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Texto Base Aula 1
EVOLUÇÃO DOS CONCEITOS SOBRE O CÉREBRO E O PROCESSO DE APRENDIZAGEM
Por Elisa Wolynec
A evolução tecnológica que está revolucionando os processos de ensino e aprendizagem não
se limita ao uso de e-learning e ao impacto da Internet sobre a aprendizagem. O desenvolvimento de novas técnicas de imagens, especialmente a tomografia por emissão de pósitrons (PET) e o aperfeiçoamento das técnicas de ressonância Magnética (MRI) permitem observar, em tempo real, imagens da fisiologia associada com o processo de aprendizagem. É possível observar, por exemplo, regiões específicas do cérebro sendo ativadas, quando atividades de leitura são efetuadas, bem como os neurônios em sua intrincada rede, organizando-se e coordenando suas tarefas.
Essas novas técnicas revelam que o cérebro é um sistema aberto auto-organizável que é moldado pela sua interação com objetos e eventos. Ao deparar-se com novos eventos os mecanismos moleculares do cérebro se ajustam a nova realidade. A percepção dos novos eventos é moldada em parte por eventos passados que já produziram anteriormente alterações no cérebro, ou seja, a percepção é moldada pela experiência anterior. Nós nunca ouvimos alguma coisa sob uma forma totalmente objetiva porque o nosso processo de recepção é colorido pelos estímulos que capturaram nosso interesse no passado. Nós construímos conhecimento sobre experiências anteriores.
A evolução da neurociência permite, atualmente, visualizar cada parte do cérebro vivo em ação, do maior circuito até a sinapse no diminuto espaço entre neurônios. É possível registrar a atividade elétrica de uma única molécula no cérebro. Utilizando essas técnicas está ocorrendo um extraordinário fluxo de estudos científicos sobre a mente e o cérebro, sobre o processo de pensamento e aprendizagem, nos processos neurológicos que ocorrem durante o pensamento e a aprendizagem e no desenvolvimento de competências.
Na antiguidade os filósofos imaginavam o cérebro como uma caixa vazia esperando para serpreenchida. Na segunda metade do século passado essa metáfora mudou para uma analogia com um computador esperando para ser programado, acreditando-se que estímulos externos e não uma motivação intrínseca eram os propulsores da aprendizagem. Ensino e aprendizagem eram vistos como sinônimos. O professor é que controlava a aprendizagem e não o cérebro do estudante. Diferenças entre a inteligência individual eram vistas como hereditárias e praticamente imutáveis.
Entretanto, estas recentes pesquisas revelam que o cérebro é formado por um conjunto de sistemas complexos, cada um construído através de seleção natural para auxiliar a espécie humana na tomada de decisão. Trata-se de um sistema biológico aberto, flexível, que cresce e transforma a si próprio em resposta a desafios e que encolhe em conseqüência de falta de uso. O cérebro prefere buscar e descobrir padrões por si próprio, gerenciando mais facilmente situações reais complexas do que artificiais mais simples. O cérebro está sempre tentando fazer conexões entre novos padrões e os já existentes, agindo não só racionalmente, mas também de forma criativa buscando por conexões não usuais. Cada cérebro é tão único quanto as características físicas que dotam cada pessoa da sua individualidade. Não existem duas pessoas que aprendam do mesmo jeito na mesma velocidade. Uma vez que a aprendizagem produz mudanças no cérebro, quanto mais uma pessoa aprende, mais diferenciado torna-se o cérebro. A infância é uma fase da vida definida pela maleabilidade do cérebro e sua predisposição de aprender certas habilidades com pouco esforço, como por exemplo aprender a falar uma língua. Já a adolescência caracteriza-se pela predisposição do indivíduo em responsabilizar-se pela sua própria tomada de decisão.
À medida que os cientistas estudam o processo da aprendizagem verificam que o modelo construtivista de aprendizagem reflete bem o processo natural do cérebro de fazer sentido do mundo ao seu redor. O construtivismo defende que a aprendizagem é essencialmente ativa. Uma pessoa, aprendendo algo novo, incorpora a essa experiência toda sua bagagem de experiências e padrões mentais. Cada novo fato ou experiência é assimilado numa rede viva de compreensão que já existe na mente dessa pessoa. A aprendizagem não é nem uma atividade passiva e nem simplesmente objetiva.
Todos esses novos avanços nos levam a refletir sobre a real utilidade das aulas expositivas e do ensino que se limita em sua grande parte a fornecer informações. O uso de e-learning complementando as aulas presenciais tem mostrado ganhos enormes na aprendizagem dos alunos. Nos países desenvolvidos há uma tendência de diminuir as aulas presenciais e aumentar os trabalhos práticos, especialmente colocando os alunos a trabalhar em pequenos grupos onde podem discutir com seus pares, vivenciar experiências compartilhadas de aprendizagem. Além disso, o ambiente virtual de aprendizagem, complementando as aulas tradicionais, oferece a cada indivíduo a oportunidade de aprender do seu jeito, na sua velocidade.
Os tempos atuais apresentam grandes desafios aos professores, colocando ao seu dispor informações sobre os mecanismos de aprendizagem de um lado e ferramentas de e-learning que lhes propiciam uma infra-estrutura diferente da que estavam habituados, mas muito poderosa. É tempo de inovar na criação de ambientes de aprendizagem. É mais do que nunca a hora de transforma instituições de ensino em instituições de aprendizagem.
http://www.techne.com.br/artigos/ArtEdu_evolucao.pdf