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Construções Passivas 2
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Construções passivas
Caracterização geral das construções passivas
Para bem caracterizarmos as construções (ou orações) passivas, de que nos iremos ocupar no presente capítulo, é importante confrontá-las com as construções (ou orações) ativas. Exemplo de uma oração ativa seguida da correspondente passiva:
Miguel Ângelo pintou a Capela Sistina.
A Capela Sistina foi pintada por Miguel Ângelo.
Quando dizemos que a segunda destas frases é a correspondente passiva da primeira, estamos a ter em mente fundamentalmente três factos. O primeiro é o facto de, do ponto de vista semântico, as duas frases serem, no essencial, equivalentes, podendo dizer-se que exprimem a mesma predicação básica, a qual envolve, por um lado, uma determinada relação entre as entidades designadas por meio das expressões nominais Miguel Ângelo e a Capela Sistina e, por outro, determinados valores de Tempo, Aspeto, Modo e Polaridade. O segundo é o facto de os predicadores de ambas as frases – pintou e (ser) pintado – serem formas derivadas de um mesmo verbo – pintar. Finalmente, o terceiro é o facto de as expressões com que os predicadores estão combinados – digamos, para simplificar, os seus argumentos – estarem relacionadas entre si do seguinte modo: a expressão que tem a função de complemento direto na frase ativa – a Capela Sistina – tem a função de sujeito na frase passiva, mantendo nas duas frases a mesma função semântica (neste caso, digamos, a função de Paciente); por outro lado, a expressão que tem a função de sujeito na frase ativa – Miguel Ângelo – aparece, na frase passiva, integrada no sintagma preposicional por Miguel Ângelo, mantendo em ambas as situações a mesma função semântica (digamos, a função de Agente). Como se sabe, o referido sintagma preposicional é tradicionalmente classificado, de uma forma mais semântica que sintática, como (complemento) agente da passiva.
É importante acentuar que uma das características das frases passivas em português é precisamente a existência da correspondência que acabámos de descrever, em todos os seus aspetos, com uma ressalva para as funções semânticas, relativamente às quais se pode verificar alguma variação (por exemplo, em pares ativa/passiva como a Ana viu o Paulo e o Paulo foi visto pela Ana, não podemos dizer com rigor que a função semântica associada ao sintagma a Ana é a função de Agente). Dito de outro modo, sempre que temos uma construção passiva, dever ser possível construir a sua correspondente ativa, basicamente nos termos acima descritos. Exemplos de pares correspondentes de passivas e de ativas:
A Ana foi visitada recentemente pelo Paulo.
O Paulo visitou a Ana recentemente.
O Paulo foi homenageado.
Homenagearam o Paulo.
Acentue-se agora que a possibilidade de construção de pares de frases ativa/passiva é limitada e dependente crucialmente dos verbos, já que nem todos suportam a construção passiva. Foi esta dependência relativamente aos verbos que levou a tradição gramatical greco-latina a quase sempre explicar a oposição de que estamos a ocupar-nos em temos morfológicos – falando da voz ativa e da voz passiva da conjugação verbal –, mais que em temos sintáticos, isto é, em termos de estrutura frásica. Aos verbos que admitem construção passiva chamou essa tradição verbos transitivos (porque, na perspetiva aí perfilhada, se entendi que eles podiam «transitar» da voz ativa para a voz passiva. Adotaremos aqui este termo tradicional, dando como exemplos de verbos transitivos predicados como pintar, comer, dar ou dizer. Entre os verbos que não são transitivos, não podendo, portanto, ocorrer numa estrutura passiva, incluem-se morrer, tossir, ir, e sair.
A Ana comeu o bolo.
O bolo foi comido pela Ana.
A Ana deu-me este livro.
Este livro foi-me dado pela Ana.
A Ana tossiu.
*A Ana foi tossida.
A Ana saiu de casa.
*A Ana foi saída de casa.
*A casa foi saída pela Ana.
O que é então um verbo transitivo no sentido estrito que aqui nos interessa?
É um verbo que pode ser predicador de frases que têm uma correspondente passiva, pelo que tem pelo menos um argumento interno que recebe a função semântica de Paciente – com algumas variações aqui irrelevantes – e a função sintática de complemento direto. Note-se que, nesta aceção do termo «transitivo», não são transitivos verbos como custar ou medir.
É importante acentuar que, em português, a expressão que funciona como sujeito da passiva tem de ser na ativa um genuíno complemento direto, pelo que nunca podermos ter uma frase passiva cujo sujeito apareça introduzido por uma preposição na correspondente ativa. Exemplos:
O Paulo deu o livro à Rita.
*A Rita foi dada o livro pelo Paulo.
O Paulo levou o livro para a escola.
