”) trabalharam duro, por longas horas de seis ou sete dias por semana, como escritores e editores. Por muitos anos, até que os romances dela começassem a vender e a Hogarth Press se tornasse lucrativa, a renda dos Woolf foi tão modesta quanto seu modo de vida. Ambos eram intelectuais sem desejo de grandes posses ou luxo.
- A posição política de esquerda os colocava à margem da privilegiada classe média alta, mas eles mantinham fáceis relações com membros do establishment. A família e os amigos de Virginia eram do tipo de gente que desde o século xix dominava na Inglaterra os níveis mais altos do serviço público, das forças armadas e das profissões liberais. Segundo uma estimativa de 1930, a classe governante era extremamente reduzida — não mais de cem mil pessoas da alta burguesia, a que se somavam algumas poucas centenas de famílias aristocráticas — do total de 45 milhões da população. Virginia pertencia a essa elite por nascimento e educação. Votava no Partido Trabalhista e sustentava opiniões heréticas, mas seus primos eram pilares do establishment — eminentes profissionais, funcionários nomeados cavaleiros, um almirante, um ex-ministro do governo. Laços de família. Ela falava a mesma língua, era uma lady: seu modo de vida cresceu naquele solo e refletia os valores de sua classe.
- Não obstante uma lady muito excepcional. Já no fim da década de 1920, sua maneira de ver fora temperada por longos anos de atividade intelectual e artística. Ela, como romancista e crítica, tinha reputação firmada. Dois grandes romances à moda modernista, Mrs. Dalloway e Ao farol, trouxeram-lhe fama e até notoriedade, mas eram por demais originais e complexos para atrair muitos leitores. Isso começou a mudar em outubro de 1928, após a publicação de sua fantasia biográfica, Orlando, um livro mais acessível que vendeu surpreendentemente bem. Seguiu-se seu longo ensaio sobre mulheres e ficção, Um teto todo seu, que também apresentou sua escrita a um público mais amplo.
- Virginia Woolf costumava usar os momentos livres, quando parava de trabalhar ou antes da chegada de hóspedes, para escrever em seu diário. Escrevia o que lhe vinha à cabeça, qualquer coisa que fosse, como se nunca se cansasse de estar escrevendo, como se esperasse chegar, transpondo as barricadas artísticas, a um estado mais essencial. Toda sua obra, com as constantes mudanças de perspectiva e de espírito, tem uma brilhante unidade que não raro, à medida que aclara, também parece ofuscar. Em 28 de março de 1929, ela voltou a escrever em seu diário após seis semanas de silêncio. Uma doença a impedira de trabalhar e, durante parte do tempo em que esteve de cama, preparando mentalmente a conclusão de Um teto todo seu, ela viu as coisas com notável entendimento em seu ócio forçado. Assim, ao se recuperar, foi capaz de escrever tudo num só rompante excitado. Uma doença fértil, portanto.
- (...)sentiu sua grande semelhança com a irmã — como elas se espelhavam, “afundadas muitas braças naquela aguada de reflexos em que nós duas nadávamos”. Vanessa se preparava para viajar, durante quatro meses no sul da França, e a passagem do tempo, no entender de Virginia, as deixava ainda mais unidas. Era um dia “poderoso” de primavera, quando a animação e o nervosismo das ruas davam a tudo mais realce.
- Sua mente ia explorando “mil coisas, enquanto embaixo do braço eu carregava minha chaleira, os discos de gramofone & meias”. Ela pensava em seu próximo romance; iria agora muito mais longe do que a fantasiosa sátira de Orlando, deixando-se imergir nas profundezas do inconsciente. “Vou enfrentar certas coisas. Vai ser um tempo de aventura & ataque, bem solitário e doloroso.” O novo romance transmitiria um sentido místico de estar vivendo ao mesmo tempo em vários planos diferentes. Virginia tinha ficado fascinada quando Vanessa lhe contou que uma mariposa gigante, literalmente “com quase uns quinze centímetros”, bateu na janela dela uma noite, fazendo muito barulho. Para Virginia, a ação instintiva da mariposa se ligava a algum dia de primavera oculto por trás do mundo visível.
- Ela imaginava que seu novo livro estabeleceria uma conexão com todos os pontos desse reino mítico, para que cada objeto, por mais comum que fosse — o cordão de puxar a cortina da janela ou o vaso sobre a mesa —, ficasse “impregnado” de sua luz. “Por que admitir na literatura qualquer coisa que não seja poesia — quero dizer, impregnada […]. Os poetas têm êxito simplificando: praticamente tudo é deixado de fora. Quero pôr praticamente tudo dentro; mas impregnando.” Um programa que bem poderia ter sido aprovado por Proust ou Kafka, Lawrence ou Joyce.
- Seus livros, quando era mais jovem, “eram montes de frases perfeitamente extraídas de um cristal a machado; & agora minha mente anda tão impaciente, tão rápida e, de certo modo, tão desesperada”. Desesperada talvez porque ela estava envelhecendo, como alguns de seus amigos, que pareciam cada vez mais “poeirentos e enrugados”. Teria ela se deteriorado? Não, ela não era como os outros, ainda sentia em seu íntimo o precipitar das ideias. “Só em mim mesma, digo, para sempre se encrespa essa impetuosa torrente […]. Estou mais cheia do que nunca de forma & cor. Acho que estou mais ousada como escritora. E minha crueldade com os meus amigos me alarma. Clive, digo, é intoleravelmente obtuso. Francis é uma carroça de leiteiro desembestada.” Uma brusca confissão que preserva seus padrões rigorosos, pelos quais ao mesmo tempo ela se desculpa. A exagerada pretensão — “só em mim mesma, digo, para sempre” — não só sugere desespero, como também desafio.
- QUEM DIRIA???? VIRGINIA POBRE????????????????
- Chega de pobreza, eu disse; & a pobreza acabou”.
- Sua força se tornava mais evidente nos momentos em que ela parecia mais vulnerável.
- A decisão de escrever Orlando procedia de uma dessas refregas contra seus fantasmas. “Toda essa fazeção de dinheiro”, anotou Virginia em dezembro de 1928, “originou-se de um espasmo de negro desespero numa noite em Rodmell.” Prometendo-se encontrar uma saída — e uma vez que parte de seu sofrimento era causada pela “perpétua limitação de tudo; não há cadeiras, nem camas, nem conforto, nem beleza; & nem liberdade para mudar”, ela resolveu ali e então adquirir essas coisas. E já em março, podia se gabar de ter ganho “mil libras só por ter querido isso numa manhã bem cedo.
- Se deplorava os nervos instáveis, sabia, porém, de sua própria importância como escritora. Orgulhava-se de ganhar dinheiro e contribuir para a prosperidade da Hogarth Press. Seu trabalho não era uma escrevinhação, mas tinha o efeito tangível de “manter 7 pessoas alimentadas e abrigadas […]. Elas vivem das minhas palavras” — essas sete personalidades distintas, idiossincráticas. No ano seguinte, por sua previsão, estariam vivendo de Um teto todo seu. Depois disso, veio o novo romance, com seu tema metafísico que exigiria grande concentração; ela iria “entrar num convento”, banindo todos os interesses mundanos. Mas a algazarra da movimentação a seu redor parecia desmantelar esses planos, na própria medida em que os fazia.
- Sim, continuaria como tinha sido, frequentando reuniões e conhecendo pessoas enquanto pelejava com seu tema muito abstruso. Ela vivia na incongruência e vicejava em contrastes — característica notável que surgiria em seu diário em outro 28 de março, exatamente um ano mais tarde, quando estava quase completando um rascunho desse novo romance
- (...)Andar sozinha em Londres é o maior descanso.” Distante observadora, mas também perversamente envolvida, ela viu a agressão fortuita, o acidente, os velhos na pobreza, como se tais cenas revelassem algo que ela própria queria, uma verdade, uma confirmação de uma realidade que sentia dentro de si.
- Tendo chegado à conclusão de que a maioria dos fatos corriqueiros costuma levar-nos ao encontro de questões essenciais, Virginia encheu seu diário de curiosos detalhes e passagens da vida cotidiana.
- [Diário de Virginia, 13 de abril de 1930] Havia filas de hortênsias, a maioria de um azul-escuro. Sim, disse Mr. Johnson, Lord Kitchener esteve aqui & perguntou como as tornamos azuis […]. Eu disse que se punham coisas na terra. Ele disse que ele também. Mas às vezes, apesar de todo o cuidado, elas saem meio rosadas. Miss Alice [de Rothschild] não queria nem saber dessas. Se houvesse uma pontinha de rosa, já não servia. E ele nos mostrou uma hortênsia de pétalas metálicas. Não, para Miss Alice essa não serviria. Impressionou-me a loucura disso, & como é fácil manter a mente de alguém ligada na azulzice das hortênsias & hipnotizar Mr. Johnson para que ele pense somente na azulzice das hortênsias. Ele costumava estar com ela todas as noites, pois raramente ela recebia alguém, e ficavam duas horas conversando sobre plantas & política. Como é fácil enlouquecer pela azulzice das hortênsias e não pensar noutra coisa.
- O tratamento satírico do jardineiro e sua obsessão por Virginia — ele a lembrou “uma nectarina dura, madura, vermelha” — associa-se a um sentimento de familiaridade, a uma compreensão de como é fácil “enlouquecer” por causa de um jardim — ou a forma de um romance ou um programa político. Como é fácil, diz ela com consternação e simpatia, como é humano, cair num transe hipnótico e assim passar a vida inteira a rodear perenemente por um caminho estreito.
- Ela podia zombar com impiedade da obsessão do jardineiro e tratar a vida privada de seus amigos com irreverente exultação. Mas tinha suas próprias compulsões domésticas — pequenos problemas que era incapaz de enfrentar com o bom humor costumeiro. Por exemplo: a questão das empregadas, que envolvia um retorno à sua distante infância vitoriana e por conseguinte era um caso sério. Apesar de seus princípios socialistas, os Woolf não podiam ficar sem uma cozinheira morando em casa, se bem que a contrataram com sentimentos ambíguos. Durante os anos logo posteriores à Primeira Guerra Mundial, Virginia e Leonard tiveram duas moças em casa para cuidar da cozinha, da faxina e da lavagem de roupas. O serviço remunerado era uma necessidade, numa época em que havia poucos aparelhos para poupar tempo.
- Segundo os historiadores sociais Noreen Branson e Margot Heinemann, a vida social da classe alta inglesa dependia da disponibilidade quase ilimitada de empregadas domésticas mal pagas […]. A dependência de empregados não se limitava às mansões nem aos muito ricos; o padrão se repetia, ainda que em escala mais modesta, por toda a alta classe média. Normalmente ninguém convidava amigos para comer num restaurante, convidava-os para um almoço ou um jantar em sua casa, e a refeição seria preparada e servida pelo pessoal que lá trabalhava. Normalmente ninguém passava os feriados em hotéis; ou bem você tinha sua casa, ou bem alugava uma, e lá ficava com seu plantel de empregados para cuidar de você, que enquanto isso convidava os amigos para passar uns dias.
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- O caso dos Woolf se encaixa exatamente nessa descrição. Eles tinham duas casas — uma em Londres, onde passavam a maior parte do ano e onde ficavam também os escritórios da Hogarth Press; a outra era um chalé no campo, para onde iam nos fins de semana e durante o verão. Ambas eram lugares simples, despretensiosos. O chalé em Sussex, Monk’s House, pertencera a um dono de bar e de início não tinha nem banheiro dentro de casa, embora contasse com um bonito jardim. Mas as duas casas suportavam um modo de vida que se centrava na hospitalidade dada e recebida — convites frequentes para um almoço, um jantar ou um fim de semana no campo — e eram mantidas por “empregados domésticos mal pagos”.
- Para Virginia e Leonard, como para a maioria das pessoas de sua classe, problemas com empregados eram um dos aborrecimentos do dia a dia, um mal menor que ocasionalmente explodia em grande perturbação.
- O problema diminuía às vezes, mas sempre voltava a acontecer. Em meados da década de 1920, os Woolf, com a esperança de simplificar sua vida, restringiram-se a uma empregada morando em casa, à qual se juntavam dois ou três ajudantes, quando necessário, para cuidar da faxina e do jardim. Mas, no verão de 1929, o problema com a empregada se agravou.
- As relações entre Virginia e Nelly Boxall, que esteve com eles desde os primeiros anos de seu casamento, eram tensas. As disposições de ânimo de Nelly variavam imprevisivelmente, indo da amabilidade à hostilidade mais franca e sem advertência. Ela era de bom coração, impulsiva e medíocre — sendo ao mesmo tempo “a mais fiel e enfurecedora da espécie”. Sua presença na casa era um eterno tormento; ninguém conseguia escapar dela. Virginia, quase à beira dos cinquenta anos agora, estava totalmente imersa em seu novo romance, sua “autobiografia” fictícia, que ia se revelando mais difícil do que ela havia esperado.
- Apresentava seis amigos a sintetizar suas vidas numa série de solilóquios impessoais. A história, como ela observou, não era acerca de personalidades individuais, mas de “alguma coisa do universo que resta em cada um”. E durante toda essa época, ela esteve às turras com a empregada, numa sucessão de brigas violentas. Tinha-se o tipo de contraste irônico que Virginia adorava expor na vida dos outros. Nelly Boxall lhe atazanava o espírito e invadia-lhe a vida emocional; tanto a induzia à simpatia quanto a ressentimentos. O diário de Virginia, onde frequentemente sua frustração e raiva com as empregadas eram registradas, também refletia seu desejo de compreender como elas viviam. “Se eu estivesse lendo este diário”, anotou ela em dezembro de 1929, “se fosse um livro que caísse em meu caminho, acho que eu deveria me agarrar com avidez ao retrato de Nelly & fazer uma história — talvez levando toda a história a girar em torno dela; isso me divertiria. Seu caráter — nossos esforços para nos l
- Pessoa tagarela com uma “cara engraçada, meio teimosa”, Nelly foi trabalhar para os Woolf quando jovem, em 1916, e ainda estava a seu serviço ao se aproximar da meia-idade. No final da década de 1920, desempenhava um duplo papel, como velha empregada de confiança e dependente rabugenta, alternando-se entre agradar e apoquentar Virginia. Era uma cozinheira excelente, capaz de se incumbir de servir uma comida deliciosa quando em apenas oito dias os Woolf davam três jantares e dois concorridos chás. Era também uma hipocondríaca — constantemente preocupada com seus órgãos internos e, como Virginia anotou, com uma carência infantil.
- Nelly tem oscilado entre lágrimas & gargalhadas, vida & morte, pelos últimos 10 dias; não pode sentir uma dorzinha qualquer sem mandar chamar a mim ou a L. para lhe garantir que as dores não são necessariamente fatais. Depois ela começa a chorar. Nunca, nunca, nunca vai superar aquilo […]. E não há nada de mais, a não ser o que um de nós chamaria de interior revolto.
- Nelly era, por natureza, manipuladora; sabia como desarmar a patroa, levando-a primeiro a perder a paciência, depois explorando a sua culpa. “Oh, madame, eu nunca quis lhe aborrecer — melhor não continuar falando agora, se isso lhe aborrece — mas a senhora nunca quis me ajudar. A Grace tem toda a ajuda de que precisa […]. E eu, há três anos que ando doente.”
- Virginia suportou o temperamento briguento de Nelly e observou com curiosidade seu caráter, mas houve épocas em que o distanciamento irônico deixou de ampará-la. Durante o verão de 1929, a tensão em Monk’s House, onde os quartos eram pequenos, tornou-se insuportável. Nelly andava emburrada, preparando-se pouco a pouco para uma explosão de emoções, durante a qual diria que ia embora. Era seu modo de dar-se algum alívio, e isso já tinha acontecido tantas vezes que Virginia se prometera que nunca, nunca acreditaria nela de novo.
