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Notas

Estruturas Argumentais

Mariana Verdial Gramática Dificuldades do Português Português 1 página

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Estruturas Argumentais

Elementos teórico-descritivos

As frases constroem-se a partir de predicadores, aos quais, na maioria dos casos, é necessário associar argumentos. O predicador permite identificar o tipo de situação que o falante pretende referir. O Paulo deu uns livros à Ana e o Paulo emprestou uns livros à Ana, são dois tipos de estados de coisas diferentes, sendo os predicadores – formas dos verbos dar e emprestar – que permitem identifica-los e, portanto, distingui-los. Quanto aos argumentos, o seu papel é identificar as entidades do mundo que estão envolvidas na situação identificada pelo predicador.

Nem todas as expressões de uma língua podem ser utilizadas como predicadores – não podem artigos. Para desempenhar a função de predicador, uma expressão tem de ter um significado de um determinado tipo. Simplificando, um predicador tem de ser sempre um predicado, entendendo-se que são predicados precisamente as expressões que têm o tipo de significado requerido. A propriedade de ser um predicado é uma propriedade inerente de unidades lexicais, enquanto a propriedade de ser um predicador é uma propriedade adquirida numa estrutura.

Predicados

Podemos considerar que são predicados pelo menos as expressões das categorias verbo, nome e adjetivo, algumas expressões da categoria advérbio e ainda algumas das categorias preposição e conjunção. Ao fazermos esta enumeração, estamos a pressupor que elas se aplicam a certas expressões que as gramáticas habitualmente colocam em classes como pronomes e numerais. Por exemplo: os pronomes possessivos e os numerais ordinais, que deverão ser aproximados dos adjetivos.

Os deputados aprovaram a moção [Predicado Verbal]

O meu vizinho do lado é professor da Teresa [Predicado Nominal]

Este vinho é delicioso [Predicado Adjetival]

Não existe correlação necessária entre predicados e predicadores, isto é, um predicado nem sempre é usado com a função de predicador. Os predicados nominais e adjetivais podem não funcionar como predicadores:

O professor da Teresa escreveu um livro

O dono da casa serviu um vinho delicioso

No primeiro caso, o nome sublinhado é o elemento nuclear de um argumento que tem função sintática de sujeito – o argumento o professor da Teresa –, sendo o predicador o predicado verbal escrever. No segundo caso, o adjetivo sublinhado tem função de modificador do elemento nuclear de um argumento que tem função sintática de complemento direto – o argumento um vinho delicioso –, sendo o predicador o predicado verbal servir.

Argumentos

Os argumentos são elementos essenciais para a boa-formação da estrutura em que ocorre um predicado, salvo casos especiais, a sua supressão dá origem a estruturas agramaticais. A agramaticalidade resulta do facto de um predicado sem argumentos expressos pode constituir uma expressão incompleta, a que não corresponda uma predicação.

Argumentos e modificadores

O critério fundamental para a distinção entre argumentos e modificadores de um predicado é de ordem semântica, se bem que para esta distinção haja alguma motivação sintática.

O Tiago pediu uma bola à Tia Sara

Nesta frase estão presentes três sintagmas combinados com o predicado pedir. Todos são elementos essenciais da predicação. A principal razão para isso é de ordem semântica. O predicado pedir identifica uma situação especifica do mundo em que intervêm necessariamente três entidades, designando uma relação que as associa nessa situação. As estruturas construídas com base no predicado pedir têm de conter obrigatoriamente expressões que designem essas três entidades. O predicado pedir requer sempre três argumentos.

Os modificadores caracterizam-se essencialmente pelo facto de poderem ser omitidos de uma frase sem quaisquer restrições e sem que daí resulte agramaticalidade. Os modificadores associados a predicadores verbais, podem exprimir diversos valore semânticos que são acrescentados de forma complementar à predicação. A localização temporal ou espacial de um estado de coisas são alguns destes valores. Mas há predicados verbais que requerem argumentos que exprimem esses mesmos valores. Exemplos com valor espacial:

O Tiago pediu uma bola à Tia Sara no Porto

O Tiago mora no Porto

Exemplos de modificadores de predicados nominais e de predicados adjetivais:

O irmão da Ana que está a viver em Paris chama-se Henrique

As igrejas de madeira são típicas dos países escandinavos

A Ana mandou pintar a casa de azul-claro

Argumentos realizados e argumentos vazios

Salvo casos excecionais, se algum argumento de um predicado estiver omisso na estrutura, fora de contexto, não será aceitável.

