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Notas

Língua portuguesa: tecnologia e ensino Por Vilson J. Leffa in Parábola Editorial

Tania Aires Costa Letras Português 16 páginas

Conteúdo das notas (16)

Página 1

Do eu lírico à selfie

Meu objetivo específico neste pequeno texto é refletir sobre

o uso da selfie no ensino da língua

portuguesa. Para isso, desenvolvo a seguinte tese:

(1) todos

falam de si;

(2)

falar de si não é uma atividade superficial;

(3)

falar de si ajuda na aprendizagem da língua.

Página 2

Usarei como exemplo a

prática social da selfie.

Sabemos que falar de si não

é uma atividade muito bem vista em nossa cultura. Nietzsche já dizia que “falar de si mesmo é

esconder o que realmente se é”, ou seja, um jeito de enganar os outros. Voltaire

também não deixava por menos: “O orgulho dos pequenos consiste

em falar sempre de si próprios; o dos grandes em nunca falar de si”.

Página 3

No entanto, todos falamos de

nós mesmos, grandes e pequenos. Entre os grandes, temos os poetas, que dizem

falar de si como se estivessem falando pela voz do outro, fazendo de conta que

estão assumindo o “eu

lírico”, mas não é bem assim. Fala sério, Nietzsche. Fernando

Pessoa já deixou

isso bem claro, fingindo que era dor a dor que deveras sentia. No quesito

orgulho, meu caro Voltaire, ninguém supera

nosso Camões: "Cesse tudo

o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta". Nada

pode ser maior, nem o Grêmio de Porto Alegre. Os grandes falam de

si, e falam com muito orgulho.

Página 4

Também

entre os grandes, temos os pintores, com seus autorretratos. Rafael, Rembrandt, da Vinci, van Gogh, Rubens, Goya, Warhol, El Greco, Frida Kahlo, Dali, Picasso, Portinari, Tarsila, entre inúmeros

outros, não deixavam passar uma oportunidade de se pintar. Alguns se pintaram

várias vezes. Michelangelo, em suas Madonas,

projetava na figura do Menino

Jesus, sentado no colo

de Maria, autorretratos psicológicos de sua infância em Caprese, órfão de mãe e

espancado pelo pai.

Página 5

O advento da web

2.0 expandiu o falar de si. O que era privilégio dos

grandes, poetas e pintores, foi estendido aos pequenos e passou a ser de domínio público. Todos adquiriram

voz, no sentido figurado e literal da palavra. É aí que entra a selfie, dando a todos o direito de falar de si. O poeta, que se

enreda no eu lírico, e o pintor, que se espelha no autorretrato, trabalham com

modalidades diferentes: um usa a palavra; o outro, a imagem. Já o internauta,

que se projeta na selfie, caminha pela multimodalidade, ao vivo e a

cores. Usa, no mínimo, a imagem, mas pode usar

também a palavra, o áudio e o vídeo, incluindo a voz e

o gesto. Cada um produz sentido com o que tem: o poeta com a palavra, o pintor

com a imagem, o internauta com tudo.

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As críticas ao falar de si são bem conhecidas e

podem ser resumidas em dois grandes problemas, vistos como os malefícios

maiores da internet: culto ao ego e exposição da vida

privada. As críticas do culto exacerbado ao ego são

extremamente negativas: as pessoas aparentam o que não são, ostentam o que não

têm e dizem o que não sabem. A exposição excessiva da vida

privada é um

problema ainda mais sério, a aberração máxima, propiciada pela câmera

frontal do celular, auxiliada mais recentemente pela inclusão

do pau de selfie.

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Os sentimentos e as intimidades do dia a dia,

sejam o sorvete que alguém vai saborear, a roupa que vai vestir para esperar a

pessoa amada ou o filho recém-nascido no berço do hospital, tudo vira selfie,

e transforma a vida numa vitrine. A ideia é de que essa exposição pública dilui

e enfraquece os laços de amizade verdadeira que une as pessoas. Como diria Hannah

Arendt, autora muito citada pelos críticos da internet:

uma existência vivida inteiramente em público, na presença de outros, torna-se,

superficial.

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Hannah Arendt faleceu em 1975, antes da internet e muito antes da selfie. Enquanto viveu, não sabia o que sabemos hoje, com o emprego

da ressonância

magnética que os

cientistas usam para perscrutar as profundezas do cérebro e mostrar o que

acontece lá dentro, muito além da superfície do couro cabeludo. Estudos

conduzidos pelos cientistas da Universidade

de Harvard, Diana I. Tamir e Jason P.Mitchell, mostraram que

quando as pessoas falam de si elas ativam as partes do cérebro que produzem a

dopamina, o hormônio do prazer. O efeito é uma conectividade mais intensa dos

neurônios. Resultado: falar de si não só é tão profundo quanto nosso cérebro,

como ainda o torna mais elástico, facilitando a memória, a motivação e a aprendizagem.