- Virginia suportou o temperamento briguento de Nelly e observou com curiosidade seu caráter, mas houve épocas em que o distanciamento irônico deixou de ampará-la. Durante o verão de 1929, a tensão em Monk’s House, onde os quartos eram pequenos, tornou-se insuportável. Nelly andava emburrada, preparando-se pouco a pouco para uma explosão de emoções, durante a qual diria que ia embora. Era seu modo de dar-se algum alívio, e isso já tinha acontecido tantas vezes que Virginia se prometera que nunca, nunca acreditaria nela de novo. Mas nesse ano, quando as queixas e ameaças começaram, quando os dias de trabalho eram interrompidos por cenas desagradáveis, Virginia esteve mais perto do que nunca de deixar que Nelly fosse embora de fato. Após uma briga violenta, pediu-lhe que saísse da casa, ao que Nelly respondeu estridentemente que nada lhe agradaria mais
- Problemas com a empregada Nelly
- Virginia se viu atormentada por sentimentos ambíguos. A discussão a deprimiu — tinha sido torpe e ridícula. Seria “uma maravilha” livrar-se daquela relação degradante, embora ela mal soubesse, depois de tantos anos, como isso poderia ser feito. Mas, se não agisse agora, estaria condenada a ficar com Nelly para sempre, ideia que a apavorou: “Olhei-a nos seus olhinhos gulosos tão mutáveis & lá não vi outra coisa a não ser malícia & despeito […] ela não liga para mim, nem para nada.” Ao longo dos últimos anos, os Woolf tinham passado horas incontáveis a andar de um lado para outro discutindo os ultimatos de Nelly, suas queixas sobre as horas de trabalho e os baldes de carvão. Ressentia-se de que tivessem hóspedes e os fazia saber disso. Achava que trabalhava demais e não se sentia reconhecida. Tinha ciúmes. Virginia observou que esses imbróglios eram “piores do que operações de câncer”
- . No entanto, dois dias depois de ter mandado Nelly sair da casa, anotou com alívio que tinham feito mais uma vez as pazes, e ela iria ficar. “Graças a Deus; tudo está acabado & calmo & resolvido.” A ideia de Nelly ser despedida, sem ter para onde ir e com empregos difíceis de encontrar, era dolorosa demais. Ambas as mulheres eram muito emocionais, mas cada qual a seu modo, separadas tanto por temperamento quanto por diferenças de classe — e vivendo lado a lado em espaços tão exíguos — a patroa, toda ela pressa e distanciamento, tentando em vão penetrar na obstinada imobilidade da criada, e todas as duas confundidas por certo fascínio mútuo. Após uma de suas discussões, Nelly tinha dito: “Gosto muito da senhora para poder ser feliz com qualquer outra”, o que foi o maior elogio possível. Essa relação deu a Virginia seu mais íntimo contato com uma pessoa de classe baixa desde a juventude, quando a cozinheira da família, Sophia Farrell, teve em sua vida uma presença importante.
- Essa relação deu a Virginia seu mais íntimo contato com uma pessoa de classe baixa desde a juventude, quando a cozinheira da família, Sophia Farrell, teve em sua vida uma presença importante. A relação lhe permitiu imaginar sua própria pré-história. Nelly representava o indivíduo “em estado natural; sem treinamento; sem instrução e, quase inacreditável para mim, sem poder de análise ou lógica; de modo que se vê uma mente humana a retorcer-se despida — o que é interessante; & depois, em meio ao horror sentido ante o repulsivo espetáculo, somos surpreendidos pela bondade da natureza humana despida; & é por estar sem roupagem que isso impressiona mais”. A psicologia de Nelly a desorientava; num momento ela se mostrou terrivelmente rancorosa e depois, ignorando o fato de ter sido despedida, percorreu quilômetros de bicicleta para ir buscar creme para o jantar, agindo por genuína boa natureza, porque Mr. e Mrs. Woolf não deviam sofrer.
- Suas desavenças irracionais enraizavam-se em algo além das diferenças pessoais. Virginia pensava que a culpa era do sistema, que permitia a Nelly, pessoa sem instrução, imiscuir-se na vida do casal, tornar-se dependente deles como se fosse parte da família, quando eram culturalmente tão distintos. Tratava-se de uma versão do dilema colonial. Como os “nativos” europeizados, Nelly tinha perdido sua identidade; tornara-se um “híbrido”, uma pessoa deslocada, sem raízes aonde quer que fosse. Virginia e Leonard pagavam pelos pecados de gerações anteriores, levantando o “monte de entulho” deixado por seus ancestrais vitorianos. Infelizmente, a análise de Virginia não tornava as coisas mais fáceis quando ela entrava na cozinha e encontrava Nelly zangada.
- Queria ser tratada como patroa, não como amiga. Logo recomeçariam as cenas odientas, o ciclo de altercações e reconciliações. Mas eram fortes os laços que as uniam, e Virginia suspeitava de que pudessem durar a vida inteira, sentindo algum contentamento por ser a separação tão mais difícil do que ela tinha esperado.
- A incômoda relação de Virginia com Nelly e suas outras empregadas ocorreu contra um fundo de desigualdade econômica e muita penúria para as classes trabalhadoras.
- Virginia sabia alguma coisa sobre a pobreza rural, e por vezes a ignomínia a rondou. Num dia de junho de 1929, após visitar na aldeia uma jovem mãe de olhar triste, ela lamentou esse “íncubo da injustiça”, a luta para sobreviver quando mal havia dinheiro para comprar comida. Era intolerável — ela entendeu a vontade de se revoltar, imaginou-se querendo fazer algo violento caso estivesse no lugar da jovem. “Annie Thompsett & seu bebê vivem com 15 centavos por semana. Eu jogo fora 13 — em cigarros, chocolates e passagens de ônibus. Quando eu entrei, ela estava comendo pudim de arroz ao lado do berço do bebê.” Virginia contratou Annie para a ajudar de vez em quando na limpeza da casa e na cozinha. Um ano depois, quando Annie, sem receber aviso prévio, foi despejada de onde morava, os Woolf compraram uma casinha por perto e deixaram que ela vivesse lá, em troca do serviço que passou a lhes prestar de modo mais regular.
- Ironicamente, a crise financeira de 1929, que causou desemprego em massa e fome no norte da Inglaterra, mal afetou os abastados da alta classe média de Londres. Naquele ano, Virginia e Leonard tornaram-se afluentes pela primeira vez na vida, e o que ela havia ganho era quase um salário de ministro de Estado. A Hogarth Press prosperava; Virginia disse brincando que eles “estavam arrastando dinheiro como sardinhas na rede”. A publicação de Orlando e Um teto todo seu garantira-lhe a situação atual. Daqui para a frente ela tinha plena certeza de que seria bem paga por qualquer coisa que escrevesse. Foi aliás nesse contexto que se gabou de ganhar mil libras simplesmente por ter querido isso numa manhã bem cedo. O ganho anual de um trabalhador qualificado, na época, era de 150 libras
- Ironicamente, a crise financeira de 1929, que causou desemprego em massa e fome no norte da Inglaterra, mal afetou os abastados da alta classe média de Londres. Naquele ano, Virginia e Leonard tornaram-se afluentes pela primeira vez na vida, e o que ela havia ganho era quase um salário de ministro de Estado. A Hogarth Press prosperava; Virginia disse brincando que eles “estavam arrastando dinheiro como sardinhas na rede”. A publicação de Orlando e Um teto todo seu garantira-lhe a situação atual. Daqui para a frente ela tinha plena certeza de que seria bem paga por qualquer coisa que escrevesse. Foi aliás nesse contexto que se gabou de ganhar mil libras simplesmente por ter querido isso numa manhã bem cedo. O ganho anual de um trabalhador qualificado, na época, era de 150 libras
- A relutante indulgência de Virginia com Nelly provinha de sua consciência culpada. Como escreveu a uma nova amiga, Ethel Smyth, em 1930, as empregadas a enfureciam e ela era totalmente incapaz de ser impiedosa quando lidava com elas cara a cara: “São tão fraquinhas e desamparadas que, quando a gente fala, percebe suas pobres vidas que adejam.” Ao pensar em Nelly, tomava-se de uma raiva selvagem contra a inépcia de sua própria classe como governantes — por “terem deixado crescer nos nossos ombros esse câncer, essa deformidade, essa doença que são os pobres”. A estridência de seu tom sugere que ela estava consciente de achar-se em terreno moralmente questionável — acriminando o sistema, mas desfrutando de seus benefícios. Era um ônus do qual se ressentia e que expiou dia a dia.
- Além da aversão moral, a veemência de Virginia tinha outra causa menos óbvia
- Ela vivia muito perto dos extremos limites psicológicos; maníaca-depressiva, durante anos mantivera sua doença sob controle, mas sabia que podia sempre voltar. Quando ela estava bem, sua energia era notável, mas tinha pequenas crises recorrentes — fortes dores de cabeça associadas a surtos de melancolia — que a deixavam de cama vários dias e às vezes até semanas. Pouco depois de seu casamento, em 1913, passou uma noite inteira em coma, escapando por um triz de morrer, porque tinha tomado uma dose enorme de Veronal.
- Apesar do sucesso de seus livros, Virginia ainda lutava, às vezes às três da madrugada, para livrar-se de ideias suicidas. Descreveu seus terrores em 1926, quando estava escrevendo as últimas páginas de Ao farol. Ela acordou com a sensação de estar sob opressão: “Fisicamente como uma onda de dor inchando em volta do coração — me sacudindo. Sinto-me infeliz infeliz! Para baixo — ó, meu Deus, eu queria estar morta.”
- Sua fama como romancista e mulher de letras eclipsou em parte sua tentativa de suicídio — dezesseis anos tinham transcorrido desde então, e isso agora era uma velha história. Contudo, ela continuava a viver muito colada à beira; poderia cair num redemoinho emocional e ser tragada para sempre. Tal possibilidade, em todo tempo presente em sua mente, influenciou-lhe a atitude no tocante a questões práticas como dinheiro e empregadas. Tinha escrito Orlando com a intenção consciente de pôr termo à sua insegurança financeira e tornar mais cômoda a vida doméstica, na esperança de resistir desse modo à depressão.
- Comparando-se a Vanessa, cuja vida era tão satisfatória, que tinha filhos para justificá-la, sentia-se uma inútil — uma tagarela vaidosa e incompetente de quem as pessoas riam. “Fracasso fracasso. (A onda sobe.) Oh eles riram porque eu gosto de tinta verde! A onda rebenta. Eu queria estar morta! Restam-me, espero, poucos anos de vida.” A rapidez das ondas que passam por seu corpo, que a esgotam como um ataque físico, é minada em parte pela absurda referência à sua predileção por tinta verde — uma nota de sátira, típica, embora talvez sem intenção. A dor, porém, é dominante. O episódio deixou Virginia com uma visão do mar e das ondas a quebrar na margem, fornecendo-lhe um motivo central do novo romance, ao qual por fim daria o título As ondas. Em junho de 1929, algumas dúvidas sobre sua escrita fizeram-na refletir de novo que ela vivia à beira de um “grande lago de melancolia” no qual poderia cair e afogar-se a qualquer momento; somente seu trabalho a mantinha a salvo.
- Meu Deus, como ele é fundo […]. Logo que eu paro de trabalhar sinto que começo a afundar. E sinto, como sempre, que se afundar ainda mais eu chegarei à verdade. Essa é a única mitigação; uma espécie de nobreza. Solenidade. Hei de me fazer encarar o fato de que não existe nada — nada para nenhum de nós. Trabalhar, ler, escrever, tudo isso são disfarces; & relacionar-se com pessoas. Sim, até mesmo ter filhos seria inútil.
- O caráter sedutor de tais profundezas, que as tornava ainda mais aterradoras, evidencia-se a partir das qualidades lá encontradas por ela: “nobreza”, “solenidade”. Não sabendo se queria realmente escapar de suas “depressões”, que lhe propunham uma verdade mais inflexível, uma recompensa desolada que a atraía, resolveu defender-se, quando partiu para as férias de verão em julho, levando consigo mais trabalho do que provavelmente poderia fazer.
- Trabalho era sua tábua de salvação; concentrada na dificuldade de escrever, espremia o cérebro, segundo suas próprias palavras, “numa bola apertada”, até chegar à beira da extinção (aqui também palavras dela) — só mesmo uma necessidade desesperada, ou uma obsessão masoquista, para conduzi-la adiante. Às vezes Virginia se perguntava por que razão se causava tanta dor. Uma atração pelas alturas? — liberação de refulgências do sol no cérebro, um clarão onde ela viu as cores separar-se e juntar-se, até o brilho se tornar mais intenso? Lutas constantes para manter seu equilíbrio, recaídas — negras “cavernas de torpor e horror ao meu redor” — e depois explosões de embriagante euforia.
- “O que se chama de razão de viver”, diz Camus, “é também uma excelente razão para morrer.” Virginia se testou, a cada manhã, com uma dose de realidade estafante. Poderia ter ganho mais dinheiro escrevendo ficção popular, mas preferiu ser usada pelas manhãs de trabalho, consumida por sua escrita, para que, como disse de Mrs. Ramsay em Ao farol, “mal restasse dela uma casca pela qual ela mesma se reconhecesse”. Era uma provação diária — muitas pequenas mortes para desviar seu interesse pela maior de todas, negociando uma obsessão pela outra. Enquanto aceitou o “esforço e angústia” que se autoprescreveu, ela iludiu a outra pessoa selvagem que poderia lhe causar realmente perigosas compreensões. Sobreviveu absorvendo doses regulares de dor.
- Havia o suplício de levar-se, a cada manhã, ao ponto mais alto de tensão, o aperto da criação, mantendo os demônios e terrores embaixo, conservando esse equilíbrio por quase quarenta anos — uma economia mental que datava de sua juventude. Quando ela terminava um livro, sofria. Quando chegavam as resenhas, sofria novamente, posta a nu. Uma crítica negativa era perigosa, ameaçando sua crença no trabalho e seu sistema de sobrevivência. Depois de cada livro, esboçava mentalmente uma planilha, com opiniões favoráveis e desfavoráveis, e começava tudo de novo — a maceração, o ajuntamento de ideias
- alto nível de sofrimento diário, portanto, combinado com a excitação criadora e um êxtase ocasional — que pode deixar uma pessoa exaurida, mas também, como Virginia disse, aberta à inquietação e alegria. “Sempre me lembro do dito de que é estando na maré mais baixa que a gente mais se aproxima de uma visão verdadeira. Acho que talvez nove de dez pessoas nunca passem um dia do ano numa felicidade como a que eu tenho quase constantemente” — alegria que ela compartilhava com os amigos e pessoas amadas, que a tinham pela mais deliciosa das companhias, “uma criatura de riso e movimento”, como a definiu a romancista Elizabeth Bowen. Ao passo que emergia à luz de um dia comum, não raro sentia-se exultante por simplesmente estar ali — uma mulher vigorosa, na plenitude de sua capacidade, que era fascinada pelos sons e visões que ia encontrando em suas longas caminhadas a esmo através de Londres, pelas cenas de cada esquina, que davam “o maior descanso”.
- A mesma resposta visceral à cidade preenche o episódio inicial de Mrs. Dalloway, quando Clarissa Dalloway atravessa o Saint James’s Park para comprar flores, embebendo-se da atmosfera, ruminando sobre um monte de coisas e confessando, quando para na calçada enquanto os táxis passam, que ela tem uma sensação perpétua “de estar fora, sozinha e muito longe no mar” — o que, se é que faz diferença, aumenta o prazer de estar andando em direção à apinhada Bond Street nessa manhã de sol.
