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Notas

Dificuldades do Sujeito

Mariana Verdial Gramática Dificuldades do Português Português 1 página

Conteúdo das notas (1)

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Noções básicas de sintaxe e dificuldades envolvendo o sujeito (concordância e pontuação)

Parte I – Noções básicas de sintaxe (incluindo caracterização gramatical da função sintática de sujeito)

Estrutura da frase

Relações de linearidade (precedência) e hierarquia (dominância)

- Linearidade: ordem não binária

Esses dois biólogos escreveram um livro sobre aves marinhas.

*Esses sobre marinhas aves um livro escreveram dois biólogos.

[sequência / “frase” agramatical]

- Hierarquia: existência de constituintes de complexidade intermédia entre as palavras e a frase (sintagmas)

Cf. intuição dos falantes sobre a coesão de grupos de palavras (constituintes complexos)

[esses dois biólogos], [um livro sobre aves marinhas], [aves marinhas]

*[biólogos escreveram um], *[livro sobre]

Relações de hierarquia na estrutura das frases

Há factos linguísticos que demonstram a existência de constituintes complexos.

- Ambiguidade estrutural ou sintática (configuracional)

A Ana trouxe vinho do porto

Interpretação A: … [trouxe] [vinho do Porto]

Interpretação B: … [trouxe] [vinho] [do Porto] ( = [trouxe] [do Porto] [vinho])

Numa interpretação (A), existe o constituinte vinho do Porto, que identifica o tipo de vinho trazido (não se indicando de onde é que ele foi trazido); noutra interpretação (B), não existe esse constituinte: indica-se que house um vinho (de tipo não especificado) que foi trazido do Porto.

- Interpretação composicional

O irmão do meu vizinho é tenista profissional

Análise em constituintes: [o irmão do meu vizinho] [é tenista profissional]

A frase (i) não implica que o vizinho do enunciador seja tenista profissional, apesar de conter a sequência superficial (sublinhada) o meu vizinho é tenista profissional. A questão é que essa sequência não é um constituinte da frase (cf. análise em constituintes apresentada) e só estes são tidos em conta na interpretação (que é composicional)

Princípio da Composicionalidade (Frege): o significado de uma frase (aliás, de expressões sintáticas complexas em geral) depende do significado das suas partes e do modo como elas estão combinadas.

Testes sintáticos para identificar constituintes (complexos)

(suficientes, mas não necessários, para demonstrar a constituência)

Substituição por um proforma (e.g. pronominalização)

São constituintes da frase todas as sequências substituíveis por elementos pronominais (proformas).

Eles escreveram um livro sobre aves marinhas

Esses dois biólogos escreveram-no

Esses dois biólogos escreveram um livro sobre elas

Deslocação (e.g. topicalização)

São constituintes da frase todas as sequências que podem ser deslocadas em bloco para outras posições (e.g. por topicalização)

Escreveram um livro sobre aves marinhas, esses dois biólogos

Sobre aves marinhas, esses dois biólogos escreveram um livro

Focalização (clivagem, ou colocação em posição de contraste)

São constituintes da frase todas as sequências que podem ser colocadas em posição de constraste em estruturas como as seguintes:

Foram esses dois biólogos que escreveram um livro sobre aves marinhas

Esses dois biólogos é que escreveram um livro sobre aves marinhas

Foi um livro sobre aves marinhas que esses dois biólogos escreveram

Foi sobre aves marinhas que esses dois biólogos escreveram um livro

Pergunta – Resposta ( = pronominalização com pronome interrogativo)

São constituintes da frase as sequências que possam ser obtidas como resposta a interrogativas de instanciação (interrogativas pronominais, abertas ou parciais), em pares como os seguintes:

Quem escreveu um livro sobre aves marinhas? Esses dois biólogos

O que escreveram esses dois biólogos? Um livro sobre aves marinhas

Sobre que era o livro que esses dois biólogos escreveram? (Sobre) Aves marinhas

O que fizeram esses dois biólogos? Escreveram um livro sobre aves marinhas

Métodos de representação da estrutura da frase

- Parentetização, simples ou etiquetada

(i.e. com indicação das categorias dos constituintes)

[ [o Paulo] [leu [um livro] ] ]

[F [SN [DET O] [N Paulo] ] [SV [V leu] [SN [DET um] [N livro] ] ] ]

- Diagrama em árvore

(também pode ser simples ou não etiquetada, mas geralmente inclui a indicação das categorias dos diversos constituintes – “indicador sintagmático”)

Categorias sintáticas

- Categorias lexicais, ou mínimas: V [verbo], N [nome], A [adjetivo], P [preposição], Adv [advérbio]; outras categorias mínimas são por vezes chamadas funcionais: e.g. artigos, pronomes, numerais, conjunções (classificação/terminologia tradicional).

