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Introdução à Memória

 

Uma das mais intrigantes funções complexas do encéfalo é a capacidade de armazenar informação oriunda da experiência e evocar grande parte dessa informação conforme nosso desejo; sem essa capacidade muitas das funções cognitivas não funcionariam, portanto, seríamos, caso existíssemos, muito diferentes do que somos.

 

Enquanto o termo “aprendizado” é usado para designar o processo pelo qual uma nova informação é adquirida, o termo “memória” é utilizado para indicar a capacidade que tem o homem e os animais de armazenar informações que possam ser recuperadas (lembradas) e utilizadas posteriormente. Por outro lado, um fato igualmente importante é a capacidade normal que temos de esquecer muitas informações.

 

São vários os processos da memória; esses começam com a aquisição ou aprendizagem do fato, coisa ou evento. Em seguida pode ocorrer a retenção do experimentado durante tempos variáveis. As nossas memórias acerca de pessoas, lugares e eventos definem quem somos nós.

 

Essas gravações dos fatos e eventos experimentados não são formadas instantaneamente. Cada nova memória, possível de ser gravada, é gradualmente transformada de um estado inicial lábil (instável), quando elas ainda são mais vulneráveis à disrupção (interrupção do curso normal de um processo), para um estado mais permanente (quando elas se tornam resistentes à interrupção); só assim elas se tornam estabilizadas ou consolidadas.

 

A consolidação sináptica se inicia e se completa após horas de treino; ela envolve a estabilização das mudanças sinápticas nas junções entre neurônios (ligações dos circuitos), o crescimento de novas conexões e a reestruturação dos já existentes; portanto, envolve a reorganização gradual de regiões do cérebro que sustenta a memória.

 

Nos seres humanos, as memórias de todos os dias dependem inicialmente do sistema do lobo temporal medial, incluindo o hipocampo. Quando essas memórias se fixam por tempo mais prolongado, elas ficam cada vez mais dependentes de outras regiões do córtex.

 

Estudos recentes começaram a mostrar mais claramente como as memórias antigas estão organizadas no córtex e os eventos moleculares e celulares que são subjacentes a essa consolidação. Os estudos mostram que o hipocampo tem um papel tempo-limitado no armazenamento e lembrança (recuperação) de algumas formas de memórias (é ativado durante o início do processo).

 

Essa ideia forma o dogma central das opiniões contemporâneas do sistema de consolidação: a função do hipocampo como sendo uma estocagem para novas informações, mas o armazenamento permanente depende largamente da rede cortical. Embora se tenha um bom conhecimento do mecanismo subjacente à formação de memórias dependente do hipocampo, pouco se sabe acerca de como essas memórias são transformadas nas de longa-vida (memórias remotas da rede cortical).

 

O oposto à memória, isto é, o esquecimento patológico, ou amnésia, tem sido especificamente instrutivo acerca das bases neurológicas da memória. A amnésia é definida como a incapacidade de aprender novas informações ou de evocar (lembrar, recuperar) as informações que tinham sido adquiridas. Classificação: Tipos e Subtipos de Memória

 

Os mecanismos neurais da memória não são completamente conhecidos. Considera-se que as informações transitórias e duradouras são armazenadas em diversas áreas corticais, de acordo com a sua função: memórias motoras no córtex motor, memórias visuais no córtex visual e assim por diante.

 

Dessas regiões elas podem ser mobilizadas como memória operacional pelas áreas pré-frontais, em ligação com áreas do córtex parietal e occitotemporal. Além disso, as memórias explícitas (conscientes) podem ser consolidadas pelo hipocampo e áreas corticais adjacentes do lobo temporal medial, em conexão com núcleos do tálamo e do hipotálamo.

 

Finalmente, o processo de consolidação pode ser fortemente influenciado por sistemas moduladores, especialmente aqueles envolvidos com o processamento emocional, como o complexo amigdalóide (amidalóide) do lobo temporal.

 

Vários mecanismos celulares e moleculares foram propostos como bases biológicas da memória, entre eles, os mecanismos da plasticidade sináptica e outros fenômenos de modificação dinâmica da função e da forma do sistema nervoso, em resposta às alterações do ambiente.

 

Exemplos da transferência continuada de informação de memória de curta duração para a de longa duração são observados no fenômeno do “priming” (gravação). O “priming” é tipicamente demonstrado apresentando-se aos sujeitos submetidos a um experimento um conjunto de itens onde eles são expostos sob falsos pretextos. Por exemplo: uma lista de palavras pode ser fornecida com a instrução de que os sujeitos devem identificar alguma característica que seja na verdade estranha ao experimento (por exemplo, dizer se as palavras são verbos, adjetivos ou substantivos). Mais tarde –

em geral no dia seguinte – os mesmos indivíduos recebem um teste diferente do anterior; pede-se a eles que preencham com letras que faltam e que vierem à cabeça.

 

A lista que funciona como teste na verdade inclui fragmentos de palavras que foram apresentadas no dia anterior, misturados com fragmentos de palavras que não haviam sido apresentadas.

 

Os sujeitos colocam as letras para completar as palavras que foram apresentadas no dia anterior em uma velocidade muito maior do que seria esperado pelo acaso, mesmo que não tenham memória específica das palavras vistas anteriormente. Além disso, são mais rápidos para preencher com letras que formam as palavras previamente vistas do que palavras novas.

 

O “priming” mostra que uma informação previamente conhecida tem influência no conhecimento e ou detecção de outra, embora possamos estar completamente inconscientes de seu efeito no comportamento subsequente. O significado do “priming” é bem conhecido – pelo menos intuitivamente – de anunciantes, de professores, de cônjuges e de outros que tenham motivos para influenciar o modo como pensamos e agimos (criar intenções; criar um motivo para que uma idéia defendida pareça mais verossímil).

 

As memórias, mesmo aquelas sobre as quais estamos bastante seguros, são frequentemente falsas. Um teste de memória coloca numa primeira lista as palavras: bala, acre, açúcar, amargo, bom, sabor, dente, amável, mel, refrigerante, chocolate, coração, bolo, comer e torta; na segunda lista: sabor, ponto. No dia seguinte uma nova lista é apresentada. Pede-se aos sujeitos para identificarem as que existiam na lista do dia anterior. Um grande número de erros foi verificado. Por exemplo: a palavra “doce” que não existia na primeira lista era imaginada como tendo existido, devido à palavra bolo, torta, etc.

 

Galeno Alvarenga, 04/fev/2010

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