- No final da década de 1920, na Inglaterra, muitos observadores políticos compreenderam que o Tratado de Versalhes, imposto em 1919, não tinha resolvido nada. A Europa ia, aos solavancos, para uma nova grande guerra; com os governos dominados por forças inexoráveis, os líderes nacionais eram homens ocos, fingindo moldar acontecimentos que se achavam, na realidade, fora de seu controle. Absorvida em seu trabalho, Virginia, a princípio, não notou claramente os sinais de advertência. Mas estava em contato com escritores da geração mais jovem e sabia do pessimismo deles quanto ao futuro.
- Após As ondas, sua variação mais ambiciosa no estilo lírico, tornou-se cada vez mais engajada, empenhando-se para decifrar realidades políticas enquanto os próprios políticos sobreviviam à base de fantasia e ilusões. Seu histórico de vida, durante a década de 1930, compõe-se em torno de um debate sobre responsabilidade social e de seus esforços para se contrapor ao uso da força, como escritora e crítica social. A amizade de Virginia com a compositora Ethel Smyth, que ela conheceu em 1930, refletiu um desejo de alargar suas perspectivas além do círculo fechado de sempre. Ethel, apesar de ter militado pelos direitos das mulheres, ainda conservava a aparência do ambiente de esportes e caçadas de sua origem. Típica inglesa bem-disposta e excêntrica, tinha um espírito empreendedor e ousado que a punha muito à vontade, na rua, com qualquer homem ou mulher do povo. “Eu pertenço à multidão”, disse ela a Virginia.
- Gerações anteriores da família Smyth, incluindo seu pai, que era general de divisão da Artilharia Real, tinham-na dotado de rápida percepção dos fatos e da vontade de fazer o que fosse preciso. O imperturbável egotismo de Ethel emanava de ancestrais cujas energias nunca foram minadas por pensamentos profundos; e isso tinha algumas vantagens, como ela disse no primeiro volume de suas memórias: “Deve ser bom ter ancestrais brilhantes, mas o eventual legado de um sistema nervoso exausto talvez não compense a glória de um pedigree flamejante.” Sua família era de filisteus resolutos, nunca subindo além da mediocridade decorosa, e a esse fato ela devia uma excelente saúde e animação constante.
- Os textos autobiográficos de Ethel, sem rebuços, e suas altercações com regentes homens, em defesa de mulheres musicistas, tinham lhe dado certa fama. Edward Sackville-West resumiu sua personalidade como um amálgama de elementos contraditórios: lealdade intensa e desavergonhado egoísmo, raiva violenta e incorruptível integridade. “Fosse o que fosse o que sentisse na hora, ela ia à luta, como um touro solto no fulgor da arena.”
- No auge da campanha pelo sufrágio feminino, antes da Primeira Guerra Mundial, Ethel interrompera sua carreira musical por dois anos para dedicar-se em tempo integral à ação política. Praticou desobediência civil como voluntária e quebrou as vidraças de um ministro do gabinete que se opunha ao voto das mulheres. Foi mandada para a cadeia, onde ensinou companheiras sufragistas a cantar suas músicas e foi vista por Sir Thomas Beecham a reger um coro de prisioneiras, marcando o compasso “em furor quase báquico com uma escova de dentes”. Sylvia Pankhurst, a líder do movimento, que estava numa cela ao lado da de Ethel, descreveu-a como “um ser que somente essas ilhas poderiam ter produzido” — uma autêntica original — desabrida, astuta, uma figura que se fazia notar, com o surrado chapéu de homem e as roupas de campo que vestia, contrabalançadas por uma deslumbrante gravata, verde, vermelha e branca.
- Para Virginia, que sempre pertencera a uma coterie intelectual, Ethel preenchia o papel da impetuosa filha da natureza em Dickens, como a desinibida Mrs. Manresa de Between the Acts [Entre os atos], “cuja natureza era de certo modo ‘mera natureza humana’”. A amizade com Ethel coincidiu com o crescente desejo de Virginia de abordar os problemas sociais, a crise da civilização europeia, numa linguagem que falasse ao leitor medianamente instruído. Ethel tinha lido Um teto todo seu, o ensaio de Virginia sobre as mulheres na profissão literária, e declarou-o o mais lúcido depoimento que já lera sobre os obstáculos que as escritoras tinham de vencer e as poucas probabilidades de o conseguirem — um livro engenhoso, que associava o poder da lógica ao humor e à poesia. De imediato, ela escreveu à Virginia, pedindo para conhecê-la — tinham muito em comum, insistia Ethel, e se tornariam decerto amigas íntimas.
- Ethel Smyth estava com 71 anos quando subiu aquelas escadas, em 20 de fevereiro de 1930. Virginia, que foi recebê-la à porta, tinha 48; alta e magra, cabelo grisalho, ar inescrutável, era ligeiramente sardônica, com os cantos da boca repuxados, e reservada — uma mulher que às vezes parecia habitar outro mundo. Uma sobrinha de Virginia, Angelica Garnett (nascida Bell), traçou seu melhor retrato nos últimos anos de vida. Mesmo em descanso, ela dava uma impressão de atividade intensa — sua postura, longe de ser sentada, era andar a passos largos; coxas e canelas estreitas e compridas, em longas saias de tweed, a vagar pela chapada de Sussex […] ou pelo tráfego de Londres […]. Nunca ela estava em placidez, nunca totalmente parada. Mesmo quando, joelhos angulosos sob a lâmpada, cigarro na piteira, sentava-se depois do chá com uma amiga, tremia de interesse pelo que os outros faziam. A esse penetrante estado de alerta associava-se um ar de vulnerabilidade.
- A esse penetrante estado de alerta associava-se um ar de vulnerabilidade. Mrs. Garnett rememorou suas têmporas sombreadas sobre as quais se esticava uma pele transparente que mostrava traços de azul; as rugas em ondas de sua testa estreita e alta; a tensão daqueles lábios sardônicos, repuxados para baixo nos cantos; o nariz afilado, como o osso esterno de uma ave ou uma asa de morcego, encimado por olhos verde-cinza, de cílios longos, profundamente melancólicos. Tinha a beleza gasta de uma pata de lebre.
- Uma figura impalpável em cuja presença Ethel mergulhou como uma atleta rápida na ação. Suas primeiras palavras foram: “Deixe-me olhar para você.” Quando criança, ela tinha ouvido uma lenda sobre o bisavô de Virginia, segundo a qual ele teria morrido de tanto beber na Índia, e fora embalsamado num barril que explodiu, lançando o corpo aos olhos da viúva que enlouqueceu no ato. Ethel pediu para saber detalhes precisos da árvore genealógica de Virginia, de caderno e lápis em punho para anotar as respostas. Virginia achou-a mais velha do que esperava, “uma velhota militar expansiva”, que usava um terno de homem, de alfaiate, com pontas de cabelo grisalho escapando por baixo de seu napoleônico chapéu de três bicos.
- Nas horas que se seguiram, Ethel fez um relatório completo de sua vida e interesses. Disse que falavam que ela era egoísta, mas sempre lutara pelos oprimidos; martelou e apoquentou para pôr mulheres instrumentistas na orquestra, convidou o diretor do Royal College of Music para almoçar e conversou com ele sobre as práticas injustas de seus colegas homens. Falou de sua nova obra coral, baseada num diálogo filosófico por Harry Brewster, que tinha sido o amor de sua vida. Escrever música era como escrever romances, e a orquestração proporcionava o colorido. Ela queria que sua música fosse ouvida, não lhe haviam dado o reconhecimento que merecia — mas isso talvez fosse uma bênção cifrada, pois ela estava livre para compor como bem queria, sem se preocupar com o sucesso.
- Virginia anotou outra característica: sua necessidade de viver no campo, devido à paixão por esportes. Ethel enalteceu os prazeres do golfe, do ciclismo, da caça — dois anos antes tinha sido derrubada por um cavalo e quebrado o braço, acidente que não lhe esmorecera a coragem. Mas agora começava uma nova fase de sua vida, um novo romance — segundo a própria Virginia. “Há dez dias que não penso em outra coisa a não ser estar com você.”
- A conversa animada se arrastou das 16h às 19h, quando Leonard chegou. Ethel era o tipo de pessoa que Virginia sempre achava interessante. Tinha visto de tudo — estudado na Alemanha e na Itália, escalado os Alpes, conhecido Brahms e Tchaikovsky. Durante os anos iniciais do século xx, Ethel percorrera as óperas da Europa — Praga, Berlim, Viena, Munique —, executando suas partituras para qualquer regente que se dispusesse a ouvir. Acompanhava-se e cantava todas as partes vocais com grande desenvoltura, impressionando pessoas como o famoso maestro Bruno Walter, que se tornou seu amigo para sempre e várias vezes elogiou sua música, porém raramente apresentando-a.
- Ethel tinha muita autoconfiança; falava em voz de comando e deixava a colher de sopa cair com estrondo no prato. Era dominadora no amor, como em tudo mais. Harry Brewster, um americano rico, casado com uma mulher mais velha, tinha sido a grande paixão de sua juventude. Quando a esposa morreu, seguiu Ethel pela Europa e chegou a raspar a barba só para agradá-la, mas ela não quis se casar com ele. Alegou que era tarde demais — seu talento para o matrimônio tinha se atrofiado. Desprezando o “instinto tentacular” da maioria das mulheres, aprendera a dizer para si mesma: “Prefiro ficar sozinha.” O casamento, além do mais, era hostil ao gênio; George Eliot, que Ethel tinha visto certa vez num concerto com seu marido “repulsivo”, comprometera a própria obra ao sacrificar sua liberdade.
- "apelos por intimidade imediata"
- Ao registrar suas impressões, após esse primeiro encontro, Virginia admirou a sagacidade de Ethel, achando-a sincera e impulsiva, mas desconfiou de que ela enfim pudesse mostrar traços de fanatismo — havia “uma veia, como um grande verme, que inchava em sua fronte”. De modo geral, gostou dela — da brusquidão, dos apelos por intimidade imediata, do temperamento passional — e achou até divertido o jeito pelo qual elas se entenderam. Poucos minutos após a chegada de Ethel, já concordavam em se tratar pelo nome — “tudo foi combinado; a base de uma imorredoura amizade fixada em 15 minutos: — quanta sensatez; quanta rapidez”. Em sua apreciação de Ethel, Virginia lhe fez muitas restrições, mas aceitou-a como se aceita uma força da natureza. Com um pouco de sorte, sua amizade poderia escapar da habitual “fofura expansiva” e produzir alguma coisa mais “sólida” e duradoura.
- Nessa primavera, Ethel bombardeou-a com cartas, pacotes de livros, listas numeradas de perguntas, telegramas, flores. Dava inesperadas passadas pela Hogarth Press, parecendo, “em seu casaco branco de alpaca, uma truta velha”. Virginia começou a gostar cada vez mais dela, embora a achasse extremamente irritante. Ethel se transformava numa megera toda vez que puxava o assunto de seus ressentimentos musicais — pondo cascatas de palavras para fora, casos e argumentos expostos com rapidez frenética; ela ia em frente, mal parando para respirar. Era espantosa a torrente de palavras. Em certa ocasião, falou sem parar durante vinte minutos, quase levando o silencioso Leonard, que se juntara às duas, a uma explosão.
- 3 de julho, os Woolf foram a uma festa na casa de Ethel em Woking, a curta distância a sudoeste de Londres. Era um dia maravilhoso de verão, rosas cintilavam junto às paredes. Em sua simplicidade, não faltava beleza ao chalezinho branco construído por Ethel num terreno que uma herdeira americana lhe dera. A reunião, muito agradável, transcorreu em ordem. Ethel tinha planejado diversões para o dia todo — muitos de seus amigos apareceram para conhecer Virginia e Leonard. A certa altura, eles foram até um campo de golfe na vizinhança, para algumas tacadas no esporte favorito de Ethel, depois voltaram para o jantar em casa, seguido por um sarau — a champanhe foi servida no jardim, onde os convidados ergueram brindes à luz que vinha dos canteiros. Tudo foi orquestrado como uma peça de música de câmara, formal, mas variada, a fim de facilitar o entrosamento entre vizinhos e amigos. Surpreendentemente, Ethel se revelou uma anfitriã delicada e habilidosa, administrando a festa com “deliciosa
- Pelo fim de agosto, foi a vez de Virginia convidar Ethel para passar uma noite em Monk’s House, seu refúgio no campo, onde poderiam ficar muito à vontade. Durante essa visita, ela observou a cisão entre as duas Ethels — uma que era incapaz de superar seus próprios padecimentos, cujas queixas haviam se transformado em refrão, e outra que demonstrava grande perspicácia e generosidade. Confortavelmente instalada diante da lareira, nessa noite, Virginia teve uma sensação estranha, como se véus se erguessem revelando camadas da personalidade de Ethel, camadas que vinham das profundezas do passado, com uma iridescência a contornar-lhe a testa larga e idosa. Virginia vislumbrou a imagem da amiga como uma jovem do campo cheia de vigor, uma lourinha robusta de dezoito anos de idade. Mas a aparição logo se desfez e ela viu em Ethel uma aparência dura, desafiadora, granítica, como a de “um velho rochedo batido pelas ondas”. Depois observou ainda outra faceta, a da mulher do mundo que tinha vivido
- Às vezes, ao longo do fim de semana, o tom de suas conversas tornou-se ligeiramente operístico; houve “alguns momentos interessantes”. Ethel tinha escalado Virginia para o papel da amiga verdadeira de quem tanto ela andara à espera, a grande paixão de sua velhice, e admitiu sentir ciúmes: “Não gosto que outras mulheres gostem de você” — confissão à qual Virginia reagiu de pronto: “Então você deve estar me amando, Ethel.” “Nunca amei ninguém tanto assim […]. Desde que a vi, nunca mais pensei em nada.” Terá sido tolice, da parte dela, admitir isso? Virginia não se mostrou abalada pelas suas palavras, garantindo a Ethel que tinha grande necessidade de afeição. Mas, em particular, foi cética; seus comentários tinham um gume satírico. O procedimento de Ethel lhe causara boa impressão, mas ela notou que seus exageros poderiam ser sinal de senilidade a caminho. As declarações de Ethel transformaram-se ainda mais operísticas depois daquela visita: tendo conhecido Virginia
- Três anos depois, Ethel anotou em seu diário algumas reflexões sobre a amizade: Até que ponto V. é humana eu não sei. Ela é muito imprevisível e ninguém nunca soube que admita que possa estar errada. Mas não há como não a amar […]. É intelectualmente arrogante, como se bem além das palavras, no entanto absolutamente humilde quanto a seu próprio grande talento. Sua integridade me fascina. Para salvar uma vida alheia, ou mesmo a dela, não seria capaz de adulterar o que pensa ser a verdade.
- ela poderia enfrentar serenamente a morte e cantar seu “Nunc dimittis”; não lhe importava mais quanto teria a viver, nem desejava prolongar o tempo, agora que seus “últimos anos estéreis” tinham frutificado.
- Virginia, por sua vez, estava ironicamente consciente de constituir na imaginação de Ethel uma figura exótica. [Virginia a Ethel, 29 de dezembro de 1931] Não, penso que você subestima muito o vigor dos meus sentimentos — que são tão fortes — nem ouso olhar para as cavernas de torpor e horror que se abrem ao meu redor […]. Por acaso você sabe como eu gostei de Katherine Mansfield, de Charlie Sanger — para mencionar apenas amigos? Não, não sabe. Mas depois, por meses, logo que a conheci, eu me disse: é mais um dos faladores que, felizmente para eles, não sabem o que é sentimento. Porque todos os que eu mais prezo são silenciosos — Nessa, Lytton, Leonard, Maynard: todos silenciosos; e assim eu me preparei para o silêncio; também induzida a isso pelo terror que tenho de minha própria capacidade ilimitada de sentimento — quando Lytton pareceu estar à morte — e coisa e tal: não consigo entrar nisso, nem agora.