- Categorias sintagmáticas, ou máximas (categorias não léxicais, identificadas pelos testes acima): SV [sintagma verbal], SN [sintagma nominal], SA [sintagma adjetival], SP [sintagma preposicional], SAdv [sintagma adverbial].

Príncipio da Endocentricidade: toda a categoria do tipo SX tem um núcleo de tipo X; todo o núcleo de tipo X integra uma categoria do tipo SX.

O Paulo plantou [SN [N legumes] ] à “legumes” é um sintagma nominal

O Paulo viu uma casa [SA [A branca ] ] à “branca” é um sintagma adjetival

O Paulo [SV [V adormeceu] ] à “adormeceu” é um sintagma verbal

Exemplos de SN, SV e SP (com o núcleo – N, V, P – sublinhado), ilustrando a variação na complexidade sintática destes sintagmas:

a. [SN alguns amigos da Ana] vieram à festa

b. O Pedro leu [SN a maior parte dos livros desta prateleira]

c. O Pedro leu [SN todos estes livros sobre física atómica]

d. O Pedro leu [SN todos os livros fantásticos que o pai lhe deu]

à (d) inclui uma frase subordinada relativa

a. O Pedro [SV recitou o poema muito bem em voz alta]

b. O Pedro [SV quer {chegar cedo / que eu chegue cedo}]

c. O Pedro [SV gosta de dançar]

d. O Pedro [SV confia em que tu o ajudes]

à (b – d) incluem uma frase subordinada completiva

e. O Pedro [SV adormeceu mal se sentou]

à (e) inclui uma frase subordinada adverbial

a. O Pedro foi [SP ao cinema] [SP com os seus melhores amigos]

b. Os livros [SP sobre matemática] estão [SP ao pé da primeira estante]

Algumas funções sintáticas especialmente importantes (sujeito e complemento do verbo)

1. Sujeito

Sujeito é o constituinte não preposicionado (SN ou F) da frase que tem pelo menos uma das três propriedades abaixo.

(NB: O sujeito não se define semanticamente, mas sim sintaticamente!)

Propriedade A: Ocorre tipicamente em posição pré-verbal, como constituinte imediato da frase (ordem básica).

Os tigres da Sibéria estão à beira da extinção.

Mas note-se que o Sujeito pode, em certos casos (em frases de ordem não básica), ocorrer noutras posições, como por exemplo, no final da frase (cf. estuturas de inversão de sujeito ou com extraposição de sujeito frásico):

A AnaSUJEITO telefonou. Vs. Telefonou a AnaSUJEITO.

Não gostar deste livroSUJEITO é difícil. Vs. É difícil não gostar deste livroSUJEITO.

Em quem é que a AnaSUJEITO votou? Vs. Em quem votou a AnaSUJEITO?

Propriedade B: Desencadeia a concordância verbal.

Os tigres da Sibéria estão à beira da extinção.

O tigre da Sibéria está à beirda da extinção.

A concordância sujeito-verbo envolve os atributos pessoas e número e ainda – em casos que envolvam particípios passados passivos – género:

[os museus]3PL [encerraram]3PL no fim de semana passado.

[as florestas]3PL-FEM [foram]3PL [devastadas]PL-FEM por incêndios.

[os edifícios]3PL-MASC [foram]3PL [destruídos]PL-MASC por um terramoto.

Por norma, o número do (SN) sujeito é coincidente com o do substantivo que funciona como seu núcleo (e.g. tigres/tigre)

a. [O fracassoSG das políticas do Governo]SG foi sublinhado pela Oposição.

b. [Os fracassosPL das políticas do Governo]SG foram sublinhados pela Oposição.

c. *[O fracassoSG das políticas do Governo]SG foram sublinhadas pela Oposição.

a. [O rouboSG de duzentos automóveis]SG foi investigado pela polícia.

b. [Os roubosPL de duzentos automóveis]SG foram investigados pela polícia.

c. *[O rouboSG de duzentos automóveis]SG foram investigados pela polícia.

