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Literatura e outras artes

Daniel da Silva Portuguese

Literatura e outras artes

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Literatura e outras artes

  1. "Memórias póstumas de Brás Cubas" (1881)

    • Teoria: Positivismo.
    • Escola literária: Realismo.
      • O realismo foi um movimento artístico e literário surgido nas últimas décadas do século XIX na Europa, mais especificamente na França, em reação ao romantismo. Entre 1850 e 1900 o movimento cultural, chamado realismo, predominou na França e se estendeu pela Europa e outros continentes. Os integrantes desse movimento repudiaram a artificialidade do neoclassicismo e do romantismo, pois sentiam a necessidade de retratar a vida, os problemas e costumes das classes média e baixa não inspirada em modelos do passado. O movimento manifestou-se também na escultura e, principalmente, na pintura e em alguns aspectos sociais.
    • Linguagem
      • Machado de Assis transmite humor irônico por meio da linguagem do narrador Brás Cubas. Não há excessos de adjetivação nem idolatria cega a personagens ou cenários. A narração é crua e direta. Além de contar episódios marcantes de sua vida, Brás Cubas troca com frequência palavras com o leitor, recurso chamado metalinguagem.
        • "A minha ideia, depois de tantas cabriolas, constituíra-se ideia fixa. Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho. [...]" (Capítulo IV)
    • Personagens
      • Brás Cubas (protagonista da história. É um "defunto autor", como se autodefine. Pode contar o que quiser, do modo que desejar, sem se preocupar com a opinião alheia), Virgília (filha do conselheiro Dutra. Depois de casada com Lobo Neves, torna-se amante de Brás Cubas), Lobo Neves (político, casa-se com Virgília), Luís Dutra (primo de Virgília. Tem importância no reaparecimento da moça na vida de Brás Cubas), Marcela (primeira paixão da adolescência. Por ela, Brás Cubas gasta onze contos de réis em quinze meses e é enviado a Coimbra por seu pai, descontente com o comportamento do filho), Eugênia (filha de D. Eusébia e Vilaça. Brás Cubas mantém um breve relacionamento com a menina "coxa de nascença"), Quincas Borba (amigo dos tempos de colégio, quando adulto desenvolve o Humanitismo, doutrina filosófica que será explorada por Machado de Assis na obra "Quincas Borba", de 1891), Sabina (irmã de Brás Cubas), Cotrim (marido de Sabina), mãe de Brás Cubas, pai de Brás Cubas.
      • Dona Eulália ou Nhã-loló (com dezenove anos, é filha de Damasceno e sobrinha de Cotrim. Sabina "arranja" o noivado dela com Brás Cubas. Nhã-loló, porém, morre de febre amarela), Dona Plácida (senhora beata e empregada de Virgília. Por cinco contos, aceita acobertar a relação extraconjugal entre Brás Cubas e Virgília), João (antigo oficial da infantaria e tio de Brás Cubas), Ildefonso (cônego e tio de Brás Cubas) e Dona Emerenciana (tia materna de Brás Cubas)
    • Contexto
      • Machado de Assis inaugura em 1881, com "Memórias póstumas de Brás Cubas", o Realismo no Brasil. Sua obra é focada na análise interior dos personagens, seu comportamento e suas individualidades. Nesse ponto, o escritor diferencia-se de outros romancistas de seu tempo, que preferem retratar o espaço externo e a sociedade vinculada a um determinado ambiente. "Memórias póstumas de Brás Cubas" é lançado em um período histórico do Brasil, marcado por debates político-sociais de grande magnitude, pelos movimentos republicanos contrários à Monarquia e por campanhas abolicionistas em prol do fim do regime escravocrata.
    • Estilo
      • A originalidade da narração, a partir de um defunto autor, é acompanhada pela construção do romance. Logo na dedicatória, Brás Cubas parece estar indiferente à presença do leitor.
        • "Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas." (Dedicatória)
      • A obra é composta de cento e sessenta capítulos curtos. Alguns deles chamam a atenção mais pela audácia da forma do que pelo conteúdo.
        • "AQUI JAZ DONA EULÁLIA DAMASCENA DE BRITO MORTA AOS DEZENOVE ANOS DE IDADE ORAI POR ELA!" (Capítulo 125)
        • "......................................... .......................................... .................................................................... .................................................................... ...................................................................." (Capítulo 139)
        • "Há coisas que melhor se dizem calando; tal é a matéria do capítulo anterior. [...]" (Capítulo 140)
        • "Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever um capítulo inútil." (Capítulo 136)
    • Resumo da obra
      • Brás Cubas é um homem rico e solteiro que, depois de morto, resolve se dedicar à tarefa de narrar sua própria vida. Dessa perspectiva, emite opiniões sem se preocupar com o julgamento que os vivos podem fazer dele. De sua infância, registra apenas o contato com um colega de escola, Quincas Borba, e o comportamento de menino endiabrado, que o fazia maltratar o escravo Prudêncio e atrapalhar os amores adúlteros de uma amiga da família, D. Eusébia. Da juventude, resgata o envolvimento com uma prostituta de luxo, Marcela.
      • Depois de retornar de uma temporada de estudos na Europa, vive uma existência de moço rico, despreocupado e fútil. Conhece a filha de D. Eusébia, Eugênia, e a despreza por ser manca. Envolve-se com Virgília, uma namorada da juventude, agora casada com o político Lobo Neves. O adultério dura muitos anos e se desfaz de maneira fria. Brás ainda se aproxima de Nhã Loló, parenta de seu cunhado Cotrim, mas a morte da moça interrompe o projeto de casamento.
      • Desse ponto até o fim da vida, Brás se dedica à carreira política, que exerce sem talento, e a ações beneficentes, que pratica sem nenhuma paixão. O balanço final, tão melancólico quanto a própria existência, arremata a narrativa de forma pessimista: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.
  2. "O cortiço" (1890)