*A escola foi levada o livro pelo Paulo.
Note-se de passagem que uma língua como o inglês permite passivas em que o sujeito é um complemento sintática e semanticamente semelhante a à Rita:
Paulo gave the book to Rita.
Rita was given the book by Paulo.
Línguas há também em que construções de tipo passivo podem ter como sujeito expressões de tipo direcional comparáveis, em certos aspetos, ao SP para a escola que aparece em (18). Insista-se, pois, em que, na língua portuguesa, como regra geral, o sujeito de uma passiva tem de ser um complemento direto na correspondente passiva. Uma raríssima exceção a esta regra é-nos dada por um verbo como obedecer, em construções como as seguintes, onde temos as características de um par ativa/passiva, salvo no que diz respeito à caracterização sintática da expressão da ativa correlacionável com o sujeito da passiva.
Os soldados obedeceram prontamente ao general.
O general foi prontamente obedecido pelos soldados.
Em todos os exemplos de construções passivas dados até agora, os sujeitos têm sido um sintagma nominal. Convém, por isso, deixar claro que existe uma outra possibilidade, que é a de serem frases encaixadas, isto é, frases que correspondem em estruturas ativas a orações completivas com a função de complemento direto. Note-se ainda que, apesar de funcionarem como sujeito da estrutura passiva, as frases encaixadas em causa ocorrem normalmente em posição final e não inicial, facto que tem uma explicação independente da análise das estruturas passivas. O par de frases que se segue representa uma estrutura ativa com uma frase como complemento direto e a correspondente passiva em que essa frase é sujeito:
O ministro disse que não havia aumento de impostos.
Foi dito pelo ministro que não haveria aumento de impostos.
Para aprofundarmos um pouco a compreensão das construções passiva, poderíamos recorrer a modelos gramaticais em que as estruturas passivas são analisadas em pelo menos dois níveis – um, mais abstrato, mais distante da forma última frase, onde o constituinte que é o sujeito final da passiva se encontra ainda na posição de complemento direto e outro em que já ocupa a sua posição definitiva. À passagem de uma posição para a outra dá-se habitualmente o nome de movimento passivo. Vejamos representações simplificadas dos dois estádios referidos – estrutura profunda (ou subjacente) e da estrutura de superfície – em relação à frase a Capela Sistina foi pintada por Miguel Ângelo:
[] ser pintado [a Capela Sistina] por Miguel Ângelo.
[a Capela Sistina] foi pintada [v] por Miguel Ângelo.
O símbolo [v] representa o tipo de elemento nulo – habitualmente designado por vestígio – que ocorre nas construções em que há deslocação de constituintes. Considera-se que este elemento preenche a posição de onde supostamente o constituinte foi movido, pelo que nenhuma outra expressão – lexical ou pronominal – pode ocorrer nessa posição.
Convém salientar que a ideia de movimento de constituintes e a consequente análise de uma frase em dois níveis distintos – um subjacente, isto é, anterior aos movimentos registados, e outro superficial, ou seja, subsequente a eles – se revela extremamente útil para o estudo de outras construções de ordem derivada de que adiante nos ocuparemos. É o caso de estruturas de elevação e das orações relativas.
Tipos de construções passivas
Podemos definir vários subtipos de estruturas passivas, em função da forma assumida pelo predicador verbal. São pelo menos três estas formas: particípio passado precedido ou não de uma forma do verbo ser; forma verbal acompanhada de um pronome clítico se, e infinitivo não acompanhado de um clítico se. As frases que se seguem apresentam exemplos de variantes de cada um destes subtipos, dados pela mesma ordem. Note-se que, na última frase, a estrutura passiva é apenas a estrutura oracional sublinhada (no caso, reduzida a um verbo).
A Capela Sistina foi pintada por Miguel Ângelo.
Pintaram-se dez salas.
Esta sala foi difícil de pintar.
Designaremos as construções passivas em que ocorrem estes diferentes tipos de formas do predicador verbal por, respetivamente, passivas participiais, passivas de (pronome) clítico e passivas infinitivas, sendo que estas últimas, ao que sabemos não têm sido integradas pela maioria dos gramáticos no quadro das estruturas passivas. Dado que se trata de construções divergentes nalguns aspetos sintáticos, analisaremos cada uma delas individualmente.
Construções passivas participiais
As construções passivas participiais caracterizam-se pelo facto de o predicador verbal ser um particípio passado. Podem ocorrer sob duas formas sintáticas ligeiramente distintas, exemplificadas nas frases seguintes, onde a construção passiva aparece sublinhada:
A Capela Sistina foi pintada por Miguel Ângelo.
A capela pintada por Miguel Ângelo é famosa no mundo inteiro.