Em termos de concordância, há algumas situações especiais a ter em conta.

Com sujeitos frásicos (frases infinitivas ou finitas), o verbo ocorre sempre na terceira pessoa do singular (“número default”).

FumarSUJ mata.

Matar tigresSUJ é proibido por lei.

Não gostar destes livrosSUJ é difícil. / É difícil não gostar destes livrosSUJ.

Que ele tivesse vindoSUJ surpreendeu-me. / Surpreendeu-me que ele tivesse vindoSUJ.

A coordenação copulativa dá origem a sujeitos plurais (ditos “sujeitos compostos”), independentemente do número dos elementos coordenados.

O tigre e o pandaSUJ estão à beira da extinção.

Os tigres e os pandasSUJ estão à beira da extinção.

O presidente e os líderes dos partidos da OposiçãoSUJ reuniram-se.

Com sujeitos nulos (possibilidade que o português admite), a concordância depende do subtipo (sintático-semântico) do sujeito nulo, que pode ser um de três – subentendido, indeterminado ou expletivo.

Os sujeitos subentendidos referem entidades idenificáveis no contexto discursivo; podem ser singulares ou plurais, consoante o número da expressão subentendida (antecedente):

[O cão]i desatou a ladrar. []i Sentia a presença de alguém.

[Os cães]i desataram a ladrar. []i Sentiam a presença de alguém.

Os sujeitos indeterminados referem, de forma vaga, entidades envolvidas na predicação; podem ser singulares ou plurais, consoante a construção utilizada (e.g. verbo simples na terceira pessoa do plural, ou verbo acompanhado do clítico se impessoal na terceira pesssoa do singular):

[] Dizem que a economia está em crise.

[] Diz-se que a economia está em crise.

Os sujeitos expletivos não possuem qualquer valor semântico (isto é, não referem qualquer tipo de entidade); só se usam com o verbo na terceira pessoa do singular (“número default”):

[] Neva na Serra da Estrela.

[] Há muitas pessoas na sala.

Propriedade C: É tipicamente pronominalizável com as formas nominativas dos pronomes pessoais (eu, tu, ele, nós, vós, eles).

Os tigres da Sibéria estão à beira da extinção à Eles estão à beira…

Adoro os tigres da Sibéria à Adoro-os

Porém, nem todos os sujeitos possuem esta propriedade – cf. e.g. certos sujeitos nominais (e pronominais) e os sujeitos frásicos.

NinguémSUJ entrou na sala.

O infinitoSUJ é um conceito difícil de captar à {*Isso / Ele} é um conceito…

Gostar de gramáticaSUJ é essencial para um tradutor à {*Isso / Ele} é…

Note-se que a pronominalização com (o demonstrativo) isso – possível para certos sujeitos – não revela a função sintática, já que este tipo de pronomes pode estar associado quer ao sujeito quer ao complemento direto:

Que a Ana tivesse vindoSUJ surpreendeu-me à Isso surpreendeu-me

O Pedro desejava que a Ana tivesse vindoCOMPDIRETO à O Pedro desejava isso

2. Complementos verbais – diretos e indiretos (lato sensu)

- Complemento Direto – É o constituinte não preposicionado (SN ou F) da frase que:

Ocorre normalmente em posição pós-verbal, como constituinte imediato do SV;

Não desencadeia a concordância verbal;

É tipicamente pronominalizável com as formas acusativas dos pronomes pessoais (me, te, o/se, nos, vos, os/se), se for SN.

O Pedro adora os tigres da Sibéria à O Pedro adora-os

O Pedro adora o tigre da Sibéria à O Pedro adora-o

A Ana disse {que vinha / estar cansada} [COMPLEMENTO DIRETO FRÁSICO]

A Ana não me disse se estava em Lisboa [COMPLEMENTO DIRETO FRÁSICO]

- Complemento (de verbo) preposicionado [ = complemento indireto, lato sensu] – É o constituinte introduzido por uma preposição que:

[SUBTIPO 1] é tipicamente pronominalizável com as formas (oblíquias) dativas dos pronomes pessoais (me, te, lhe/se, nos, vos, lhes/se) [ = complemento indireto, stricto sensu]