    • Contexto
      • "O cortiço", de Aluísio de Azevedo é a principal obra do Naturalismo brasileiro, considerado sua melhor e mais acabada expressão. Publicado em 1890, é um importante retrato do Brasil, no final do Segundo Reinado, recriando a realidade dos cortiços. Bem ao estilo naturalista, a obra mostra o ser humano sujeito à influência da raça, do meio e do momento histórico. Entre as principais teses defendidas pelo autor estão a força da sensualidade da mulher mestiça e o predomínio dos instintos no comportamento das pessoas que, vistas sob a ótica atual, estão carregadas de preconceito. Além das histórias de João Romão e Jerônimo, destaca-se a do próprio cortiço, com seus personagens e suas tramas.
    • Linguagem
      • Aluísio Azevedo adota um vocabulário de rigor técnico, além de uma análise materialista da vida e das relações sociais. Com isso, pretende estreitar, ao máximo, os laços que unem arte e ciência.
        • "[...]E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer um mundo, uma coisa viva uma geração, que parecia brotar esponânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco." (Capítulo I)
    • Personagens
      • João Romão (homem ambicioso e avarento, capaz de tudo para enriquecer. É dono do cortiço, de uma pedreira e de uma venda), Bertoleza (escrava para quem João Romão forja uma carta de alforria e que se torna sua companheira de trabalho e amante), Miranda (vizinho e rival de João Romão. Casado com Estela, mantém uma união de aparências desde que pegou a mulher em adultério. Não se separa, porém, para não perder a fortuna conseguida em função do dote da esposa), Estela (esposa de Miranda, trai o marido não só com os caixeiros, mas também com Henriquinho, menino hospedado em sua casa), Zulmira (filha de Miranda e Estela), Jerônimo (português, pai de família exemplar, muito sério e trabalhador, abandona tudo para ficar com Rita Baiana, mulata sensual e provocante. Acaba transformando-se em um típico "malandro carioca"), Piedade de Jesus (esposa de Jerônimo. Torna-se alcoólatra depois que é abandonada pelo marido).
      • Rita Baiana (mulata sensual e alegre, é amiga de todos no cortiço. Sai de lá apenas para viver com Jerônimo), Firmo (amante de Rita Baiana no começo da história, é assassinado por Jerônimo, por causa da mulata), Leandra (apelidada "Machona", é lavadeira. Mora no cortiço e é mãe de Das Dores, de Neném e de Agostinho), Das Dores (filha de Machona e amiga de Rita Baiana), Augusta Carne-Mole (mulher de Alexandre, é outra lavadeira do cortiço e vive grávida. Uma de suas filhas, Juju, mora na cidade com a madrinha, uma prostituta chamada Léonie), Alexandre (mulato de quarenta anos, soldado de polícia, pernóstico, de grande bigode preto e queixo escanhoado), Leocádia (casada com Bruno, é expulsa da casa ao ser pega em adultério, mas depois é perdoada pelo marido), Paula (conhecida como Bruxa. Enlouquece e tenta incendiar o cortiço duas vezes), Marciana e Florinda (mãe e filha, são lavadeiras no cortiço. A mãe enlouquece depois que Florinda engravida de um balconista da loja de João Romão).
      • Albino (lavadeiro, mora no cortiço e é homossexual), Dona Isabel (viúva e lavadeira. Já teve uma boa posição social, perdida após o suicídio do marido. Espera que o casamento de sua filha, Pombinha, tire-a definitivamente do cortiço), Pombinha (filha da lavadeira Isabel, é a "flor do cortiço". Muito estimada, conseguiu estudar antes de o pai morrer e, por isso, é quem escreve cartas para os moradores da estalagem. Casa-se para agradar a mãe, mas logo depois abandona o marido, torna-se amante de Léonie que é prostituta), Léonie (prostituta de luxo, seduz Pombinha e depois se torna sua companheira), João da Costa (noivo de Pombinha), Botelho (amigo de Miranda, vive em sua casa, na condição de "parasita") e Henriquinho (filho de um fazendeiro rico, cliente de Miranda, hospeda-se na casa do português e tem um caso com sua esposa, Estela).
    • Escola literária: Naturalismo.
      • Os romances naturalistas destacam-se pela abordagem extremamente aberta do sexo e pelo uso da linguagem falada. O resultado é um diálogo vivo e extraordinariamente verdadeiro, que na época foi considerado até chocante de tão inovador. Ao ler uma obra naturalista, tem-se a impressão de se estar a ler uma obra contemporânea, que acabou de ser escrita. Os naturalistas acreditavam que o indivíduo é um mero produto da hereditariedade e o seu comportamento é fruto da educação e do meio em que vive e sobre o qual age. A perspectiva evolucionista de Charles Darwin inspirava os naturalistas, que acreditavam ser a seleção natural impulsionadora da transformação das espécies. Assim, predomina nesse tipo de romance o instinto, o fisiológico e o natural, retratando a agressividade, a violência, o erotismo como elementos que compõem a personalidade humana.