- Mas com a passagem do tempo, para minha surpresa, descobri que você é talvez a única pessoa que eu conheço que demonstra sentimento e sente. Mesmo assim não consigo me imaginar falando do meu amor por pessoas, como você faz. Será por treino? Será o medo perpétuo que tenho da força desconhecida à espreita por baixo do assoalho? Nunca deixei de sentir que tenho de pisar bem de leve no topo desse vulcão. Não, Ethel, há um monte de coisas a meu respeito, digo egoistamente, de que você nem faz ideia; o vigor dos meus sentimentos é um só.
- Virginia seguiu aqui um padrão típico, dizendo a Ethel, sobre si, a verdade sem verniz, ao mesmo tempo que a mantinha à distância. A carta recorre às explicações de si mesma como um biombo, esquivando-se do cerco de Ethel ao dar-lhe mais do que ela pretendia e situando-a, por alusão, em misteriosa relação com o biógrafo Lytton Strachey e o famoso economista John Maynard Keynes. Virginia desempenhava seu papel de fornecedora de confidências, respondendo a perguntas que nunca foram feitas e habilmente insistindo que “um monte de coisas” tinha ficado fora do quadro. Além do mais, as confidências eram verdade, pois Virginia já percebera que somente a verdade era capaz de enganar Ethel.
- Suas cartas, no decorrer do primeiro ano da amizade, continham muitos esquetes, conciliatórios como esse, de sua vida interior e seus sentimentos. Escritas com rapidez vertiginosa e levando um pouco de tudo, de convites e mexericos a uma notícia de que Pinka tinha parido seis cachorrinhos pretos, elas compunham um autorretrato íntimo. Há mais de Virginia nessas cartas, mais da Virginia sem adornos, que em quaisquer outras que ela escreveu na mesma década. Por quê? Porque Ethel pedia intensa e veementemente para saber, porque ela não podia ser descartada, porque Virginia respeitava sua coragem e era ela mesma, como disse ironicamente, “a mais verdadeira das pessoas”. Uma qualidade pela qual as pessoas raramente lhe davam crédito. Muitas vezes, ela era descuidada quanto aos fatos e seus gracejos falhavam, mas não mentia, sendo capaz, sobre seus próprios sentimentos.
- A influência da família e das raízes de Virginia também entrou em questão. Ela adorou a ideia de desenhar seu autorretrato para a filha do general de divisão. Dirigia-se, por intermédio de Ethel, a seus próprios ancestrais; ela também descendia de um clã resoluto e prático de fazendeiros da Escócia e aristocratas franceses, homens de ação, mercadores que praticaram contrabando, mulheres que, além da bela aparência, tinham desenvolvido um espírito forte. Seu pai escalou o Matterhorn e foi um jornalista combativo antes de escrever toda uma prateleira de biografias e volumes sobre literatura inglesa. Sua mãe, famosa pela beleza e devotada ao bem-estar alheio, chegara a deixar a família por semanas, em certa época, para percorrer quartos de enfermos e cuidar de inválidos.
- O mundo de Virginia era mais refinado que o de seus pais, sem falar no de seus avós. Ethel acusou-a de ser uma “maldita intelectual”, e sua resposta foi um pouco áspera — sim, ela pertencia àquela “raça tacanha, ascética, puritana”. Num chá da tarde na casa de Virginia, Ethel conheceu um de seus amigos de Cambridge, o jovem crítico literário F. L. Lucas, que ela tomaria depois por um pedante. Mas Virginia, cuja educação consistia basicamente da leitura dos livros da biblioteca de seu pai, confessou ser fascinada por acadêmicos livrescos como Lucas — “a integridade deles me torna sua escrava”. Na aparência de Lucas, gelada e polida, brilhava um espírito de abertura, livre de hipocrisia, que o fazia admirado por ela.
- Os interesses intelectuais refletiam apenas a superfície de seu espírito. Sua meta era retratar algo mais profundo — o ter entrado num mundo todo dela ao escrever seus romances, que era a única coisa que dava sentido à sua vida: a disciplina da descida e permanência em tais profundezas. Todas as outras atividades, cuidar da casa, ver amigos, selecionar manuscritos para a Hogarth Press, eram afetadas por aquela vivência privilegiada.
- O mundo de Virginia era mais refinado que o de seus pais, sem falar no de seus avós. Ethel acusou-a de ser uma “maldita intelectual”, e sua resposta foi um pouco áspera — sim, ela pertencia àquela “raça tacanha, ascética, puritana”. Num chá da tarde na casa de Virginia, Ethel conheceu um de seus amigos de Cambridge, o jovem crítico literário F. L. Lucas, que ela tomaria depois por um pedante. Mas Virginia, cuja educação consistia basicamente da leitura dos livros da biblioteca de seu pai, confessou ser fascinada por acadêmicos livrescos como Lucas — “a integridade deles me torna sua escrava”. Na aparência de Lucas, gelada e polida, brilhava um espírito de abertura, livre de hipocrisia, que o fazia admirado por ela.
- A influência da família e das raízes de Virginia também entrou em questão. Ela adorou a ideia de desenhar seu autorretrato para a filha do general de divisão. Dirigia-se, por intermédio de Ethel, a seus próprios ancestrais; ela também descendia de um clã resoluto e prático de fazendeiros da Escócia e aristocratas franceses, homens de ação, mercadores que praticaram contrabando, mulheres que, além da bela aparência, tinham desenvolvido um espírito forte. Seu pai escalou o Matterhorn e foi um jornalista combativo antes de escrever toda uma prateleira de biografias e volumes sobre literatura inglesa. Sua mãe, famosa pela beleza e devotada ao bem-estar alheio, chegara a deixar a família por semanas, em certa época, para percorrer quartos de enfermos e cuidar de inválidos.
- Suas cartas, no decorrer do primeiro ano da amizade, continham muitos esquetes, conciliatórios como esse, de sua vida interior e seus sentimentos. Escritas com rapidez vertiginosa e levando um pouco de tudo, de convites e mexericos a uma notícia de que Pinka tinha parido seis cachorrinhos pretos, elas compunham um autorretrato íntimo. Há mais de Virginia nessas cartas, mais da Virginia sem adornos, que em quaisquer outras que ela escreveu na mesma década. Por quê? Porque Ethel pedia intensa e veementemente para saber, porque ela não podia ser descartada, porque Virginia respeitava sua coragem e era ela mesma, como disse ironicamente, “a mais verdadeira das pessoas”. Uma qualidade pela qual as pessoas raramente lhe davam crédito. Muitas vezes, ela era descuidada quanto aos fatos e seus gracejos falhavam, mas não mentia, sendo capaz, sobre seus próprios sentimentos.
- Virginia seguiu aqui um padrão típico, dizendo a Ethel, sobre si, a verdade sem verniz, ao mesmo tempo que a mantinha à distância. A carta recorre às explicações de si mesma como um biombo, esquivando-se do cerco de Ethel ao dar-lhe mais do que ela pretendia e situando-a, por alusão, em misteriosa relação com o biógrafo Lytton Strachey e o famoso economista John Maynard Keynes. Virginia desempenhava seu papel de fornecedora de confidências, respondendo a perguntas que nunca foram feitas e habilmente insistindo que “um monte de coisas” tinha ficado fora do quadro. Além do mais, as confidências eram verdade, pois Virginia já percebera que somente a verdade era capaz de enganar Ethel.
- Mas com a passagem do tempo, para minha surpresa, descobri que você é talvez a única pessoa que eu conheço que demonstra sentimento e sente. Mesmo assim não consigo me imaginar falando do meu amor por pessoas, como você faz. Será por treino? Será o medo perpétuo que tenho da força desconhecida à espreita por baixo do assoalho? Nunca deixei de sentir que tenho de pisar bem de leve no topo desse vulcão. Não, Ethel, há um monte de coisas a meu respeito, digo egoistamente, de que você nem faz ideia; o vigor dos meus sentimentos é um só.
- Virginia, por sua vez, estava ironicamente consciente de constituir na imaginação de Ethel uma figura exótica. [Virginia a Ethel, 29 de dezembro de 1931] Não, penso que você subestima muito o vigor dos meus sentimentos — que são tão fortes — nem ouso olhar para as cavernas de torpor e horror que se abrem ao meu redor […]. Por acaso você sabe como eu gostei de Katherine Mansfield, de Charlie Sanger — para mencionar apenas amigos? Não, não sabe. Mas depois, por meses, logo que a conheci, eu me disse: é mais um dos faladores que, felizmente para eles, não sabem o que é sentimento. Porque todos os que eu mais prezo são silenciosos — Nessa, Lytton, Leonard, Maynard: todos silenciosos; e assim eu me preparei para o silêncio; também induzida a isso pelo terror que tenho de minha própria capacidade ilimitada de sentimento — quando Lytton pareceu estar à morte — e coisa e tal: não consigo entrar nisso, nem agora.
- Às vezes, ao longo do fim de semana, o tom de suas conversas tornou-se ligeiramente operístico; houve “alguns momentos interessantes”. Ethel tinha escalado Virginia para o papel da amiga verdadeira de quem tanto ela andara à espera, a grande paixão de sua velhice, e admitiu sentir ciúmes: “Não gosto que outras mulheres gostem de você” — confissão à qual Virginia reagiu de pronto: “Então você deve estar me amando, Ethel.” “Nunca amei ninguém tanto assim […]. Desde que a vi, nunca mais pensei em nada.” Terá sido tolice, da parte dela, admitir isso? Virginia não se mostrou abalada pelas suas palavras, garantindo a Ethel que tinha grande necessidade de afeição. Mas, em particular, foi cética; seus comentários tinham um gume satírico. O procedimento de Ethel lhe causara boa impressão, mas ela notou que seus exageros poderiam ser sinal de senilidade a caminho. As declarações de Ethel transformaram-se ainda mais operísticas depois daquela visita: tendo conhecido Virginia
- Pelo fim de agosto, foi a vez de Virginia convidar Ethel para passar uma noite em Monk’s House, seu refúgio no campo, onde poderiam ficar muito à vontade. Durante essa visita, ela observou a cisão entre as duas Ethels — uma que era incapaz de superar seus próprios padecimentos, cujas queixas haviam se transformado em refrão, e outra que demonstrava grande perspicácia e generosidade. Confortavelmente instalada diante da lareira, nessa noite, Virginia teve uma sensação estranha, como se véus se erguessem revelando camadas da personalidade de Ethel, camadas que vinham das profundezas do passado, com uma iridescência a contornar-lhe a testa larga e idosa. Virginia vislumbrou a imagem da amiga como uma jovem do campo cheia de vigor, uma lourinha robusta de dezoito anos de idade. Mas a aparição logo se desfez e ela viu em Ethel uma aparência dura, desafiadora, granítica, como a de “um velho rochedo batido pelas ondas”. Depois observou ainda outra faceta, a da mulher do mundo que tinha vivido
- 3 de julho, os Woolf foram a uma festa na casa de Ethel em Woking, a curta distância a sudoeste de Londres. Era um dia maravilhoso de verão, rosas cintilavam junto às paredes. Em sua simplicidade, não faltava beleza ao chalezinho branco construído por Ethel num terreno que uma herdeira americana lhe dera. A reunião, muito agradável, transcorreu em ordem. Ethel tinha planejado diversões para o dia todo — muitos de seus amigos apareceram para conhecer Virginia e Leonard. A certa altura, eles foram até um campo de golfe na vizinhança, para algumas tacadas no esporte favorito de Ethel, depois voltaram para o jantar em casa, seguido por um sarau — a champanhe foi servida no jardim, onde os convidados ergueram brindes à luz que vinha dos canteiros. Tudo foi orquestrado como uma peça de música de câmara, formal, mas variada, a fim de facilitar o entrosamento entre vizinhos e amigos. Surpreendentemente, Ethel se revelou uma anfitriã delicada e habilidosa, administrando a festa com “deliciosa
- Nessa primavera, Ethel bombardeou-a com cartas, pacotes de livros, listas numeradas de perguntas, telegramas, flores. Dava inesperadas passadas pela Hogarth Press, parecendo, “em seu casaco branco de alpaca, uma truta velha”. Virginia começou a gostar cada vez mais dela, embora a achasse extremamente irritante. Ethel se transformava numa megera toda vez que puxava o assunto de seus ressentimentos musicais — pondo cascatas de palavras para fora, casos e argumentos expostos com rapidez frenética; ela ia em frente, mal parando para respirar. Era espantosa a torrente de palavras. Em certa ocasião, falou sem parar durante vinte minutos, quase levando o silencioso Leonard, que se juntara às duas, a uma explosão.
- Ao registrar suas impressões, após esse primeiro encontro, Virginia admirou a sagacidade de Ethel, achando-a sincera e impulsiva, mas desconfiou de que ela enfim pudesse mostrar traços de fanatismo — havia “uma veia, como um grande verme, que inchava em sua fronte”. De modo geral, gostou dela — da brusquidão, dos apelos por intimidade imediata, do temperamento passional — e achou até divertido o jeito pelo qual elas se entenderam. Poucos minutos após a chegada de Ethel, já concordavam em se tratar pelo nome — “tudo foi combinado; a base de uma imorredoura amizade fixada em 15 minutos: — quanta sensatez; quanta rapidez”. Em sua apreciação de Ethel, Virginia lhe fez muitas restrições, mas aceitou-a como se aceita uma força da natureza. Com um pouco de sorte, sua amizade poderia escapar da habitual “fofura expansiva” e produzir alguma coisa mais “sólida” e duradoura.
- "apelos por intimidade imediata"
- Ethel tinha muita autoconfiança; falava em voz de comando e deixava a colher de sopa cair com estrondo no prato. Era dominadora no amor, como em tudo mais. Harry Brewster, um americano rico, casado com uma mulher mais velha, tinha sido a grande paixão de sua juventude. Quando a esposa morreu, seguiu Ethel pela Europa e chegou a raspar a barba só para agradá-la, mas ela não quis se casar com ele. Alegou que era tarde demais — seu talento para o matrimônio tinha se atrofiado. Desprezando o “instinto tentacular” da maioria das mulheres, aprendera a dizer para si mesma: “Prefiro ficar sozinha.” O casamento, além do mais, era hostil ao gênio; George Eliot, que Ethel tinha visto certa vez num concerto com seu marido “repulsivo”, comprometera a própria obra ao sacrificar sua liberdade.
- A conversa animada se arrastou das 16h às 19h, quando Leonard chegou. Ethel era o tipo de pessoa que Virginia sempre achava interessante. Tinha visto de tudo — estudado na Alemanha e na Itália, escalado os Alpes, conhecido Brahms e Tchaikovsky. Durante os anos iniciais do século xx, Ethel percorrera as óperas da Europa — Praga, Berlim, Viena, Munique —, executando suas partituras para qualquer regente que se dispusesse a ouvir. Acompanhava-se e cantava todas as partes vocais com grande desenvoltura, impressionando pessoas como o famoso maestro Bruno Walter, que se tornou seu amigo para sempre e várias vezes elogiou sua música, porém raramente apresentando-a.
- Virginia anotou outra característica: sua necessidade de viver no campo, devido à paixão por esportes. Ethel enalteceu os prazeres do golfe, do ciclismo, da caça — dois anos antes tinha sido derrubada por um cavalo e quebrado o braço, acidente que não lhe esmorecera a coragem. Mas agora começava uma nova fase de sua vida, um novo romance — segundo a própria Virginia. “Há dez dias que não penso em outra coisa a não ser estar com você.”