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Sobre a selfie, especificamente,

temos as investigações da Futurizon, uma empresa que

faz pesquisas sob encomenda e que prevê para as selfies uma

série de possibilidades para os próximos cinco anos. Em um artigo publicado em

2016, o pesquisador Ian Pearson antecipa dez possíveis usos das selfies, combinando recursos da inteligência

artificial com

análise de imagens e bancos

de dados disponíveis

em tempo real. As fotos de si mesmos tiradas pelos usuários podem trazer

melhorias para as áreas do lazer, segurança, saúde, trabalho, compras etc., não

só facilitando a verificação da identidade, mas também trazendo soluções para

muitos dos problemas que encontramos nas atividades do dia a dia.

Página 10

Em relação à aprendizagem

da língua, o falar de si tem a ver com a produção de sentido. Para produzir

sentido, precisamos de um instrumento de mediação que, de algum modo,

materialize o que pensamos. Essa materialização, por sua vez, produz um efeito

de feedback no

pensamento, que se amplia e também realimenta o instrumento, crescendo os dois,

como a célula de um ser vivo que se desenvolve numa flor, num fruto e, às

vezes, num câncer. Vamos ser realistas: a tentativa de produzir sentido nem

sempre dá certo; às vezes se multiplica desordenadamente.

Página 11

O uso da selfie não vai salvar o ensino da língua portuguesa, mas pode ajudar

bastante, dando o pontapé inicial. Nessas condições, o melhor a fazer para

produzir sentido é começar por si mesmo, tentando estabelecer um vínculo

inicial entre o que se sabe e o que precisa ser aprendido, seja interpretação de textos, verbal e não

verbal, literatura, gêneros textuais, gramática, o que for. Isso

não fazemos sozinhos, mas com o uso de um instrumento que nos empodera,

alicerça e refina a exposição de nossos pensamentos, criando um vínculo com o

conteúdo. É aí que entra o celular.

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O celular pode ser usando tanto para a recepção de conteúdo quanto para a produção

de textos, verbais e não verbais.

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Na recepção de conteúdo, o

ponto de emissão está fora do aluno. Os exemplos mais comuns são aplicativos

como dicionários, manuais

de redação, gramáticas e, obviamente, os motores de busca, como

o Google. O que proponho aqui é a inclusão de

um novo ponto de emissão, trazendo a produção textual para o lugar do aluno, que produz,

adapta, remixa e redistribui o conteúdo, usando imagem,

vídeo e texto verbal, fundidos

num artefato cultural único e multimodal.

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O uso do falar de si como

recurso de aprendizagem, tanto para

o ensino da língua portuguesa quanto o da literatura,

já tem sido tema de algumas dissertações e teses. Para o ensino da

língua, cito como exemplo a tese de Ana Cláudia Pereira de Almeida, De Brás Cubas à curva de Koch: produção

textual com base nas teorias da

complexidade (2015), disponível na internet.

Para o ensino da literatura, trago o exemplo da dissertação de Raquel Souza de

Oliveira, Currículo ecológico de língua e

literatura: o uso de tecnologias móveis para uma abordagem colaborativa (2017), que brevemente deverá também

estar disponível na internet.

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Concluindo, o que tentei demonstrar aqui é o seguinte:

(1) num primeiro momento, o falar de si cria um vínculo com o conteúdo a ser aprendido;

(2) depois, leva ao domínio e apropriação desse conteúdo;

(3) finalmente, na terceira e última etapa, reorganiza o sujeito.

Em outras palavras, quando

tudo dá certo, o falar de si pode levar à transformação de si. O aluno não

apenas decora, não apenas se apropria, mas se reconstitui ao falar de si. A

força está com ele. Disponível em: https://www.parabolaeditorial.com.br/blog/entry/lingua-portuguesa-tecnologia-e-ensino.html.

Acesso em: 13 maio de 2017.

Página 16

Informações

Descrição
Letras Notas sobre Língua portuguesa: tecnologia e ensino Por Vilson J. Leffa in Parábola Editorial, criado por Tania Aires Costa em 13-05-2017.
Criado por
Tania Aires Costa · mai 2017
Atualizado
13 mai 2017
Visualizações
142
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