    • Teorias: Determinismo e Evolucionismo.
    • Estilo
      • Antes de se tornar escritor, Aluísio Azevedo pensava em ser pintor. Talvez por isso o grande destaque estilístico em "O cortiço" seja a descrição minunciosa dos ambientes e dos personagens, de modo a formar um quadro de sons, cores, formas e cheiros. Em alguns momentos do romance, essas descrições são vitais para o desenrolar da narrativa, como na passagem na qual Rita Baiana dança e provoca uma radical mudança no comportamento de Jerônimo.
        • "Ela saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a direita, como numa sofreguidão de gozo carnal, num requebrado luxurioso que a punha ofegante; já correndo de barriga empinada; já recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se fosse afundando num prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e nunca se encontra fundo. Rita [...] tinha o mágico segredo daqueles movimentos de cobra amaldiçoada; aqueles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a mulata soltava de si e sem aquela voz doce, quebrada, harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante." (Capítulo VII)
      • O narrador é onisciente, em terceira pessoa do singular, e fora do mundo narrado ou descrito. Predomina o discurso indireto livre, permitindo ao autor revelar o pensamento das personagens.
        • "A mulher dormia a sono solto. Miranda entrou pé ante pé e aproximou-se da cama. 'Devia voltar!... pensou. Não lhe ficava bem aquilo!...' Mas o sangue latejava-lhe, reclamando-a. Ainda hesitou um instante, imóvel, a contemplá-la no seu desejo." (Capítulo I)
      • Durante todo o tempo, personagens são comparadas, totalmente guiados pelos instintos, a animais. É um recurso comum no Naturalismo, conhecido como zoomorfismo.
        • "Também cantou. E cada verso que vinha da sua boca de mulata era um arrulhar choroso de pomba no cio." (Capítulo X)
        • "E o mugido lúgubre daquela pobre criatura abandonada antepunha à rude agitação do cortiço uma nota lamentosa e tristonha de uma vaca chamando ao longe." (Capítulo XVI)
        • "[...] e as mulheres iam despejando crianças com uma regularidade de gado procriador." (Capítulo XIII)
    • Resumo da obra
      • O romance segue claramente duas linhas mestras em seu enredo, cada uma delas girando em torno de um imigrante português. De um lado temos João Romão, o dono do cortiço, do outro Jerônimo, trabalhador braçal que se emprega como gerente da pedreira que pertence ao primeiro. João Romão enriquece às custas de sua obsessão pelo trabalho de comerciante, mas também por intermédio de meios ilícitos, como os roubos que pratica em sua venda e a exploração da amante Bertoleza, a quem engana com uma falsa carta de alforria. Ele se torna proprietário de um conjunto de cômodos de aluguel e da pedreira que ficava ao fundo do terreno. Aumenta sua renda e passa a se dedicar a negócios mais vultosos, como aplicações financeiras. Aos poucos, refina-se e deixa para trás a amante.
      • Miranda, comerciante de tecidos e também português, muda-se para o sobrado que fica ao lado do cortiço. No início disputa espaço com o vizinho, mas, aos poucos, os dois percebem interesses comuns. Miranda tem acesso à alta sociedade, posição que começa a ser almejada por João Romão, este, por sua vez, tem fortuna, cobiçada pelo comerciante de tecidos que vive às custas do dinheiro da esposa. Logo, uma aliança se estabelece entre eles. Para consolidá-la, planeja-se o casamento entre João Romão e a filha de Miranda, Zulmira. João se livra de Bertoleza, devolvendo-a aos seus antigos donos.
      • Jerônimo assume a condição de gerente da pedreira de João Romão e passa a viver no cortiço com a esposa Piedade. Sua honestidade, força e nobreza de caráter logo chamam a atenção de todos. No entanto, seduzido pela envolvente Rita Baiana, assassina o namorado desta, Firmo. Jerônimo abandona a esposa e vai viver com Rita. Entra então em um acelerado processo de decadência física e moral, assim como sua esposa, que termina alcoólatra. A decadência atinge também outros moradores do cortiço. É o caso de Pombinha, moça culta que aguardava a primeira menstruação para se casar. Seduzida pela prostituta Léonie, abandona o marido e vai viver com a amante, prostituindo-se também.
  3. Machado de Assis (1839-1908)