- Nas horas que se seguiram, Ethel fez um relatório completo de sua vida e interesses. Disse que falavam que ela era egoísta, mas sempre lutara pelos oprimidos; martelou e apoquentou para pôr mulheres instrumentistas na orquestra, convidou o diretor do Royal College of Music para almoçar e conversou com ele sobre as práticas injustas de seus colegas homens. Falou de sua nova obra coral, baseada num diálogo filosófico por Harry Brewster, que tinha sido o amor de sua vida. Escrever música era como escrever romances, e a orquestração proporcionava o colorido. Ela queria que sua música fosse ouvida, não lhe haviam dado o reconhecimento que merecia — mas isso talvez fosse uma bênção cifrada, pois ela estava livre para compor como bem queria, sem se preocupar com o sucesso.
- Uma figura impalpável em cuja presença Ethel mergulhou como uma atleta rápida na ação. Suas primeiras palavras foram: “Deixe-me olhar para você.” Quando criança, ela tinha ouvido uma lenda sobre o bisavô de Virginia, segundo a qual ele teria morrido de tanto beber na Índia, e fora embalsamado num barril que explodiu, lançando o corpo aos olhos da viúva que enlouqueceu no ato. Ethel pediu para saber detalhes precisos da árvore genealógica de Virginia, de caderno e lápis em punho para anotar as respostas. Virginia achou-a mais velha do que esperava, “uma velhota militar expansiva”, que usava um terno de homem, de alfaiate, com pontas de cabelo grisalho escapando por baixo de seu napoleônico chapéu de três bicos.
- A esse penetrante estado de alerta associava-se um ar de vulnerabilidade. Mrs. Garnett rememorou suas têmporas sombreadas sobre as quais se esticava uma pele transparente que mostrava traços de azul; as rugas em ondas de sua testa estreita e alta; a tensão daqueles lábios sardônicos, repuxados para baixo nos cantos; o nariz afilado, como o osso esterno de uma ave ou uma asa de morcego, encimado por olhos verde-cinza, de cílios longos, profundamente melancólicos. Tinha a beleza gasta de uma pata de lebre.
- Ethel Smyth estava com 71 anos quando subiu aquelas escadas, em 20 de fevereiro de 1930. Virginia, que foi recebê-la à porta, tinha 48; alta e magra, cabelo grisalho, ar inescrutável, era ligeiramente sardônica, com os cantos da boca repuxados, e reservada — uma mulher que às vezes parecia habitar outro mundo. Uma sobrinha de Virginia, Angelica Garnett (nascida Bell), traçou seu melhor retrato nos últimos anos de vida. Mesmo em descanso, ela dava uma impressão de atividade intensa — sua postura, longe de ser sentada, era andar a passos largos; coxas e canelas estreitas e compridas, em longas saias de tweed, a vagar pela chapada de Sussex […] ou pelo tráfego de Londres […]. Nunca ela estava em placidez, nunca totalmente parada. Mesmo quando, joelhos angulosos sob a lâmpada, cigarro na piteira, sentava-se depois do chá com uma amiga, tremia de interesse pelo que os outros faziam. A esse penetrante estado de alerta associava-se um ar de vulnerabilidade.
- Para Virginia, que sempre pertencera a uma coterie intelectual, Ethel preenchia o papel da impetuosa filha da natureza em Dickens, como a desinibida Mrs. Manresa de Between the Acts [Entre os atos], “cuja natureza era de certo modo ‘mera natureza humana’”. A amizade com Ethel coincidiu com o crescente desejo de Virginia de abordar os problemas sociais, a crise da civilização europeia, numa linguagem que falasse ao leitor medianamente instruído. Ethel tinha lido Um teto todo seu, o ensaio de Virginia sobre as mulheres na profissão literária, e declarou-o o mais lúcido depoimento que já lera sobre os obstáculos que as escritoras tinham de vencer e as poucas probabilidades de o conseguirem — um livro engenhoso, que associava o poder da lógica ao humor e à poesia. De imediato, ela escreveu à Virginia, pedindo para conhecê-la — tinham muito em comum, insistia Ethel, e se tornariam decerto amigas íntimas.
- No auge da campanha pelo sufrágio feminino, antes da Primeira Guerra Mundial, Ethel interrompera sua carreira musical por dois anos para dedicar-se em tempo integral à ação política. Praticou desobediência civil como voluntária e quebrou as vidraças de um ministro do gabinete que se opunha ao voto das mulheres. Foi mandada para a cadeia, onde ensinou companheiras sufragistas a cantar suas músicas e foi vista por Sir Thomas Beecham a reger um coro de prisioneiras, marcando o compasso “em furor quase báquico com uma escova de dentes”. Sylvia Pankhurst, a líder do movimento, que estava numa cela ao lado da de Ethel, descreveu-a como “um ser que somente essas ilhas poderiam ter produzido” — uma autêntica original — desabrida, astuta, uma figura que se fazia notar, com o surrado chapéu de homem e as roupas de campo que vestia, contrabalançadas por uma deslumbrante gravata, verde, vermelha e branca.
- Os textos autobiográficos de Ethel, sem rebuços, e suas altercações com regentes homens, em defesa de mulheres musicistas, tinham lhe dado certa fama. Edward Sackville-West resumiu sua personalidade como um amálgama de elementos contraditórios: lealdade intensa e desavergonhado egoísmo, raiva violenta e incorruptível integridade. “Fosse o que fosse o que sentisse na hora, ela ia à luta, como um touro solto no fulgor da arena.”
- Gerações anteriores da família Smyth, incluindo seu pai, que era general de divisão da Artilharia Real, tinham-na dotado de rápida percepção dos fatos e da vontade de fazer o que fosse preciso. O imperturbável egotismo de Ethel emanava de ancestrais cujas energias nunca foram minadas por pensamentos profundos; e isso tinha algumas vantagens, como ela disse no primeiro volume de suas memórias: “Deve ser bom ter ancestrais brilhantes, mas o eventual legado de um sistema nervoso exausto talvez não compense a glória de um pedigree flamejante.” Sua família era de filisteus resolutos, nunca subindo além da mediocridade decorosa, e a esse fato ela devia uma excelente saúde e animação constante.
- Após As ondas, sua variação mais ambiciosa no estilo lírico, tornou-se cada vez mais engajada, empenhando-se para decifrar realidades políticas enquanto os próprios políticos sobreviviam à base de fantasia e ilusões. Seu histórico de vida, durante a década de 1930, compõe-se em torno de um debate sobre responsabilidade social e de seus esforços para se contrapor ao uso da força, como escritora e crítica social. A amizade de Virginia com a compositora Ethel Smyth, que ela conheceu em 1930, refletiu um desejo de alargar suas perspectivas além do círculo fechado de sempre. Ethel, apesar de ter militado pelos direitos das mulheres, ainda conservava a aparência do ambiente de esportes e caçadas de sua origem. Típica inglesa bem-disposta e excêntrica, tinha um espírito empreendedor e ousado que a punha muito à vontade, na rua, com qualquer homem ou mulher do povo. “Eu pertenço à multidão”, disse ela a Virginia.
- No final da década de 1920, na Inglaterra, muitos observadores políticos compreenderam que o Tratado de Versalhes, imposto em 1919, não tinha resolvido nada. A Europa ia, aos solavancos, para uma nova grande guerra; com os governos dominados por forças inexoráveis, os líderes nacionais eram homens ocos, fingindo moldar acontecimentos que se achavam, na realidade, fora de seu controle. Absorvida em seu trabalho, Virginia, a princípio, não notou claramente os sinais de advertência. Mas estava em contato com escritores da geração mais jovem e sabia do pessimismo deles quanto ao futuro.
- A mesma resposta visceral à cidade preenche o episódio inicial de Mrs. Dalloway, quando Clarissa Dalloway atravessa o Saint James’s Park para comprar flores, embebendo-se da atmosfera, ruminando sobre um monte de coisas e confessando, quando para na calçada enquanto os táxis passam, que ela tem uma sensação perpétua “de estar fora, sozinha e muito longe no mar” — o que, se é que faz diferença, aumenta o prazer de estar andando em direção à apinhada Bond Street nessa manhã de sol.
- alto nível de sofrimento diário, portanto, combinado com a excitação criadora e um êxtase ocasional — que pode deixar uma pessoa exaurida, mas também, como Virginia disse, aberta à inquietação e alegria. “Sempre me lembro do dito de que é estando na maré mais baixa que a gente mais se aproxima de uma visão verdadeira. Acho que talvez nove de dez pessoas nunca passem um dia do ano numa felicidade como a que eu tenho quase constantemente” — alegria que ela compartilhava com os amigos e pessoas amadas, que a tinham pela mais deliciosa das companhias, “uma criatura de riso e movimento”, como a definiu a romancista Elizabeth Bowen. Ao passo que emergia à luz de um dia comum, não raro sentia-se exultante por simplesmente estar ali — uma mulher vigorosa, na plenitude de sua capacidade, que era fascinada pelos sons e visões que ia encontrando em suas longas caminhadas a esmo através de Londres, pelas cenas de cada esquina, que davam “o maior descanso”.
- Havia o suplício de levar-se, a cada manhã, ao ponto mais alto de tensão, o aperto da criação, mantendo os demônios e terrores embaixo, conservando esse equilíbrio por quase quarenta anos — uma economia mental que datava de sua juventude. Quando ela terminava um livro, sofria. Quando chegavam as resenhas, sofria novamente, posta a nu. Uma crítica negativa era perigosa, ameaçando sua crença no trabalho e seu sistema de sobrevivência. Depois de cada livro, esboçava mentalmente uma planilha, com opiniões favoráveis e desfavoráveis, e começava tudo de novo — a maceração, o ajuntamento de ideias
- “O que se chama de razão de viver”, diz Camus, “é também uma excelente razão para morrer.” Virginia se testou, a cada manhã, com uma dose de realidade estafante. Poderia ter ganho mais dinheiro escrevendo ficção popular, mas preferiu ser usada pelas manhãs de trabalho, consumida por sua escrita, para que, como disse de Mrs. Ramsay em Ao farol, “mal restasse dela uma casca pela qual ela mesma se reconhecesse”. Era uma provação diária — muitas pequenas mortes para desviar seu interesse pela maior de todas, negociando uma obsessão pela outra. Enquanto aceitou o “esforço e angústia” que se autoprescreveu, ela iludiu a outra pessoa selvagem que poderia lhe causar realmente perigosas compreensões. Sobreviveu absorvendo doses regulares de dor.
- Trabalho era sua tábua de salvação; concentrada na dificuldade de escrever, espremia o cérebro, segundo suas próprias palavras, “numa bola apertada”, até chegar à beira da extinção (aqui também palavras dela) — só mesmo uma necessidade desesperada, ou uma obsessão masoquista, para conduzi-la adiante. Às vezes Virginia se perguntava por que razão se causava tanta dor. Uma atração pelas alturas? — liberação de refulgências do sol no cérebro, um clarão onde ela viu as cores separar-se e juntar-se, até o brilho se tornar mais intenso? Lutas constantes para manter seu equilíbrio, recaídas — negras “cavernas de torpor e horror ao meu redor” — e depois explosões de embriagante euforia.
- O caráter sedutor de tais profundezas, que as tornava ainda mais aterradoras, evidencia-se a partir das qualidades lá encontradas por ela: “nobreza”, “solenidade”. Não sabendo se queria realmente escapar de suas “depressões”, que lhe propunham uma verdade mais inflexível, uma recompensa desolada que a atraía, resolveu defender-se, quando partiu para as férias de verão em julho, levando consigo mais trabalho do que provavelmente poderia fazer.
- Meu Deus, como ele é fundo […]. Logo que eu paro de trabalhar sinto que começo a afundar. E sinto, como sempre, que se afundar ainda mais eu chegarei à verdade. Essa é a única mitigação; uma espécie de nobreza. Solenidade. Hei de me fazer encarar o fato de que não existe nada — nada para nenhum de nós. Trabalhar, ler, escrever, tudo isso são disfarces; & relacionar-se com pessoas. Sim, até mesmo ter filhos seria inútil.
- Comparando-se a Vanessa, cuja vida era tão satisfatória, que tinha filhos para justificá-la, sentia-se uma inútil — uma tagarela vaidosa e incompetente de quem as pessoas riam. “Fracasso fracasso. (A onda sobe.) Oh eles riram porque eu gosto de tinta verde! A onda rebenta. Eu queria estar morta! Restam-me, espero, poucos anos de vida.” A rapidez das ondas que passam por seu corpo, que a esgotam como um ataque físico, é minada em parte pela absurda referência à sua predileção por tinta verde — uma nota de sátira, típica, embora talvez sem intenção. A dor, porém, é dominante. O episódio deixou Virginia com uma visão do mar e das ondas a quebrar na margem, fornecendo-lhe um motivo central do novo romance, ao qual por fim daria o título As ondas. Em junho de 1929, algumas dúvidas sobre sua escrita fizeram-na refletir de novo que ela vivia à beira de um “grande lago de melancolia” no qual poderia cair e afogar-se a qualquer momento; somente seu trabalho a mantinha a salvo.
- Sua fama como romancista e mulher de letras eclipsou em parte sua tentativa de suicídio — dezesseis anos tinham transcorrido desde então, e isso agora era uma velha história. Contudo, ela continuava a viver muito colada à beira; poderia cair num redemoinho emocional e ser tragada para sempre. Tal possibilidade, em todo tempo presente em sua mente, influenciou-lhe a atitude no tocante a questões práticas como dinheiro e empregadas. Tinha escrito Orlando com a intenção consciente de pôr termo à sua insegurança financeira e tornar mais cômoda a vida doméstica, na esperança de resistir desse modo à depressão.
- Apesar do sucesso de seus livros, Virginia ainda lutava, às vezes às três da madrugada, para livrar-se de ideias suicidas. Descreveu seus terrores em 1926, quando estava escrevendo as últimas páginas de Ao farol. Ela acordou com a sensação de estar sob opressão: “Fisicamente como uma onda de dor inchando em volta do coração — me sacudindo. Sinto-me infeliz infeliz! Para baixo — ó, meu Deus, eu queria estar morta.”
- Ela vivia muito perto dos extremos limites psicológicos; maníaca-depressiva, durante anos mantivera sua doença sob controle, mas sabia que podia sempre voltar. Quando ela estava bem, sua energia era notável, mas tinha pequenas crises recorrentes — fortes dores de cabeça associadas a surtos de melancolia — que a deixavam de cama vários dias e às vezes até semanas. Pouco depois de seu casamento, em 1913, passou uma noite inteira em coma, escapando por um triz de morrer, porque tinha tomado uma dose enorme de Veronal.
- Além da aversão moral, a veemência de Virginia tinha outra causa menos óbvia
- A relutante indulgência de Virginia com Nelly provinha de sua consciência culpada. Como escreveu a uma nova amiga, Ethel Smyth, em 1930, as empregadas a enfureciam e ela era totalmente incapaz de ser impiedosa quando lidava com elas cara a cara: “São tão fraquinhas e desamparadas que, quando a gente fala, percebe suas pobres vidas que adejam.” Ao pensar em Nelly, tomava-se de uma raiva selvagem contra a inépcia de sua própria classe como governantes — por “terem deixado crescer nos nossos ombros esse câncer, essa deformidade, essa doença que são os pobres”. A estridência de seu tom sugere que ela estava consciente de achar-se em terreno moralmente questionável — acriminando o sistema, mas desfrutando de seus benefícios. Era um ônus do qual se ressentia e que expiou dia a dia.