A Ana obedece aos pais à A Ana obedece-lhes

A Ana disse a verdade ao Pedro à A Ana disse-lhe a verdade

[SUBTIPO 2] é tipicamente pronominalizável com as formas oblíquas não dativas e não acusativas dos pronomes pessoais (mim, ti, ele/si, nós, vós, eles/si), se for (P+) SN

A Ana confia nos seus amigos à A Ana confia neles

A Ana gosta de ti

A Ana optou por desistir do concurso [COMPLEMENTO PREPOSICIONADO FRÁSICO]

Parte III – Dificuldades envolvendo o sujeito (concordância e pontuação)

Anomalias por ausência de concordância entre sujeito e verbo (A-E)

Anomalias de concordância em estruturas em que o sujeito não ocorre na posição canónica pré-verbal

Exemplos-tipo:

*Entrou no auditório, de repente, centenas e centenas de manifestantes.

cf. OKEntraram no auditório, de repente, centenas e centenas de manifestantes

OKCentenas e centenas de manifestantes entraram no auditório, de repente

??Passou-me pela cabeça várias coisas

cf. OKPassaram-me pela cabeça várias coisas

OKVárias coisas passaram-me pela cabeça

NB: certos tipos de construções sem concordância têm uma frequência muito elevada (e, por isso, dificilmente podem ser consideradas agramaticais) – cf. e.g. dói-me as costas vs. doem-me as costas.

“Nem o professor Salazar, que não teria grande simpatia por boîtes e discotecas (…), passaria pela cabeça semelhantes prepotências.”

[OK passariam]

“Desta vez coube-nos em sorte três novelas de Mateus Maria Guadalupe (…) que conheceram a 1ª edição em 1953.”

[Ok couberam]

“(…) enquanto o ministro israelita (…) anunciava pela rádio (…) estar a ser tido em conta a hipótese de uma operação para destruir as capacidades nucleares iraquianas.”

[OK ser tida]

Anomalias de concordância em estruturas em que o sujeito tem um núcleo singular e um complemento com núcleo plural (ou vice-versa)

Exemplos-tipo:

*O roubo de duzentos automóveis foram investigados pela polícia

*As modificações na fachada do edifício custou muito dinheiro

“É um dos maiores ladrões de carros da atualidade. Nos últimos seis meses são de sua autoria o desaparecimento de 200 viaturas, uma das quais um carro-patrulha da polícia britânica.”

[OK é de sua autoria o desaparecimento de…]

“(…) os renovadores conseguiram meter uma lança em África, ao colocarem-se (…) no espaço entre o PS e o PSD – localização (…) que corresponderia, como o desenrolar do tempo a da situação política o vieram demonstrar, ao posicionamento do PRD na geografia partidária.”

[OK o desenrolar do tempo e da situação política o veio a demonstrar ou (com sujeito composto) o desenrolar do tempo e o desenrolar da situação política o vieram a demonstrar]

“As declarações do ministro das Finanças britânica pôs termo a uma semana de especulações provocadas pela iminência do encontro de Roma (…).”

[OK as declarações… puseram termo]

Anomalias de concordância em estruturas com apostos a sujeitos singulares

Esemplo-tipo:

*A Ana, com a ajuda de dois irmãos, pintaram a casa

*A Ana, além de muitos outros jornalista, estiveram presentes na conferência

“O noivo, com um punhada de amigos, decidiram-se a regastá-la.”

[OK o noivo, com um punhado de amigos, decidiu-se a… ou (com sujeito composto) o noivo e um punhado de amigos decidiram-se a…]

“O texto, a cinco colunas, (…) é ilustrado com uma fotografia em que se vêem o Papa com a irmã Lucia.”

[OK se vê o Papa com a irmã ou (com sujeito composto) se veem o Papa e a irmã]

“Chamberlain, com o seu ar triste e pendurado, o seu tom vitoriano de «gentleman» e o seu guarda-chuva, tornaram-se no símbolo inultrapassável do pacifismo saloio (…).”

[OK Chamberlain, com o seu ar…, tornou-se]

“Mas a luta pelo poder que se trava no interior no Exército, entre outro fatores, fazem com que este apaziguamento (…) não possa (…) ser considerado mais do que um compasso de espera.”

[OK a luta…, entre…, faz com que]

“A suspeita de que o Estado – e em especial a magistratura – protegiam os criminosos (…) provocava o povo (…).”

