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Crise Asiática

Marcela Borges Portuguese 1 page

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Raízes estruturais da crise financeira asiática e o enquadramento da Coréia - Carlos Aguiar de Medeiros (1998)

A crise asiática não foi antecipada pelo FMI, BIRD ou Asian Development Bank.

BIRD dizia que os países adotavam estratégia Market friendly e um apurado sistema de checks and balances na relação entre setor público e o setor privado. Esse modelo era responsável pela alta performance asiática.

Market friendly - adoção de saúdaveis políticas macroeconômicas, um genuíno esforço de desenvolvimento baseado na poupança interna e na educação .

Sistema de Checks and balances- sistema de freio e contrapeso é a essência do mecanismo da separação dos poderes proposta por Montesquieu no período da Revolução Francesa. Através desse sistema, um Poder do Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário) está apto a conter os abusos do outro de forma que se equilibrem. Por exemplo: O judiciário, ao declarar a inconstitucionalidade de uma Lei é um freio ao ato do Legislativo que poderia conter uma arbitrariedade. O contrapeso é que todos os poderes tem funções distintas, de forma que um 'não manda' mais do que outro. Eles são harmônicos e independentes.

Para os economistas estruturalistas a coordenação dos investimentos, as relações cooperativas nos mercados, os sistemas nacionais de inovação eram os fatores determinantes para a alta performance desses países.

Depois da crise, percebeu-se que via asiática era na verdade a de um crony capitalism e neste a existência de um soft budget constraint empurrou as economias asiáticas para um excessivo endividamento e posterior inadimplência de bancos e empresas.

Crony capitalismo - O capitalismo clientelista, ou capitalismo de compadrio, é um termo que descreve uma economia em que o sucesso nos negócios depende das estreitas relações entre os empresários e funcionários do governo. Isto pode ser demonstrado pelo favoritismo na distribuição de autorizações legais, nos subsídios do governo, nos incentivos fiscais especiais, ou outras formas de dirigismo.

Soft Budget constraint- A síndrome da restrição orçamentária branda, um conceito formulado por Kornai (1979), pertence onde quer que uma fonte de financiamento - por exemplo, um banco ou governo - ache impossível manter uma empresa em um orçamento fixo, ou seja, sempre que a empresa consegue extrair depois do evento um subsídio ou empréstimo maior do que seria considerado eficiente antes do evento.

Para o FMI as características do setor financeiro e suas relações com as empresas e governo foram os determinantes principais da crise de endividamento.

A base estrutural do plano de saída feita pelo FMI é a liberalização e desregulamentação do setor financeiro.

Para Akyuz (1998) e Chang (1998) o viés deflacionista e a dura compressão o crédito condicionados à política de ajuda externa têm conduzido a uma depressão inteiramente desproporcional aos fundamentos da crise.

Akyuz (1998) argumenta ainda que as condicionalidades, além de abusivas, forma promovidas por interesses bilaterais dos países desenvolvidos sem qualquer relação direta com a crise.

A crise externa nos países periféricos resulta em mais abertura comercial, maior desregulação financeira e menor controle sobre a economia.

Como uma via de desenvolvimento tão exitosa e celebrada como market friendly foi tão duramente atingida e tão rapidamente passou a ser criticada como a de um crony capitalismo?

Para um economista “neoclássico heterodoxo” como Krugman (1998), o espetacular crescimento das economias asiáticas não passava de uma previsível trajetória de acumulação de capital em economias atrasadas. Uma combinação de rendimentos decrescentes e falhas de mercado teria levado à redução da lucratividade e ao superendividamento.

Segundo Chang (1997) a crise financeira na Coréia deve-se integralmente às opções de política econômica do governo.

Propõe-se neste texto que importantes mudanças ocorreram entre 1995 e 1997 na dinâmica do crescimento regional asiático resultando numa maior fragilidade financeira externa.

Com a nova paridade entre o dólar e o iene estabelecida em 1995, com a parcial liberalização financeira e valorização cambial que se generalizou entre os países da ASEAN-4 e na Coréia, interrompeu-se em alguns países a macroeconomia do desenvolvimento regional

criada em 1985.

No caso dos países da ASEAN-4 um aspecto central foi a redução do investimento direto japonês como componente estratégico do

financiamento externo destas economias.

A meteórica expansão da China como receptora de investimentos e exportadora de manufaturados deprimiu, nos últimos anos, a competitividade não apenas dos países da ASEAN-4 mas também da Coréia, esta última comprimida entre o seu crescente déficit com o Japão e sua decrescente presença no mercado americano.

A exaustão do dinamismo dos investimentos e comércio regional baseada na divisão do trabalho construída pelo Japão nos anos 80 e voltada ao mercado americano, enquanto “consumidor de última instância”, está na base da fragilidade financeira externa de alguns países asiáticos.

Embora a fragilidade financeira externa seja a base estrutural da crise, esta não pode ser reduzida apenas àquela.

Fragilidade Financeira

1. Crise financeira, crise cambial

Akyüz (1998) sublinha corretamente que nos países periféricos, as crises financeiras não raro desembocam em crises cambiais e, do mesmo modo, as crises cambiais resultam em crises financeiras.