- Ironicamente, a crise financeira de 1929, que causou desemprego em massa e fome no norte da Inglaterra, mal afetou os abastados da alta classe média de Londres. Naquele ano, Virginia e Leonard tornaram-se afluentes pela primeira vez na vida, e o que ela havia ganho era quase um salário de ministro de Estado. A Hogarth Press prosperava; Virginia disse brincando que eles “estavam arrastando dinheiro como sardinhas na rede”. A publicação de Orlando e Um teto todo seu garantira-lhe a situação atual. Daqui para a frente ela tinha plena certeza de que seria bem paga por qualquer coisa que escrevesse. Foi aliás nesse contexto que se gabou de ganhar mil libras simplesmente por ter querido isso numa manhã bem cedo. O ganho anual de um trabalhador qualificado, na época, era de 150 libras
- Ironicamente, a crise financeira de 1929, que causou desemprego em massa e fome no norte da Inglaterra, mal afetou os abastados da alta classe média de Londres. Naquele ano, Virginia e Leonard tornaram-se afluentes pela primeira vez na vida, e o que ela havia ganho era quase um salário de ministro de Estado. A Hogarth Press prosperava; Virginia disse brincando que eles “estavam arrastando dinheiro como sardinhas na rede”. A publicação de Orlando e Um teto todo seu garantira-lhe a situação atual. Daqui para a frente ela tinha plena certeza de que seria bem paga por qualquer coisa que escrevesse. Foi aliás nesse contexto que se gabou de ganhar mil libras simplesmente por ter querido isso numa manhã bem cedo. O ganho anual de um trabalhador qualificado, na época, era de 150 libras
- Queria ser tratada como patroa, não como amiga. Logo recomeçariam as cenas odientas, o ciclo de altercações e reconciliações. Mas eram fortes os laços que as uniam, e Virginia suspeitava de que pudessem durar a vida inteira, sentindo algum contentamento por ser a separação tão mais difícil do que ela tinha esperado.
- Suas desavenças irracionais enraizavam-se em algo além das diferenças pessoais. Virginia pensava que a culpa era do sistema, que permitia a Nelly, pessoa sem instrução, imiscuir-se na vida do casal, tornar-se dependente deles como se fosse parte da família, quando eram culturalmente tão distintos. Tratava-se de uma versão do dilema colonial. Como os “nativos” europeizados, Nelly tinha perdido sua identidade; tornara-se um “híbrido”, uma pessoa deslocada, sem raízes aonde quer que fosse. Virginia e Leonard pagavam pelos pecados de gerações anteriores, levantando o “monte de entulho” deixado por seus ancestrais vitorianos. Infelizmente, a análise de Virginia não tornava as coisas mais fáceis quando ela entrava na cozinha e encontrava Nelly zangada.
- Essa relação deu a Virginia seu mais íntimo contato com uma pessoa de classe baixa desde a juventude, quando a cozinheira da família, Sophia Farrell, teve em sua vida uma presença importante. A relação lhe permitiu imaginar sua própria pré-história. Nelly representava o indivíduo “em estado natural; sem treinamento; sem instrução e, quase inacreditável para mim, sem poder de análise ou lógica; de modo que se vê uma mente humana a retorcer-se despida — o que é interessante; & depois, em meio ao horror sentido ante o repulsivo espetáculo, somos surpreendidos pela bondade da natureza humana despida; & é por estar sem roupagem que isso impressiona mais”. A psicologia de Nelly a desorientava; num momento ela se mostrou terrivelmente rancorosa e depois, ignorando o fato de ter sido despedida, percorreu quilômetros de bicicleta para ir buscar creme para o jantar, agindo por genuína boa natureza, porque Mr. e Mrs. Woolf não deviam sofrer.
- . No entanto, dois dias depois de ter mandado Nelly sair da casa, anotou com alívio que tinham feito mais uma vez as pazes, e ela iria ficar. “Graças a Deus; tudo está acabado & calmo & resolvido.” A ideia de Nelly ser despedida, sem ter para onde ir e com empregos difíceis de encontrar, era dolorosa demais. Ambas as mulheres eram muito emocionais, mas cada qual a seu modo, separadas tanto por temperamento quanto por diferenças de classe — e vivendo lado a lado em espaços tão exíguos — a patroa, toda ela pressa e distanciamento, tentando em vão penetrar na obstinada imobilidade da criada, e todas as duas confundidas por certo fascínio mútuo. Após uma de suas discussões, Nelly tinha dito: “Gosto muito da senhora para poder ser feliz com qualquer outra”, o que foi o maior elogio possível. Essa relação deu a Virginia seu mais íntimo contato com uma pessoa de classe baixa desde a juventude, quando a cozinheira da família, Sophia Farrell, teve em sua vida uma presença importante.
- Virginia suportou o temperamento briguento de Nelly e observou com curiosidade seu caráter, mas houve épocas em que o distanciamento irônico deixou de ampará-la. Durante o verão de 1929, a tensão em Monk’s House, onde os quartos eram pequenos, tornou-se insuportável. Nelly andava emburrada, preparando-se pouco a pouco para uma explosão de emoções, durante a qual diria que ia embora. Era seu modo de dar-se algum alívio, e isso já tinha acontecido tantas vezes que Virginia se prometera que nunca, nunca acreditaria nela de novo. Mas nesse ano, quando as queixas e ameaças começaram, quando os dias de trabalho eram interrompidos por cenas desagradáveis, Virginia esteve mais perto do que nunca de deixar que Nelly fosse embora de fato. Após uma briga violenta, pediu-lhe que saísse da casa, ao que Nelly respondeu estridentemente que nada lhe agradaria mais
- Virginia suportou o temperamento briguento de Nelly e observou com curiosidade seu caráter, mas houve épocas em que o distanciamento irônico deixou de ampará-la. Durante o verão de 1929, a tensão em Monk’s House, onde os quartos eram pequenos, tornou-se insuportável. Nelly andava emburrada, preparando-se pouco a pouco para uma explosão de emoções, durante a qual diria que ia embora. Era seu modo de dar-se algum alívio, e isso já tinha acontecido tantas vezes que Virginia se prometera que nunca, nunca acreditaria nela de novo.
- Nelly era, por natureza, manipuladora; sabia como desarmar a patroa, levando-a primeiro a perder a paciência, depois explorando a sua culpa. “Oh, madame, eu nunca quis lhe aborrecer — melhor não continuar falando agora, se isso lhe aborrece — mas a senhora nunca quis me ajudar. A Grace tem toda a ajuda de que precisa […]. E eu, há três anos que ando doente.”
- Nelly tem oscilado entre lágrimas & gargalhadas, vida & morte, pelos últimos 10 dias; não pode sentir uma dorzinha qualquer sem mandar chamar a mim ou a L. para lhe garantir que as dores não são necessariamente fatais. Depois ela começa a chorar. Nunca, nunca, nunca vai superar aquilo […]. E não há nada de mais, a não ser o que um de nós chamaria de interior revolto.
- Pessoa tagarela com uma “cara engraçada, meio teimosa”, Nelly foi trabalhar para os Woolf quando jovem, em 1916, e ainda estava a seu serviço ao se aproximar da meia-idade. No final da década de 1920, desempenhava um duplo papel, como velha empregada de confiança e dependente rabugenta, alternando-se entre agradar e apoquentar Virginia. Era uma cozinheira excelente, capaz de se incumbir de servir uma comida deliciosa quando em apenas oito dias os Woolf davam três jantares e dois concorridos chás. Era também uma hipocondríaca — constantemente preocupada com seus órgãos internos e, como Virginia anotou, com uma carência infantil.
- Apresentava seis amigos a sintetizar suas vidas numa série de solilóquios impessoais. A história, como ela observou, não era acerca de personalidades individuais, mas de “alguma coisa do universo que resta em cada um”. E durante toda essa época, ela esteve às turras com a empregada, numa sucessão de brigas violentas. Tinha-se o tipo de contraste irônico que Virginia adorava expor na vida dos outros. Nelly Boxall lhe atazanava o espírito e invadia-lhe a vida emocional; tanto a induzia à simpatia quanto a ressentimentos. O diário de Virginia, onde frequentemente sua frustração e raiva com as empregadas eram registradas, também refletia seu desejo de compreender como elas viviam. “Se eu estivesse lendo este diário”, anotou ela em dezembro de 1929, “se fosse um livro que caísse em meu caminho, acho que eu deveria me agarrar com avidez ao retrato de Nelly & fazer uma história — talvez levando toda a história a girar em torno dela; isso me divertiria. Seu caráter — nossos esforços para nos l
- As relações entre Virginia e Nelly Boxall, que esteve com eles desde os primeiros anos de seu casamento, eram tensas. As disposições de ânimo de Nelly variavam imprevisivelmente, indo da amabilidade à hostilidade mais franca e sem advertência. Ela era de bom coração, impulsiva e medíocre — sendo ao mesmo tempo “a mais fiel e enfurecedora da espécie”. Sua presença na casa era um eterno tormento; ninguém conseguia escapar dela. Virginia, quase à beira dos cinquenta anos agora, estava totalmente imersa em seu novo romance, sua “autobiografia” fictícia, que ia se revelando mais difícil do que ela havia esperado.
- O problema diminuía às vezes, mas sempre voltava a acontecer. Em meados da década de 1920, os Woolf, com a esperança de simplificar sua vida, restringiram-se a uma empregada morando em casa, à qual se juntavam dois ou três ajudantes, quando necessário, para cuidar da faxina e do jardim. Mas, no verão de 1929, o problema com a empregada se agravou.
- Para Virginia e Leonard, como para a maioria das pessoas de sua classe, problemas com empregados eram um dos aborrecimentos do dia a dia, um mal menor que ocasionalmente explodia em grande perturbação.
- O caso dos Woolf se encaixa exatamente nessa descrição. Eles tinham duas casas — uma em Londres, onde passavam a maior parte do ano e onde ficavam também os escritórios da Hogarth Press; a outra era um chalé no campo, para onde iam nos fins de semana e durante o verão. Ambas eram lugares simples, despretensiosos. O chalé em Sussex, Monk’s House, pertencera a um dono de bar e de início não tinha nem banheiro dentro de casa, embora contasse com um bonito jardim. Mas as duas casas suportavam um modo de vida que se centrava na hospitalidade dada e recebida — convites frequentes para um almoço, um jantar ou um fim de semana no campo — e eram mantidas por “empregados domésticos mal pagos”.
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- Segundo os historiadores sociais Noreen Branson e Margot Heinemann, a vida social da classe alta inglesa dependia da disponibilidade quase ilimitada de empregadas domésticas mal pagas […]. A dependência de empregados não se limitava às mansões nem aos muito ricos; o padrão se repetia, ainda que em escala mais modesta, por toda a alta classe média. Normalmente ninguém convidava amigos para comer num restaurante, convidava-os para um almoço ou um jantar em sua casa, e a refeição seria preparada e servida pelo pessoal que lá trabalhava. Normalmente ninguém passava os feriados em hotéis; ou bem você tinha sua casa, ou bem alugava uma, e lá ficava com seu plantel de empregados para cuidar de você, que enquanto isso convidava os amigos para passar uns dias.
- Ela podia zombar com impiedade da obsessão do jardineiro e tratar a vida privada de seus amigos com irreverente exultação. Mas tinha suas próprias compulsões domésticas — pequenos problemas que era incapaz de enfrentar com o bom humor costumeiro. Por exemplo: a questão das empregadas, que envolvia um retorno à sua distante infância vitoriana e por conseguinte era um caso sério. Apesar de seus princípios socialistas, os Woolf não podiam ficar sem uma cozinheira morando em casa, se bem que a contrataram com sentimentos ambíguos. Durante os anos logo posteriores à Primeira Guerra Mundial, Virginia e Leonard tiveram duas moças em casa para cuidar da cozinha, da faxina e da lavagem de roupas. O serviço remunerado era uma necessidade, numa época em que havia poucos aparelhos para poupar tempo.
- O tratamento satírico do jardineiro e sua obsessão por Virginia — ele a lembrou “uma nectarina dura, madura, vermelha” — associa-se a um sentimento de familiaridade, a uma compreensão de como é fácil “enlouquecer” por causa de um jardim — ou a forma de um romance ou um programa político. Como é fácil, diz ela com consternação e simpatia, como é humano, cair num transe hipnótico e assim passar a vida inteira a rodear perenemente por um caminho estreito.
- [Diário de Virginia, 13 de abril de 1930] Havia filas de hortênsias, a maioria de um azul-escuro. Sim, disse Mr. Johnson, Lord Kitchener esteve aqui & perguntou como as tornamos azuis […]. Eu disse que se punham coisas na terra. Ele disse que ele também. Mas às vezes, apesar de todo o cuidado, elas saem meio rosadas. Miss Alice [de Rothschild] não queria nem saber dessas. Se houvesse uma pontinha de rosa, já não servia. E ele nos mostrou uma hortênsia de pétalas metálicas. Não, para Miss Alice essa não serviria. Impressionou-me a loucura disso, & como é fácil manter a mente de alguém ligada na azulzice das hortênsias & hipnotizar Mr. Johnson para que ele pense somente na azulzice das hortênsias. Ele costumava estar com ela todas as noites, pois raramente ela recebia alguém, e ficavam duas horas conversando sobre plantas & política. Como é fácil enlouquecer pela azulzice das hortênsias e não pensar noutra coisa.
- Tendo chegado à conclusão de que a maioria dos fatos corriqueiros costuma levar-nos ao encontro de questões essenciais, Virginia encheu seu diário de curiosos detalhes e passagens da vida cotidiana.
- (...)Andar sozinha em Londres é o maior descanso.” Distante observadora, mas também perversamente envolvida, ela viu a agressão fortuita, o acidente, os velhos na pobreza, como se tais cenas revelassem algo que ela própria queria, uma verdade, uma confirmação de uma realidade que sentia dentro de si.
- Sim, continuaria como tinha sido, frequentando reuniões e conhecendo pessoas enquanto pelejava com seu tema muito abstruso. Ela vivia na incongruência e vicejava em contrastes — característica notável que surgiria em seu diário em outro 28 de março, exatamente um ano mais tarde, quando estava quase completando um rascunho desse novo romance
- Se deplorava os nervos instáveis, sabia, porém, de sua própria importância como escritora. Orgulhava-se de ganhar dinheiro e contribuir para a prosperidade da Hogarth Press. Seu trabalho não era uma escrevinhação, mas tinha o efeito tangível de “manter 7 pessoas alimentadas e abrigadas […]. Elas vivem das minhas palavras” — essas sete personalidades distintas, idiossincráticas. No ano seguinte, por sua previsão, estariam vivendo de Um teto todo seu. Depois disso, veio o novo romance, com seu tema metafísico que exigiria grande concentração; ela iria “entrar num convento”, banindo todos os interesses mundanos. Mas a algazarra da movimentação a seu redor parecia desmantelar esses planos, na própria medida em que os fazia.
- A decisão de escrever Orlando procedia de uma dessas refregas contra seus fantasmas. “Toda essa fazeção de dinheiro”, anotou Virginia em dezembro de 1928, “originou-se de um espasmo de negro desespero numa noite em Rodmell.” Prometendo-se encontrar uma saída — e uma vez que parte de seu sofrimento era causada pela “perpétua limitação de tudo; não há cadeiras, nem camas, nem conforto, nem beleza; & nem liberdade para mudar”, ela resolveu ali e então adquirir essas coisas. E já em março, podia se gabar de ter ganho “mil libras só por ter querido isso numa manhã bem cedo.
- Sua força se tornava mais evidente nos momentos em que ela parecia mais vulnerável.
- Chega de pobreza, eu disse; & a pobreza acabou”.
- QUEM DIRIA???? VIRGINIA POBRE????????????????
- Seus livros, quando era mais jovem, “eram montes de frases perfeitamente extraídas de um cristal a machado; & agora minha mente anda tão impaciente, tão rápida e, de certo modo, tão desesperada”. Desesperada talvez porque ela estava envelhecendo, como alguns de seus amigos, que pareciam cada vez mais “poeirentos e enrugados”. Teria ela se deteriorado? Não, ela não era como os outros, ainda sentia em seu íntimo o precipitar das ideias. “Só em mim mesma, digo, para sempre se encrespa essa impetuosa torrente […]. Estou mais cheia do que nunca de forma & cor. Acho que estou mais ousada como escritora. E minha crueldade com os meus amigos me alarma. Clive, digo, é intoleravelmente obtuso. Francis é uma carroça de leiteiro desembestada.” Uma brusca confissão que preserva seus padrões rigorosos, pelos quais ao mesmo tempo ela se desculpa. A exagerada pretensão — “só em mim mesma, digo, para sempre” — não só sugere desespero, como também desafio.