[OK o Estado – e em especial a magistratura – protegia]

Anomalias de concordância em estruturas com sujeitos compostos (logo, plurais)

Exemplos-tipo:

*A Ana e o Pedro faltou à reunião / ??Faltou à reunião o Pedro e Ana

*Tanto o Pedro como a Ana faltou à reunião

“O fino pescoço de Svanehjälm sem maça-de-adão visível e os magros ombros descaídos de baixos de fato (…) reforça a impressão de se tratar de um rapaz disfarçado com roupa de adulto.”

[OK reforçam]

“Um grupo de populares e outro “ninjas” tinha ocupado o «hall».”

[OK tinham ocupado]

“Quanto à deformação administrativa (…), também estou esclarecido: é a tradição e o sistema que a impõem.”

[OK são] [sujeito pós-verbal]

“Tanto o Alentejo dos agrários como o Alentejo vermelho está a esbater-se.”

[OK estão]

Anomalias de concordância envolvendo sujeitos com nomes coletivos singulares como núcleo (cf. noção de silepse, ou “concordância pelo sentido”)

Exemplos-tipo:

- Nomes coletivos sem complemento (realizado)

*O casal decidiram fazer uma viagem ao Peru

*O rebanho espalharam-se pela montanha

- Nomes coletivos com complemento realizado

Nomes que permitem criar representações de entidades grupais em combinação com complementos introduzidos por de (e.g. grupo, conjunto, horda, leque; casal). Nas estruturas relevantes, a concordância com o nome mais encaixado é geralmente sentida como muito marginal.

*/??Um casal de pardais fizeram o ninho nesta árvore

*/??Um grupo de animais refugiaram-se na floresta

- Sem complemento

“O casal que vivia no apartamento à frente do de Jeff consideravam-no uma pessoa tímida (…).”

[Ok considerava-o; cf. distância entre núcleo do sujeito e o verbo]

- Com complemento

“As violentas tempestades (…) provocaram a morte de cinco alemães (…). (…) Em Hersogenaurach (…), um casal de reformados, de 56 e 59 anos, morreram enclausurados no seu alojamento subterrâneo.”

[OK morreu]

“Durante a inauguração, um grupo de amigos convivem.”

[OK convive]

“Uma horda de elefantes selvagens espezinharam até à morte três plantadores de chá (…), no Nordeste da Índia.” [OK espezinhou]

“Nas negociações encetadas nos últimos dias abordam-se um vasto leque de questões que afetam as vidas destes grupos religiosos (…).”

[OK aborda-se] [sujeito pós-verbal]

Anomalias por concordância com complementos

1. Anomalias por concordância com o complemento direto do verbo haver

O verbo haver com o sentido relevante (equivalente grosso modo a existir) ocorre sempre com sujeito nulo expletivo (ou “sem sujeito”, como se dizia na gramática tradicional) e sempre na terceira pessoa do singular.

O argumento único deste verbo tem a função de complemento direto, pelo que não pode haver concordância entre este e o verbo, na variedade padrão da língua.

{Há / *Hão} muitos problemas (no Governo)

Naquela altura, {havia / *haviam} muitos problemas (no Governo)

Depois, {passou / *passaram] a haver muitos problemas (no Governo) [ESTRUTURAS AFINS COM VERBOS AUXILIARES]

{Deve / *Devem} haver muitos problemas (no Governo) [ESTRUTURAS AFINS COM VERBOS AUXILIARES]

Note-se que a pronominalização do complemento em causa, quando ocorre, é sempre acusativa (com o/a/os/as), não nominativa (com ele/ela/eles/elas):

Problemas, {há-os / havia-os} em grande número

“Se hoje não há dinheiro, há-o amanhã, essa é boa!”

“Crimes violentos havia-os, mas eram daqueles que se resolviam em meio-dia (…).”

NB: O verbo existir tem um comportamento distinto de haver, já que o argumento paralelo tem genuinamente a função de sujeito (concordando com o verbo existir e pronominalizando nominativamente):

Existem muitos problemas (no Governo)

(vs. *Existe muitos problemas (no Governo) [SEM CONCORDÂNCIA])

Eles existem [PRONOMINALIZAÇÃO NOMINATIVA]

(vs. Existem-nos [PRONOMINALIZAÇÃO ACUSATIVA])

A tendência para fazer a concordância (anómala) do verbo haver com o seu complemento, flexionando-o no plural existe (principalmente em certo tempos e modos – e.g. nunca no presente do indicativo – e quando intervêm verbos auxiliares).