    • Machado de Assis foi o principal nome do Realismo brasileiro, o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras e um dos escritores mais aclamados da literatura. O carioca nascido no Morro do Livramento atuou como jornalista, crítico, cronista, dramaturgo e poeta. Machado escreveu contos, crônicas, poemas e romances, deixando a sua contribuição para diferentes gêneros literários. No começo da carreira, apostou em textos mais conservadores, com influência romântica. Depois, foi o Realismo que ficou mais presente nas suas obras. O autor, inclusive, é lembrado como um dos escritores mais importantes do Realismo. Com sua extensa produção, conseguiu influenciar escritores como Olavo Bilac e Lima Barreto. Além de ganhar a admiração de outros tantos, em especial do amigo José de Alencar.
  4. Aluísio Azevedo (1857-1913)

    • Aluísio Azevedo foi o maior representante do naturalismo na literatura brasileira. Foi com o livro “O Mulato” que o autor apresentou as primeiras marcas do movimento literário ao público, assim como as críticas à escravidão. Seguiu a linha naturalista também na obra “O Cortiço”. O autor maranhense ainda atuou como jornalista e caricaturista, devido ao talento para o desenho. Apesar da relevância que Aluísio desfrutou na literatura, acabou optando por atuar como diplomata. Os últimos anos de vida do escritor, inclusive, não foram dedicados aos livros e sim à vida como diplomata e enfim cônsul, residindo em Buenos Aires. Na Academia Brasileira de Letras, Azevedo fundou a cadeira nº 4, que tem Basílio da Gama como patrono.
  5. Adaptações para o cinema

    • "Memórias póstumas" (2001)
      • Adaptação da obra de Machado de Assis. A história do defunto-autor Brás Cubas (Reginaldo Faria), que, após morrer, decide escrever sobre as passagens mais importantes de sua vida: sua infância, a primeira paixão da adolescência, o amor por uma mulher casada, o sonho de tornar-se político, as vaidades. A ironia e inteligência do livro estão presentes no filme, assim como os costumes e a paisagem do Rio de Janeiro antigo. 101 min.
    • "O cortiço" (1978)
      • No final do século XIX, Rita Baiana (Betty Faria) é uma mulher expansiva e liberal que vive num cortiço no Rio de Janeiro de propriedade do português João Romão (Armando Bogus). Ao se apaixonar por Jerônimo (Mario Gomes), jovem lusitano recém-chegado ao Brasil, ela deflagra um jogo de paixões que acaba em tragédia, às vésperas da abolição dos escravos no Brasil. Dirigido por Francisco Ramalho Jr., o drama “O cortiço” é baseado no clássico romance homônimo de Aluísio de Azevedo. No elenco, o filme conta com grandes nomes da dramaturgia nacional como Mário Gomes, Betty Faria, Armando Bogus, Itala Nandi e Maurício do Valle. Inédito. 110 min.

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