- Ela imaginava que seu novo livro estabeleceria uma conexão com todos os pontos desse reino mítico, para que cada objeto, por mais comum que fosse — o cordão de puxar a cortina da janela ou o vaso sobre a mesa —, ficasse “impregnado” de sua luz. “Por que admitir na literatura qualquer coisa que não seja poesia — quero dizer, impregnada […]. Os poetas têm êxito simplificando: praticamente tudo é deixado de fora. Quero pôr praticamente tudo dentro; mas impregnando.” Um programa que bem poderia ter sido aprovado por Proust ou Kafka, Lawrence ou Joyce.
- Sua mente ia explorando “mil coisas, enquanto embaixo do braço eu carregava minha chaleira, os discos de gramofone & meias”. Ela pensava em seu próximo romance; iria agora muito mais longe do que a fantasiosa sátira de Orlando, deixando-se imergir nas profundezas do inconsciente. “Vou enfrentar certas coisas. Vai ser um tempo de aventura & ataque, bem solitário e doloroso.” O novo romance transmitiria um sentido místico de estar vivendo ao mesmo tempo em vários planos diferentes. Virginia tinha ficado fascinada quando Vanessa lhe contou que uma mariposa gigante, literalmente “com quase uns quinze centímetros”, bateu na janela dela uma noite, fazendo muito barulho. Para Virginia, a ação instintiva da mariposa se ligava a algum dia de primavera oculto por trás do mundo visível.
- (...)sentiu sua grande semelhança com a irmã — como elas se espelhavam, “afundadas muitas braças naquela aguada de reflexos em que nós duas nadávamos”. Vanessa se preparava para viajar, durante quatro meses no sul da França, e a passagem do tempo, no entender de Virginia, as deixava ainda mais unidas. Era um dia “poderoso” de primavera, quando a animação e o nervosismo das ruas davam a tudo mais realce.
- Virginia Woolf costumava usar os momentos livres, quando parava de trabalhar ou antes da chegada de hóspedes, para escrever em seu diário. Escrevia o que lhe vinha à cabeça, qualquer coisa que fosse, como se nunca se cansasse de estar escrevendo, como se esperasse chegar, transpondo as barricadas artísticas, a um estado mais essencial. Toda sua obra, com as constantes mudanças de perspectiva e de espírito, tem uma brilhante unidade que não raro, à medida que aclara, também parece ofuscar. Em 28 de março de 1929, ela voltou a escrever em seu diário após seis semanas de silêncio. Uma doença a impedira de trabalhar e, durante parte do tempo em que esteve de cama, preparando mentalmente a conclusão de Um teto todo seu, ela viu as coisas com notável entendimento em seu ócio forçado. Assim, ao se recuperar, foi capaz de escrever tudo num só rompante excitado. Uma doença fértil, portanto.
- Não obstante uma lady muito excepcional. Já no fim da década de 1920, sua maneira de ver fora temperada por longos anos de atividade intelectual e artística. Ela, como romancista e crítica, tinha reputação firmada. Dois grandes romances à moda modernista, Mrs. Dalloway e Ao farol, trouxeram-lhe fama e até notoriedade, mas eram por demais originais e complexos para atrair muitos leitores. Isso começou a mudar em outubro de 1928, após a publicação de sua fantasia biográfica, Orlando, um livro mais acessível que vendeu surpreendentemente bem. Seguiu-se seu longo ensaio sobre mulheres e ficção, Um teto todo seu, que também apresentou sua escrita a um público mais amplo.
- A posição política de esquerda os colocava à margem da privilegiada classe média alta, mas eles mantinham fáceis relações com membros do establishment. A família e os amigos de Virginia eram do tipo de gente que desde o século xix dominava na Inglaterra os níveis mais altos do serviço público, das forças armadas e das profissões liberais. Segundo uma estimativa de 1930, a classe governante era extremamente reduzida — não mais de cem mil pessoas da alta burguesia, a que se somavam algumas poucas centenas de famílias aristocráticas — do total de 45 milhões da população. Virginia pertencia a essa elite por nascimento e educação. Votava no Partido Trabalhista e sustentava opiniões heréticas, mas seus primos eram pilares do establishment — eminentes profissionais, funcionários nomeados cavaleiros, um almirante, um ex-ministro do governo. Laços de família. Ela falava a mesma língua, era uma lady: seu modo de vida cresceu naquele solo e refletia os valores de sua classe.
- Como Virginia Woolf disse após terminar As ondas: “Meu barco zarpou. Balouço entre garrafas vazias e pedaços de papel higiênico. Oh & as empregadas.” Reflete-se em sua história uma luta constante contra as interrupções banais, contra os fatos casuais do dia a dia que interferiam em seu trabalho literário. Relativamente pobre após a morte do pai, ela teve de ganhar sua vida. Sir Leslie Stephen, malgrado todo o renome, era somente um homem de letras e não deixou capital suficiente para garantir-lhe o sustento, ao menos pelos padrões da alta classe média. Virginia e Leonard (por ela chamado de seu “judeu na penúria”) trabalharam duro, por longas horas de seis ou sete dias por semana, como escritores e editores. Por muitos anos, até que os romances dela começassem a vender e a Hogarth Press se tornasse lucrativa, a renda dos Woolf foi tão modesta quanto seu modo de vida. Ambos eram intelectuais sem desejo de grandes posses ou luxo.
- Ela falou de um modo comovedor e simples sobre assuntos importantes, como seu amor pelo marido e pela irmã, seu ódio de tiranos e ditadores, seu sistema nervoso tão rebelde. Particularmente durante a década de 1930, viveu em consonância com sua irônica descrição de si mesma como “a mais verdadeira das pessoas”. Quando resenhistas elogiavam a beleza de sua escrita, ignorando-lhe a substância, ela protestava; preferia que a conhecessem como autora de uma escrita feia, mas honesta, uma artista séria que apenas ia tentando dizer, tão exatamente como possível, alguma coisa que nunca tinha sido dita.
- Ela foi uma escritora difícil, uma ironista que inventava histórias e conduzia seus leitores por obscuras veredas. Frequentemente brincalhona e às vezes maliciosa, comprazia-se embelezando os fatos sobre pessoas, o que levou alguns críticos a duvidarem de sua confiabilidade como testemunha. Mas, como qualquer bom satirista, era adepta de que entre fato e fantasia se traçassem limites precisos, como em geral o fez. Seu amigo William Plomer observou que ela “realmente era devotada aos próprios fatos em si”. Apesar de seu talento poético estar em grande evidência, o outro lado dela, o ser social, era “uma espécie de cientista” interessado na “verdade antropológica”. Observadora astuta de pessoas e acontecimentos, Virginia Woolf usou suas fantasiosas revisões da insípida realidade para causar deleite e aumento de consciência, não para manipular ou iludir. Ao mesmo tempo, sua vida foi toldada pela misteriosa afinidade entre arte e sofrimento.
- Seguindo essa direção, resolvi não especular sobre fatos, mas confiar nas evidências das cartas, diários e outras fontes da época, limitando-me ao que podia ser fundamentado de todo no registro documental. Usei muito raramente a palavra “talvez”, e só após cuidadosa consideração. Mantendo-me tão perto quanto possível do ponto de vista de Virginia Woolf, resolvi também não antecipar mais do que o necessário os fatos, lembrar-me de que o tempo flui numa direção e de que o conhecimento prévio do biógrafo, embora lente poderosa, pode facilmente distorcer a visão.
- (...)ouvir o que Virginia Woolf realmente disse, não o que se esperaria que ela dissesse. Acreditar nela, em suma, resistindo à tentação de impor qualquer paradigma — repressão, abuso sexual, bipolaridade; confiar em seu próprio testemunho e traçar os motivos autocriadores, o cerne da identidade, definido por suas próprias palavras. Ela punha em dúvida as fórmulas psicológicas e insistia que nós vamos a esmo “perpetuamente nomeando e estreitando essas paixões imensamente compósitas que são lançadas ao longe”. Tomei-a por guia de outro modo, ao dar ênfase especial aos compassos bizarros e às texturas variegadas da vida do dia a dia. Tal estilo, que se concentra no esforço de recuperar o próprio ponto de vista do sujeito — o que Virginia chamou de “concepções ou varas de medir” — moldando a história de modo a apresentar esses motivos condutores, constitui a “alobiografia”: um gênero de escrita que assume a posição do outro, que é o sujeito biográfico.
- Assim o ato de dar à luz, a ascensão e queda das civilizações e o fluxo de palavras numa frase são tecidos juntos por um ritmo em comum, ligando-se ademais a outros motivos: a revolta de Virginia contra a frase “masculina” e as convenções vitorianas; seu hábito de ir compondo frases durante longas caminhadas diárias (o passo avantajado que herdou do pai alpinista); e seu uso do andar, na ficção, como um motivo. Essas imagens e suas associações, secundadas pelo quebrar das ondas e o rio a correr, formam uma tessitura simbólica que nos traz mais perto a própria Virginia, não por explicar, mas por lhe estabelecer a presença, convidando-nos a ver as coisas como ela as via.
- Atraído por esse modo de ver, observei a interação dos motivos ao longo dos diários e cartas de Virginia, traçando suas variações, as imagens que se desdobram e se sobrepõem umas às outras — suas constantes referências à água, por exemplo —, os significados refratados a partir de um núcleo único, como num primeiro rascunho de As ondas, onde ela representou “muitas mães, como uma onda sucedendo a outra”, e prosseguiu para evocar a vibrante ascensão e queda das civilizações antigas, Egito, Grécia e Roma. Virginia disse a um amigo que esse romance era “totalmente contrário à tradição da ficção […]. Estou escrevendo de acordo com um ritmo, não com uma trama”. Toda escrita, disse ela, “nada mais é que pôr palavras nas costas do ritmo”.
- Ela mesma deu alguns indícios de como realizar a tarefa. Em 1939, declarou sua insatisfação com a forma biográfica padronizada (estava então pelo meio de uma biografia autorizada de Roger Fry que escrevia) e notou como a verdade é esquiva e evanescente, mesmo sobre fatos que a pessoa conhece por experiência direta. Contudo, pode-se chegar a uma compreensão; ela acreditava que havia um padrão oculto por trás do “algodão cru” aparentemente fortuito da vida cotidiana e que era possível definir os temas ou motivos básicos que conectam a existência de alguém a esse padrão subjacente. Tais motivos centrais nos calibram, são “as concepções ou varas de medir” que dão forma e sentido às nossas vidas.
- Ao olhar para sua luta, senti que a esclarecida Virginia da década de 1930, que demonstrou, sob fogo, grande sanidade e coragem (sua decisão de escolher o momento e a maneira de morrer não diminui isso), necessitava de uma biografia só para ela. O desafio seria mapear a interseção de sua evolução pessoal com os eventos históricos. Ademais, o biógrafo teria de dar a entender a interpenetração das emaranhadas camadas que se desenvolvem em torno de uma personalidade no decurso da mudança, apresentando não só a Virginia reformada, mas também as reversões a uma Virginia primeva que ainda nutria antigos preconceitos e às vezes cedia a eles.
- Minha decisão de escrever esta biografia surgiu de um fascínio pelo modo como as pessoas mudam sob grande tensão. Parti para descrever as mudanças por que Virginia passou na década de 1930 com seus esforços para se opor à insanidade coletiva sem tornar as coisas piores. Os bárbaros estavam ganhando por toda parte, e sua vitória significaria o fim da civilização tal como ela a conhecera. Virginia acreditava que uma pessoa sadia deveria recusar-se a imitar o inimigo, respondendo à violência com resistência passiva e uma veemente “indiferença”. Resistindo ao ânimo prevalecente, acentuava a importância da razão, da tolerância e da alegria, reafirmando essas atitudes civilizadas enquanto vozes estridentes tentavam sufocá-la, sufocando-se entre si.
- Ante a ameaça de guerra, que crescia constantemente, a atmosfera da década de 1930 desordenou muitas das antigas convicções de Virginia; não apenas sua consciência de classe, mas também os objetivos artísticos que produziram Mrs. Dalloway e Ao farol tinham se tornado supérfluos. A crise testou-lhe os valores e o caráter, forçando-a a dar nova ênfase aos fatos da vida e ao mundo externo, a fixar novos objetivos em resposta às pressões dos acontecimentos políticos. Como disse enquanto estava escrevendo o livro seguinte, Os anos, ela se obrigou a “quebrar todos os moldes” e a encontrar uma nova forma de expressão, mais em sintonia com a consciência social do momento.
- no ensaio “Virginia Woolf in Her Fifties” [“Virginia Woolf aos cinquenta anos”], descreve-a de um modo mais simples e menos restritivo como uma escritora de gênio que descobriu toda a extensão de sua ira e expressou-a em termos que foram relevantes para a crise de sua época.
- Ainda é difícil reconciliar as múltiplas camadas da personalidade de Virginia e tentar resolver o problema tornando-a meramente uma coisa ou outra. Duas décadas atrás, Jane Marcus descreveu-a como “uma guerrilheira de saia vitoriana”, revolucionária e “marxista” (as citações são de Jane), e esses rótulos foram influentes, fixando o teor para boa parte da crítica subsequente. Os mesmos rótulos tenderam a obscurecer o conservadorismo de Woolf, que persistiu pela década de 1930 adentro. Sua criação como lady deixou marcas no programa radical de Three Guineas, que ela apresentou a uma audiência de privilegiadas senhoras da alta classe média, e veio à tona no desprezo que sentiu por seus vizinhos de aldeia, quando a guerra a exilou em Sussex. Uma guerrilheira das mais incomuns, que era uma dedicada pacifista; e uma marxista que nunca se referiu a Marx, nem no diário, nem nas suas extensas notas de leitura.
- declarando-se “desenquadrada”, pacifista e (devido a seu casamento) judia. Essa nova postura formou outra camada, complicando ainda mais a mistura, quer social, quer intelectual e artística, de suas identidades. A complexidade de seu modo de ver, na década de 1930, contrastava fortemente com as intimações prevalecentes à pureza ideológica e a uma simples tomada de posição.
- À medida que os ditadores consolidavam seu poder sobre o continente europeu, e que tropas de assalto prendiam e matavam seus oponentes, Virginia se identificou cada vez mais com os rebeldes e as vítimas da opressão, declarando-se “desenquadrada”, pacifista e (devido a seu casamento) judia. Essa nova postura formou outra camada, complicando ainda mais a mistura, quer social, quer intelectual e artística, de suas identidades. A complexidade de seu modo de ver, na década de 1930, contrastava fortemente com as intimações prevalecentes à pureza ideológica e a uma simples tomada de posição.
- Em 1929, quando publicou sua crítica feminista, A Room of One’s Own [Um teto todo seu], o impulso igualitário se tornara predominante; ela já via à sua frente uma época em que escritores examinariam as vidas de mulheres comuns que permaneciam ignoradas, condenadas à obscuridade — “pois os jantares todos estão prontos; os pratos e os copos, lavados; as crianças foram para a escola e depois sumiram no mundo […]. Não há uma só biografia ou história que tenha uma palavra a dizer sobre isso”. Algum futuro e aventuroso romancista talvez venha penetrar “sem condescendência ou bondade […] naqueles quartinhos perfumados onde tomam assento a cortesã, a prostituta e a dama com o cachorrinho”. Uma boa dose de condescendência transparecia em seu tom, mas isso também mudou no final da década de 1930 — não mais estigmas raciais nem observações depreciativas sobre os pobres, naquela atmosfera carregada.