Exemplos:

(casos com verbo haver flexionado no plural)

“Segundo alguns analistas, não haviam razões (…) para a forte quebra registada (…).”

[OK havia] [INDICATIVO: PRET. IMPERFEITO]

“Em vez de três boletins de voto (…), haverão apenas dois.”

[OK haverá] [INDICATIVO: FUTURO IMPERFEITO]

“Se João Soares continuasse, haveriam grandes mudanças na maioria e uma reformulação no executivo (…)

[OK haveria] [CONDICIONAL: PRESENTE]

“(…) para que [as ondas sísmicas] sejam registadas, é necessário que nos locais de saída (…) hajam estações sismológicas.”

[OK haja] [CONJUNTIVO: PRESENTE]

(casos com verbo auxiliar no plural, aplicado a haver)

(…) Teixeira voltou a falar no plantel numeroso, garantindo que irão haver dispensas (…).”

[OK irá haver]

(…) assegurou que «não é previsível que venham a haver alterações» (…).”

[OK venha a haver]

“Admitem que começam a haver condições para a iniciativa privada realizar investimentos no país (…).”

[OK começa a haver]

“Isto fará com que passem a haver a cinco linhas em lugar das dez atuais (…).”

[OK passe a haver]

“Infelizmente e apesar de todos os esforços continuam a haver acidentes (…).”

[OK continua a haver]

2. Anomalias por concordância com o complemento preposicionado do verbo (impessoal) tratar-se

O verbo impessoal tratar-se (com valor próximo de ser) também é fonte frequente de anomalias, incluindo em texto jornalístico e texto traduzido.

Anomalias por uso com sujeito realizado (que não aceita normalmente)

Falou-se muito de Évora

a. …*Esta cidade trata-se de uma das mais interessantes do país

b. …Trata-se de uma das cidades mais interessantes do país

“- A Klara (…) passou a fazer parte da investigação… Isto trata-se de uma grande aposta para a polícia judiciária (…).”

Anomalias por concordância com o complemento preposicionado (plural)

Mencionou-se Roma, Florença e Siena

a. …{Trata-se / *Tratam-se} de cidades históricas muito turísticas

b. …Por {se tratar / *se tratarem} de cidades históricas muito turísticas, é preciso ter especiais cuidados

Discutiram-se vários problemas na reunião

{Devia tratar-se / *Deviam tratar-se} de problemas muito graves porque a reunião se prolongou noite dentro

[ESTRUTURA COM VERBO AUXILIAR]

Veja-se ainda o seguinte caso, que combina duas anomalias: a flexão plural anómala e a presença de um argumento externo explícito (caso que não pode ser “resolvido” pela simples mudança do verbo para o singular):

“Por confirmar estava também o facto das [sic] vítimas mortais se tratarem de pai e filha.”

[OK o facto de as vítimas mortais serem pai e filha]

Anomalias/Erros por colocação de vírgulas entre sujeito e verbo

Trata-se de uma questão estritamente ortográfica (ainda que não regulamentada nos acordos ortográficos, como acontece, aliás, com a generalidade das questões de pontuação). É prática gráfica corrente não colocar vírgula entre o sujeito e o verbo.

Os portugueses que moram no estrangeiro, estão isentos desse imposto

Quem mora no estrangeiro, não tem de pagar este imposto

Embora não seja frequente, esta norma é por vezes violada, especialmente em estruturas com sujeitos muito longos.

“Afinal, o peru que George W. Bush levou no dia de Ação de Graças aos soldados americanos estacionados no Iraque, era de plástico.”

“São (…) pequenas histórias (…) em que temas com o amor, a amizade, o encontro e a morte, concorrem para compôr [sic] uma comédia humana que sobreviveu ao passar dos anos.”

“Além disso, qualquer objeção à forma como o caso fora tratado no passado, seria sinónimo de crítica ao novo chefe.”

“Todos têm a mesa crença: quem encontrar a pedra de remate e executar com ela um antigo ritual, governará o mundo durante mil anos.”

Informações

Descrição
Dificuldades do Português Gramática (Dificuldades do Sujeito) Notas sobre Dificuldades do Sujeito, criado por Mariana Verdial em 13-01-2025.
Criado por
Mariana Verdial · jan 2025
Atualizado
13 jan 2025
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