*Pediu uma bola à Tia Sara

*O Tiago pediu à Tia Sara

*O Tiago pediu uma bola

*Pediu à Tia Sara

*Pediu uma bola

*O Tiago pediu

*Pediu

É evidente que estas sequências são aceitáveis dado um contexto apropriado.

A – A Luísa pediu uma bola à Tia Graça

B – O Tiago pediu à Tia Sara

A – A Luísa não pediu uma bola à Tia Sara

B – O Tiago pediu

A – O Tiago pediu uma bola à Tia Sara?

B – Pediu

O motivo por que estas réplicas são aceitáveis é o facto de as expressões nelas omissas estarem presentes no contexto. Nas réplicas B estão presentes elementos nulos (ou vazios), sem realização fonética (ou gráfica). Apesar de nulos, estes elementos têm valore semânticos e constituem argumentos das predicações em que ocorrem. Os argumentos com realização fonética (ou gráfica) são argumentos (lexicalmente) realizados, os argumentos com elementos vazios são argumentos vazios.

É possível distinguir vários tipos de argumentos vazios, consoante exista ou não um elemento do discurso que dê a interpretação ao elemento vazio.

Argumentos vazios ligados

A – A Luísa não pediu [uma bola] [à Tia Sara]

B – O Tiago pediu [] []

Os elementos vazios podem não ter a mesma interpretação que a expressão com que partilham uma ligação. Entre os elementos vazios e as unidades com eles ligadas nem sempre existe correferência.

No caso de as entidades designadas pelos sujeitos das frases em questão – a Luísa e o Tiago – terem o mesmo pai, a entidade em que ambos os casos é referida através do terceiro argumento é a mesma.

Argumentos vazios não ligados

Em frases em que há um ou mais argumentos vazios, não há no discurso qualquer expressão lexical a partir da qual a interpretação destes possa ser obtida. Dentro dos argumentos vazios existem duas subclasses: argumentos subentendidos e argumentos anulados. Exemplo de argumento subentendido:

O Tiago pediu uma bola []

Pode-se dizer que o enunciador da frase possui uma interpretação implícita do elemento vazio e pressupões que o seu destinatário atribuirá ao mesmo elemento a mesma interpretação.

Exemplos de argumento anulado:

A Joana deu os livros de estudo []

A biblioteca empresta livros []

Quem dá [] aos pobres empresta [] a Deus

Quem dá [] e tira [] [] ao Inferno vai parar

Os argumentos vazios não necessitam nem de um antecedente no discurso nem de uma interpretação implícita bem definida. A informação é sentida como completa e a explicitação dos argumentos anulados ou é irrelevante ou é omitida por estratégia comunicativa.

Propriedades de predicados respeitantes à sua estrutura argumental

O número de argumentos que os predicados admitem e as propriedades semânticas e sintáticas que eles têm de possuir ou que adquirem ao combinar com o predicado definem a estrutura argumental de um predicado. A propriedade chamada enaridade do predicado tem a ver com o número de argumentos que o predicado requer, independentemente de os mesmos ocorrerem realizados ou vazios. As outras propriedades correspondem a diversos tipos de restrições que o predicado impõe aos seus argumentos.

Número de argumentos

O número de argumentos constitui uma propriedade do próprio predicado. Os verbos dar, emprestar e pedir são predicados que requerem três argumentos para a formação de uma predicação. Podemos designá-los de predicados ternários ou predicados de três lugares.

Predicados de zero lugares: alvorecer, amanhecer, anoitecer, chover, chuviscar, entardecer, escurecer, nevar, relampejar, trovejar

Amanheceu

Está a nevar

Vai chover

Predicados unários ou de um lugar: adormecer, dançar, desmaiar, dormir, espirrar, ladrar, morrer, nadar, nascer, transpirar, uivar, voar

O menino já adormeceu

Os lobos uivam

Nasceram seis cachorrinhos

Predicados binários ou de dois lugares: acreditar, amar, coser, desistir, engolir, ler, ouvir, pintar, rasgar, temer, vencer, visitar

A costureira coseu a bainha das calças

O Jorge desistiu da corrida

Os Aliados venceram as forças do Eixo

Predicados ternários ou de três lugares: atirar, colocar, dar, dizer, emprestar, informar, obrigar, perguntar, persuadir, prometer

A bibliotecária colocou os livros na estante

A lei obriga os cidadãos a pagarem impostos

Os candidatos prometeram mundos e fundos aos eleitores

Predicados quaternários ou de quatro lugares: arrastar, levar, passar, transferir, trazer

A corrente arrastou os troncos de uma margem do rio para a outra

A Irene levou o dinheiro de casa para o banco

O navio trouxe mercadorias do Japão para Portugal

Categoria sintática dos argumentos

Ignorando alguns casos problemáticos ou controversos, temos argumentos nominais – categoria sintagma nominal – e oracionais – categoria frase. Qualquer um destes argumentos realiza como uma expressão da categoria sintagma preposicional se for introduzido por uma preposição.