- adequadamente descrita por Alex Zwerdling como uma “personalidade laminada, feita de camadas que não se interpenetram”. A vida real, por certo, não é assim tão definida, e as várias camadas da personalidade de Virginia se fundiram e mudaram perceptivelmente ao longo dos anos.
- Esse viés é apenas um dos lados do quadro. As simpatias políticas de Woolf, mesmo que raramente ela as expresse em seus primeiros anos, tendiam firmemente para a esquerda democrática e para o Partido Trabalhista, do qual Leonard Woolf foi um consultor de alto nível. Quando moça, ela lecionou como voluntária, no Morley College, para homens e mulheres da classe trabalhadora. Mais tarde, participou das atividades de base da Women’s Cooperative Guild, uma rede de consumidoras da classe operária. Além disso, como artista e intelectual, tinha um compromisso, bem oposto ao de uma lady, com ideias avançadas e a estética modernista. Seus reflexos de classe alta e a política socialista coexistiram sem fricção notável, absorvidos ou obscurecidos pela riqueza de sua personalidade artística. Virginia oscilou às vezes entre extremos de impiedade e sensitividade, nisso se assemelhando à fictícia Clarissa Dalloway(...)
- Atitudes igualmente míopes e ligadas à classe tingiram sua obra madura da década de 1920. A heroína do seu “romance de sociedade”, Mrs. Dalloway, não permitirá que notícias sobre atrocidades distantes perturbem a rotina agradável de seu dia. Ela admite que é mimada; ela sabe que há pessoas inocentes que estão sendo “retiradas à força da existência, mutiladas, congeladas […]. Se nada conseguia sentir pelos albaneses, ou seriam armênios?, ela porém adorava suas rosas (isso não ajudaria os armênios?) — as únicas flores que aguentava ver cortadas”. O narrador de Woolf aparentemente endossa esse apelo a sensações privadas e dá a entender que aceita, se não a endossa de todo, a visão das rosas, por sua heroína, como ajuda humanitária. Não se trata apenas de o genocídio se achar muito distante; Clarissa é igualmente insensível na maneira como trata o primo pobre que ela lamenta ter de convidar para sua festa. Virginia deplorava o lado desagradável da lady da alta sociedade, não obstante se i
- Em uma das entradas mais antigas descreve seus sentimentos ao ver, durante um passeio no campo, “uma longa linha de imbecis” cujos olhares dementes e corpos desgraciosos a repeliram — ela mesma tinha sofrido recentemente uma crise nervosa e a visão de tais figuras disformes “era completamente horrorosa. Todos deveriam ser mortos”. Em outra ocasião, ao registrar seu modo de lidar com uma das empregadas, ela fez uma anotação sobre a desesperança dos pobres, que “não têm oportunidades; nem boas maneiras nem autocontrole para se protegerem; nós temos o monopólio de todos os sentimentos generosos — (ouso dizer que não é de todo verdade; mas há algum sentido nisso)”. O julgamento e a retração, fáceis, refletem a rigidez da visão inerente à classe.
- Era preconceituosa!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
- Mas o legado vitoriano tinha outro aspecto. Por trás do “Anjo” prestativo se ocultava seu duplo, um espírito tolhido e amargo que emergia em momentos inesperados para proclamar a inferioridade de negros, colonizados e judeus. O desdém pelos pobres e sem instrução estava no ar, na sociedade de alta classe média da juventude de Virginia, e ela herdou muitos de seus preconceitos. Seu sentimento de superioridade como uma lady estava entranhado fundo; como a maioria de seus amigos, de vez em quando ela deixava escapar um termo como “crioulo” ou (apesar de seu marido judeu) uma observação antissemita. Tinha uma língua afiada e um talento satírico que era capaz de produzir instantâneos de memorável crueldade. Os primeiros diários soam às vezes como se fossem obra de um remanescente do Ancien Régime.
- A última década de Virginia Woolf constitui uma etapa distinta e coerente de seu desenvolvimento. Como assinalou Carolyn Heilbrun, ela “se tornou aos cinquenta uma pessoa diferente”. Seu irado tratamento do “Anjo da Casa” pode servir como um sinal de sua concentração crescente em realidades sociais. Enquanto preparava sua palestra, ela teve uma inspiração para um novo livro sobre as mulheres e o trabalho, um livro para confirmar a rebelião das mulheres contra a autoridade patriarcal e mostrar como elas tinham usado suas novas liberdades. Esses temas a preocuparam por vários anos e acabaram constituindo a base de The Years 23[Os anos] e Three Guineas [Três guinéus].
- Com As ondas por trás, Virginia expressou certo otimismo qualificado quanto ao futuro. “Oh, é mesmo, entre 50 & 60 acho que escreverei alguns livros bem singulares, se eu viver até lá. Quero dizer que eu acho que estou a ponto de dar corpo, finalmente, às formas exatas que meu cérebro retém. Que longa labuta chegar a esse começo — se As ondas for meu primeiro livro em meu próprio estilo!”
- As ondas foi uma obra de transição, um romance gravemente intelectual na forma de “solilóquios” por seis amigos. O retrato em grupo, visto em conjunto, não os apresenta como personagens convencionais, mas como fases distintas de um único “ser humano completo”; a visão do livro, sobrepondo personalidades, sugere uma renúncia à existência pessoal, um desejo de anonimato sem ego. Às vezes Virginia se valia de um desprezo swiftiano pela raça humana, assumindo o estilo lupino e predatório sugerido por seu nome de casada — os dois lados opostos dela — Woolf/Anon — que afinal escapavam como gênios de uma garrafa. Traços de ira e de renúncia perpassam por toda sua obra da década de 1930 — a sátira de lobo e a visão absoluta não mais suavizadas por charme, não mais ligando-a à filha de seu pai, a “Ginny” adolescente.
- Três anos mais tarde, olhando em frente para uma nova década após terminar The Waves [As ondas], um romance austero que retrata seus amigos e o modo de ser de todo o grupo, Virginia anunciou com alguma confiança que finalmente o “Anjo” estava morto. Ela agora entraria numa fase em que criava crônicas sem nostalgia — justapondo a época vitoriana à moderna para observar que a tirania doméstica da primeira levara ao fanatismo político da última. Ela reagiria à mudança do clima político na década de 1930 ao escrever em defesa da liberdade numa era de campos de concentração.
- O “Anjo”, sustentou a autora, era intensamente simpática. Ela era imensamente charmosa. Ela era profundamente abnegada. Superava-se nas difíceis artes da vida familiar. Dia a dia ela se sacrificava. Se havia galinha, ela ficava com o pé; se havia uma corrente de ar, lá iria sentar-se — ela era, em suma, constituída de tal modo que nunca tinha uma opinião ou um desejo próprios, preferindo sempre simpatizar com as opiniões e os desejos dos outros. Acima de tudo — quase nem preciso dizer — ela era pura.
- Em janeiro de 1931, com 49 anos, Woolf falou numa reunião de mulheres profissionais sobre sua carreira de escritora e suas tentativas de matar o “Anjo da Casa”. O ideal angélico, descrito numa bem conhecida sequência vitoriana de poemas, era sinônimo de estereótipos sexuais que ainda predominavam na década de 1930. Mulheres virtuosas, de acordo com o mito, viviam num estado quase incorpóreo, erguendo-se etereamente acima da luxúria animal e dedicando suas vidas ao bem-estar da família. Durante sua juventude, como disse Virginia, nos últimos anos do reinado de Vitória, todas as casas de classe média tinham um “Anjo” residente — que era, tanto quanto o aparador e as cortinas, peça do mobiliário. Não obstante a sua radiância moral, a mulher era um corpo prático e fazia suas tarefas domésticas com grande eficiência, o que se tornava ainda mais conveniente para o Dono da Casa. O veredicto de Virginia sobre tal personagem foi compassivo e mordaz.
- O refrão dos sacrifícios de minha mãe — ela daria qualquer coisa pelos filhos, costumava dizer, para que eles vivessem bem e não sofressem como ela tinha sofrido; tudo o que esperava em retorno era um pouco de gratidão — traz à mente a discussão, por Virginia Woolf, da esposa e mãe que se autossacrificava na Inglaterra vitoriana.
- E assim foi decidido. A tese, que descrevia a guerra de Woolf contra seu condicionamento como uma lady da alta classe média, foi publicada no final da década de 1960, bem no começo da revivescência de Bloomsbury. Depois, em 1972, a biografia de Virginia Woolf por Quentin Bell modificou o retrato da artista que eu trazia na mente. Ressalvados breves excertos, eu ainda não conhecia suas cartas e diários, que confirmavam o caráter subversivo dos romances. Havia agora uma densa penumbra de escritos anteriormente inéditos a oferecer uma riqueza de detalhes, uma Viginia ignorada, que ninguém podia esperar
- Meu orientador em Columbia disse: “Feminismo hoje em dia, sabe, não leva longe. Virginia Woolf não era um animal político. Era uma lady, não gostava de trabalhadores, nem de negros e judeus.” “Mas há ideias radicais, subversivas, em todos os livros dela”, eu disse. Decisivamente, ele deu uma tragada no cachimbo apagado. “E. M. Forster diz que ela era uma esnobe e se orgulhava disso, uma autêntica britânica. Mas acho que você devia ir em frente. Pode dar o que falar.”
- A reputação de Virginia Woolf até então, no começo da década de 1960, estava em baixa, mas já se destinava a talvez reerguer-se, apesar de a sabedoria convencional sustentar que três ou quatro estudos existentes cobriam o assunto mais do que adequadamente. A sugestão de minha amiga vingou. Woolf me atraía por ser um pouco bizarra e não estar no currículo padrão. Apenas por prazer, eu a tinha lido — era um dos meus escritores favoritos — e nem pensara na possibilidade de explorar seus livros para um tema de tese. Mulheres e ficção — era uma área ainda não atravancada, sem a lama incrustada em Yeats e Eliot.
- mas a ideia de um diploma e uma carreira a seguir me parecia destituída de sentido. Passava de ano sem me esforçar e devorava grandes quantidades de ficção e poesia, inclusive as obras de Virginia Woolf. Casei-me e entrei para a faculdade, conservando meu interesse por Woolf, que não estava na moda. Uma amiga me encorajou a escrever uma tese sobre seus romances, dizendo-me: “Anime-se, ninguém tece uma frase como ela, vê se você nos diz o que está acontecendo naquele quarto só para si.”
- Mesmo assim, ainda se leem vidas e há quem deseje escrevê-las. Em meu caso o impulso biográfico veio em hora tardia, após anos de preocupação com a obra de Virginia Woolf — um modo de refocar minha atenção, talvez, depois de longa exposição. Por saber como os escritores projetam seus próprios sentimentos e motivos em seus sujeitos, espero compensar essa tendência lembrando ao leitor que, embora o estilo possa ser discreto e a sequência de fatos essenciais bem estabelecida, o modo de ler e os fatos que alguém seleciona são profundamente influenciados por sua história pessoal
- a padrões de todo tipo dos quais eles ignoravam tudo, pois pensavam quando estavam vivos que poderiam ir aonde quisessem; e, quando falarem, haveremos de entender em seus ditos significados que nunca ocorreram a eles, pois acreditavam quando estavam vivos que diziam sem rodeios o que lhes vinha à cabeça. Mas tudo é diferente, quando estamos numa biografia.
- Os mortos estão à nossa mercê, diz Lily em Ao farol, ponto desenvolvido por Woolf em seu ensaio sobre Christina Rossetti. Procurando imaginar o passado, ela observou, haveremos de ajustar seus habitantes
- Peneirando esses milhões de palavras, o escritor ou a escritora, ao que parece, deve abrir mão de motivos pessoais e apagar-se a fim de sobreviver. Apesar de os sentimentos do biógrafo, sobre o sujeito que lhe serve de tema, serem decisivos, seu trabalho é visto muitas vezes como se envolvesse apenas o refinamento da informação bruta e a elaboração de um estilo — fundindo-se à pessoa do emissor, num silêncio implacável, com a mensagem que ele emite. Mas, como Virginia Woolf lembrou a seus leitores, inevitavelmente atribuímos aos outros nossos próprios sentimentos e intenções. Sobretudo quando o sujeito já não se encontra presente para contradizer-nos.
- "seneramente-presente-ausente"
- Numa das fotos de família de Virginia Woolf, seus pais, Julia e Leslie, estão lendo, enquanto a futura romancista, com onze anos de idade, senta-se no fundo da sala e olha além deles para as lentes da câmera. Trinta e quatro anos depois, em Ao farol, Woolf dramatiza essa foto e nos diz o que os personagens estão pensando. Numa noite tranquila de verão, Mr. e Mrs. Ramsay sentam-se lado a lado, concentrados aparentemente em seus livros, mas na realidade mantêm uma discussão em silêncio, pois cada um já ouviu tanto do outro que a fala se fez supérflua. Silenciosamente, ele a censura por recusar-se a dizer que o ama, negando-lhe assim obediência plena. Silenciosamente, ela replica que deve haver limites, que ele deve deixar-lhe algum espaço onde ela respire e se renove em seu ânimo. Embora as diferenças entre os dois estejam enraizadas a fundo, na maior parte do tempo eles se correspondem bem, e a cena termina com uma trégua incômoda, mas amorosa, que se estenderá de maneira indefinida.
- Julia e Leslia: pais
- As formas que um cérebro retém Mas os mortos, pensou Lily, encontrando em sua intenção certo obstáculo que a fez parar e refletir, dando um passo ou mais para trás, oh, os mortos! murmurou ela, nos davam pena, facilmente eram postos de lado e até meio desprezados por nós. Eles estão à nossa mercê. Virginia Woolf, Ao farol
- Virginia Woolf escrevia cartas e anotações de diário numa velocidade espantosa. Seus editores, ao publicar coletâneas póstumas desses textos, reproduziram suas palavras tal como ela as escreveu, mantendo intactas as irregularidades de pontuação e grafia. Esses escritos sem padronização e sem censura dão uma vívida impressão da personalidade da autora, e cito-os ao longo de todo o livro sem nenhuma alteração editorial. De igual modo, uso títulos provisórios de Woolf para obras em andamento. The Years [Os anos], por exemplo, é mencionado de início como “The Pargiters” [“Os Pargiters”] e “Here and Now” [“Aqui e agora”], conforme o uso de Woolf, e Between the Acts [Entre os atos] aparece como “Pointz Hall”.
- As ondas na praia, que executavam geralmente um tamborilar calmante compassado e de modo consolador pareciam repetir seguidas vezes, enquanto ela se sentava com as crianças, as palavras de uma velha cantiga de ninar murmurada pela natureza: “De você cuido eu — sou seu amparo”, mas que em outros momentos, súbita e inesperadamente […] não tinham tal sentido benigno, mas como um rufo espectral de tambores batiam sem remorsos a medida da vida, faziam pensar na destruição da ilha e seu engolfamento no mar, advertindo a ela, cujo dia havia escoado num rápido afazer depois de outro, que tudo era efêmero como um arco-íris — este som antes abafado e oculto sob os outros sons subitamente estrondou oco em seus ouvidos e a fez olhar para cima num impulso de terror.
- Familiar Obra(s) refletida(s) Forma da inspiração Julia (mãe) Ao Farol Figura materna idealizada, memória, perda Leslie (pai) Ao Farol Intelectual severo, patriarcal Thoby (irmão) As Ondas, Mrs Dalloway Morte precoce, luto, sentido da vida Ambiente de férias familiares Ao Farol Cenário marítimo, infância nostálgica Dinâmica entre irmãos As Ondas Identidade múltipla, formação do eu
- Ao Farol, a personagem Mrs. Ramsay é inspirada na mãe de Woolf — uma figura de beleza, presença emocional e certo ideal familiar — e o ambiente de verão à beira do mar retrata experiências de férias que Virginia viveu com a família na Cornualha.