Em (31), a construção passiva é uma estrutura oracional plena, isto é, uma estrutura em que existe ou uma forma flexionada de um verbo ou infinitivo não flexionado. Neste exemplo, a forma verbal relevante que acompanha o particípio passado é uma forma do verbo ser (a forma foi, do pretérito perfeito simples). Neste tipo de ocorrência, o verbo ser é tradicional designado como (verbo) auxiliar da passiva e constitui uma marca distintiva do subtipo de construções passivas em causa.
Quanto à estrutura passiva de (32), em que não há qualquer verbo flexionado que acompanhe a forma de particípio passado, podemos considerar que estamos perante uma estrutura oracional reduzida (integrada por algumas gramáticas tradicionais num conjunto mais vasto de orações participiais). Estas estruturas oracionais reduzidas ocorrem tipicamente como modificadores ou apostos de expressões nominais, tendo, portanto, uma função e uma distribuição semelhantes às das orações relativas. Veja-se que é possível substituir a estrutura oracional reduzida por uma oração relativa restritiva com forma passiva e de estrutura oracional plena com a presença de um verbo auxiliar da passiva:
A capela pintada por Miguel Ângelo é famosa no mundo inteiro.
A capela que foi pintada por Miguel Ângelo é famoso no mundo inteiro.
É de notar que ainda que na estrutura passiva de (32) o argumento Paciente, que em (31) ocupava a posição pré-verbal de sujeito, não está realizado nesta estrutura por meio de uma forma lexical, mas antes por um elemento nulo.
Construções passivas de clítico
Designamos por passivas de clítico as estruturas em que o predicador verbal ocorre numa forma não participial e é acompanhado de um elemento clítico se (normalmente designado se passivo ou partícula apassivante ou pronome apassivador). Exemplo:
Pintaram-se dez salas.
A propriedade sintática da construção que leva a classificá-la como passiva é a concordância entre o predicador verbal e um seu argumento interno – no caso, entre o verbo pintar e o sintagma nominal dez salas. A existência desta concordância, que mostra que o argumento em causa desempenha a função sintática de sujeito, confirma-se facilmente: se colocarmos a expressão nominal no singular e passarmos o verbo para o singular, obtemos uma forma gramatical, ao passo que, se deixarmos o verbo no plural, geramos uma estrutura agramatical:
Pintou-se uma sala.
*Pintaram-se uma sala.
Estamos, pois, perante uma construção em que a função de sujeito é desempenhada não pelo primeiro argumento (ou argumento externo), mas pelo segundo argumento (ou argumento interno) de um verbo, o que, como vimos, constitui uma característica fundamental das construções passivas.
Para além da forma do predicador verbal, duas outras propriedades sintáticas distinguem este subtipo de construção passiva: a primeira consiste no facto de o sujeito ocorrer preferencialmente em posição pós-verbal.
?? Dez salas pintaram-se.
A segunda propriedade consiste no facto de não ser possível realizar lexicalmente o argumento com a função de Agente, que é sempre indeterminado, estando provavelmente representado pelo próprio clítico. Exemplos:
*Pintaram-se dez capelas por Miguel Ângelo.
*Pintaram-se dez capelas por pintores famosos.
Construções passivas infinitivas
Cremos que determinadas construções com formas verbais infinitivas (não acompanhadas do verbo auxiliar ser ou do clítico se) têm uma estrutura de tipo passivo, isto é, são construções em que o segundo argumento do verbo – argumento interno – está associado à posição de sujeito. Nas frases que se seguem temos exemplos de algumas destas construções passivas que designaremos por passivas infinitivas. A nossa tradição gramatical não as tem em conta.
Esta sala foi difícil de pintar.
As salas a pintar são várias.
Esta sala encontra-se ainda por pintar.
Mandei-o vigiar por dois detetives.
As estruturas sublinhadas em (41)-(44) são diferentes entre si e encontram-se integradas em estruturas igualmente diversas. No entanto, pode-se defender que qualquer dessas estruturas sublinhadas é de tipo passivo, isto é, com a particularidade de o argumento interno dos predicadores – no caso, pintar e vigiar – não ocorrer como seu complemento direto e o argumento externo não ocorrer como seu sujeito. Não iremos discutir todos estes tipos de estruturas, limitando-nos a analisar as construções do tipo de (41), ou seja, as construções (passivas) infinitivas dependentes de predicados adjetivais (como difícil), dada a sua importância para a compreensão de alguns casos problemáticos que adiante analisaremos. Exemplos:
Este problema é difícil de resolver.
Este problema é impossível de resolver.
Este problema é simples de resolver.