Verbos unários

[A Maria] tossiu

Parece [que amanhã vai estar bom tempo]

Verbos binários

[O gato] bebeu [o leite]

[O Paulo] mora [em Coimbra]

[O Paulo] decidiu [que ia viver para Faro]

[Que o ministro se tivesse demitido] surpreendeu [toda a gente]

[Fechar a fábrica] significa [deixar muita gente no desemprego]

Verbos ternários

[A Ana] ofereceu [um relógio] [ao pai]

[A Ana] informou [o Pedro] [de que se ia casar]

[Esta joia] passou [de pais] [para filhos]

[A Ana] pediu [ao pai] [que lhe desse um relógio]

Nomes unários

[Estes senhores] são pediatras

[Que ontem este bom tempo] é verdade

Nomes binários

[O Paulo] é irmão [da Rita]

[A situação atual] é uma consequência [de não teres sido previdente]

Adjetivos unários

[Estes frutos] são saborosos

[Estar nesta casa] é muito agradável

Adjetivos binários

[A Ana] está interessada [em alugar esta casa]

[Irmos ou não a Paris] está dependente [da data dos exames]

Propriedades semânticas dos argumentos

Uma das consequências da dependência das palavras em relação à realidade é que as combinações de palavras só fazem sentido, num uso primário da linguagem se representarem parcelas coerentes da realidade. A frase o canário fala muito, é uma frase semanticamente anómala visto que canários não falam. As dificuldades surgem quando as propriedades das entidades e das situações em causa são mais subtis e por isso menos evidentes.

Os acontecimentos de ontem confirmaram as minhas previsões de uma solução pacífica para o conflito

*Os acontecimentos de ontem confirmaram as minhas esperanças de uma solução pacífica para o conflito

*Os acontecimentos de ontem destruíram as minhas previsões de uma solução pacífica para o conflito

Os acontecimentos de ontem destruíram as minhas esperanças de uma solução pacífica para o conflito

O verbo falar tem determinadas propriedades que são incompatíveis com determinadas propriedades da expressão canário. Estas propriedades das palavras como correlatos no sistema de representação de propriedades do sistema representado, razão por que são chamadas de propriedades semânticas.

A expressão canário, tem um determinado traço semântico inerente. Os traços semânticos inerentes são propriedades do plano linguístico que correspondem a propriedades relevantes das entidades que as palavras designam.

Todos os predicados têm traços semânticos inerentes que podem organizar-se em diferentes tipos. O primeiro tem a ver com os requisitos dos verbos relativamente aos traços inerentes dos seus argumentos. Para estes traços é usado duas designações: traços de seleção semântica e restrições de seleção semântica.

A Ana molhou o tecido

*A Ana molhou a verdade

A lebre correu pelos campos fora

*A pedra correu pelos campos fora

O orador falou muito bem

*O canário falou muito bem

A comissão reuniu-se

*A diretora reuniu-se

Os ursos estão em vias de extinção

*O urso da jaula 3 está em vias de extinção

O segundo tipo de traço inerente tem a ver com a atribuição de traços semânticos aos seus argumentos.

A Rita esteve a cantar

A Rita desmaiou

As propriedades do real consistem no desempenho de determinados papeis em situações. As correspondentes propriedades linguísticas são designadas por papeis semânticos (ou funções semânticas ou papeis temáticos). Na frase 76, a Rita controla a situação em que canta, logo é o Controlador, papel esse que não tem na frase 77. O papel desempenhado pela entidade na situação depende do tipo de situação.

Os predicados impõem restrições a todos os seus argumentos, tanto nominais como oracionais.

Informações

Descrição
Dificuldades do Português Gramática (Preposições Argumentais) Notas sobre Estruturas Argumentais, criado por Mariana Verdial em 13-01-2025.
Criado por
Mariana Verdial · jan 2025
Atualizado
13 jan 2025
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