Vamos considerar que estas estruturas envolvem uma elevação, o que, no essencial, significa que o sujeito da frase matriz – o SN este problema – está associado a uma posição sintática funcional – também de sujeito – da frase encaixada (infinitiva). Ao adotarmos esta análise, retomamos, como teremos oportunidade de referir, propostas da gramática generativa dos anos sessenta e setenta e afastamo-nos de algumas propostas mais recentes. Não é, no entanto, a estrutura de elevação em si mesma que aqui nos interessa caracterizar e justificar, uma vez que ela apenas constitui o contexto em que ocorre o tipo de frase que pretendemos analisar como passiva. No exemplo (45), esse tipo de frase é ilustrado pela frase encaixada como argumento do adjetivo difícil – isto é, a frase, em superfície reduzida a um verbo, resolver. São quatro os argumentos que aduzimos em defesa da análise destas frases como estruturas passivas.
O primeiro argumento consiste no facto de a construção em causa – envolvendo a estrutura de elevação – apenas ser possível quando o predicador do complemento oracional relevante é um verbo que admite a construção passiva – isto é, um genuíno transitivo – ou, num número muito limitado de casos, um verbo inacusativo (ou ergativo), de que são exemplos arder e sair. Das frases que se seguem, as duas primeiras ilustram a construção de elevação em causa com verbos inacusativos no complemento frásico e as três seguintes mostram o contraste de gramaticalidade entre a ocorrência de um verbo transitivo (perceber) e de verbos não transitivos (subsistir e fugir) no mesmo tipo de construção:
? Esta madeira é difícil de arder.
Estas nódoas são difíceis de sair.
Este problema é difícil de perceber.
*Este problema é difícil de subsistir.
*Este problema é difícil de fugir.
Repare-se, a propósito, que as construções correspondentes a (50)-(52) com verbos não transitivos, mas sem elevação são todas gramaticais:
É difícil perceber este problema.
É difícil este problema subsistir.
É difícil fugir a este problema.
Este facto sugere que a agramaticalidade em causa resulta precisamente de as frases (51) e (52) envolverem uma estrutura passiva proibida pelos verbos, problema que não se colocar em (54) e (55), onde os complementos frásicos do adjetivo difícil – respetivamente, este problema subsistir e fugir a este problema – são construções ativas.
O segundo argumento consiste no facto de não ser possível ter estruturas com um Agente realizado na posição de sujeito:
*Este problema é difícil de o Paulo resolver.
*Estes problemas são difíceis de o Paulo resolver.
O que este facto indicia é que a posição de sujeito da frase encaixada está preenchida – segundo a nossa análise, por um vestígio do SN elevado –, não podendo, por conseguinte, ser reocupada por outro SN.
O terceiro argumento consiste no facto de podemos, em certos casos, ter um Agente expresso através de um complemento agente da passiva, como o que ocorre na frase seguinte:
Este problema é difícil de resolver por quem quer que seja.
Esta possibilidade parece restringir-se aos casos em que o argumento em causa tem um valor indeterminado, como acontece na frase dada acima (quem quer que seja). De facto, não podemos ter o Agente realizado como agente da passiva se ele consistir, por exemplo, num nome próprio.
*Este problema é difícil de resolver pelo Paulo.
O quarto e último argumento tem a ver com o facto de a estrutura oracional encaixada, que estamos a considerar passiva, estar em variação livre com estruturas inquestionavelmente passivas (em que está presente o auxiliar ser ou o se apassivante) e ter o mesmo valor semântico que elas. Comparem-se os membros do seguinte triplo:
Este problema é difícil de se resolver.
Este problema é difícil de ser resolvido.
Este problema é difícil de se resolver.
A ser válida a hipótese de a estrutura encaixada ser passiva, a derivação de uma frase envolveria essencialmente dois movimentos do SN que é, em superfície, o sujeito da matriz (este problema): um movimento passivo e subsequentemente, uma elevação. Por consequência, este tipo de elevação que, quando considerar em frases anteriores da gramática generativa, foi classificado como uma elevação de complemento direto (ou elevação de objeto) é, a nosso ver, uma elevação de sujeito, neste caso, uma elevação de sujeito passivo. A ser assim, ter-se-ia possivelmente de considerar que não já em português instâncias de elevação de complemento direto. Em conformidade, a representação de superfície (simplificada) que propomos para a frase é dada em (63), onde figuram os vestígios deixados pelo SN nos seus movimentos:
[este problema] é difícil [de [v] resolver [v]]
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- Beschreibung
- Dificuldades do Português Gramática (Construções Passivas) Notiz am Construções Passivas 2, erstellt von Mariana Verdial am 13/01/2025.
- Erstellt von
- Mariana Verdial · Jan 2025
- Aktualisiert
- 13 Jan 2025
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