O que chama atenção no caso asiático é o fato de ter atingido intensa e simultaneamente economias que de comum possuíam um alto dinamismo e um determinado tipo de inserção internacional.

a ausência, entre os países asiáticos que sofreram ataques especulativos, de fatos espetaculares no setor externo – sobretudo quando se tem em mente a realidade latino-americana dos anos 90 – que tivessem provocado um colapso abrupto nos indicadores de risco.

rapidez do endividamento externo de curto prazo, particularmente acentuado na Coréia e a ampliação do coeficiente de importações.

experiência histórica sugere que o colapso cambial provocado pela especulação financeira ocorre a partir de uma deterioração do padrão de financiamento externo.

um irrestrito acesso do setor privado ao financiamento externo de curto prazo, apreciação da taxa de câmbio e desregulamentação dos mecanismos de controle sobre os fluxos de capitais

quanto em 1996 e 1997 nos países da ASEAN-4 e na Coréia, formaram-se bolhas especulativas com títulos, créditos e empreendimentos imobiliários (estes últimos foram muito mais importantes na Ásia do que na América Latina) em conseqüência da maior liberalização financeira e abundância de capitais, contagiando o mercado monetário e cambial

De fato, a combinação de valorização da taxa de câmbio, livre conversibilidade, elevado endividamento privado e investimentos externos nos setores de non tradeables ocorreu no México.15 Como na Ásia, nenhuma mudança exógena ocorreu e o componente especulativo interno e as opções de política econômica na área cambial pareceram explicar exaustivamente a crise. Em condições de alta fragilidade externa e volatilidade de capitais de curto prazo, uma mudança na política cambial tal como a que ocorreu em fins de 1994 disparou as movidas especulativas que derrubaram as reservas do Banco do México.16 Do mesmo modo, o anúncio de uma desvalorização do baht tailandês contra o dólar disparou em junho de 1997 a crise cambial desta moeda.

A liberalização e desregulação financeira como as que se desenvolveram de fato na Ásia, explicam a possibilidade de formação de bolhas especulativas e permitem compreender por que as medidas de política econômica, uma vez instalada a crise cambial, tornam-se frágeis. No entanto, é através de sua influência sobre as taxas de câmbio e sobre o padrão de financiamento externo das economias que os seus efeitos mais permanentes se afirmam entre as economias em desenvolvimento.

2. A desvalorização do iene e a reversão do padrão de crescimento

2.1. Mudanças na dinâmica do financiamento externo

A extraordinária taxa de crescimento das economias asiáticas ocorrida a partir de 1985 baseava-se na montagem pelo Japão e, em menor dimensão pelo 4 “tigres” (Hong Kong, Cingapura, Coréia e Formosa) de um bloco de investimentos e comércio entre os países do sudeste asiático envolvendo, em particular, a Tailândia, a Malásia, a Indonésia, as Filipinas (ASEAN-4) e a China.17

Estes países inseriram-se rapidamente na economia mundial como exportadores de bens manufaturados de baixo valor unitário e receptores de elevados fluxos de investimento estrangeiro, em particular egressos do Japão, que afirmou-se, no final dos anos 80, como o maior investidor internacional.

Sob intensa pressão comercial dos Estados Unidos – devido ao seu insólito superávit comercial – o Japão é forçado no Acordo do Plaza em 1985, a aceitar uma elevada valorização do iene em relação ao dólar.

Como reação à perda de competitividade de suas exportações e buscando beneficiar-se do elevado poder de compra de sua moeda, o Japão e, posteriormente, os 4 “tigres” deslocam para os países asiáticos de menor grau de desenvolvimento e elevado câmbio real, manufaturas intensivas em mão-de-obra de bens de baixo valor unitário. Por outro lado, ampliam numa grande extensão as redes de subcontratação construídas historicamente pelas grandes tradings japonesas.

O dinamismo das exportações dos “gansos voadores”, como de resto dos demais países dinâmicos da Ásia, baseou-se em ampla penetração no mercado americano.

Se os Estados Unidos assumiram a função histórica de principal mercado para as manufaturas de baixo valor unitário e, no caso dos “tigres”, de manufaturas de maior valor, o Japão afirmou-se como o maior fornecedor de bens de capital para a região.

O fato notável é que se até 1985, o comércio regional possuía um dinamismo localizado – como o existente entre Hong Kong e China – e especializado – as exportações de petróleo da Indonésia para o Japão – a partir de 1985, o comércio regional cresceu a taxas espetaculares.

Esta expansão acelerada possuía como característica um elevado e crescente déficit comercial dos “gansos” com o Japão, e eram o superávit com os Estados Unidos e a expansão dos fluxos de investimento externo direto (IDE) japoneses que permitiam um espetacular dinamismo de economias puxadas pelos investimentos e exportações.

Com a insólita valorização do iene em relação ao dólar no final da década de 80 e com as demais moedas atreladas ao dólar, os fluxos de IDE oriundos do Japão atingem o seu clímax.

Com a taxa de câmbio vigente, as receitas decorrentes dos investimentos em dólar são reinvestidas – em particular nas indústrias exportadoras asiáticas – e ocorre no Japão uma variação negativa no saldo de serviços de fatores.

Muito embora a valorização do uon não tenha sido comparável à do iene, ela se afirma em 1988 e, do mesmo modo que o Japão, a Coréia passa a sofrer fortes pressões comerciais para abrir sua economia.

É neste contexto que começa a se afirmar entre as principais economias asiáticas como o Japão, os “gansos” e a China, um movimento de abertura comercial e financeira.

Em 1993, já são visíveis algumas transformações no padrão de investimento e financiamento nas economias asiáticas que se impuseram como conseqüência do primeiro endaka (recessão do yen).

Poder-se-iam destacar os seguintes movimentos: – no caso da Coréia e Tailândia houve uma forte expansão nos investimentos de porta-fólio (IP) e no financiamento externo ao setor privado; uma contração dos fluxos de IDE oriundos do Japão, e dos fluxos de investimento externos recebidos pela Tailândia, Malásia e Indonésia; forte expansão de investimentos imobiliários especulativos;

Estes movimentos serão fortemente acentuados a partir de 1995 em função da desvalorização do iene em relação ao dólar e da indexação das moedas regionais a esta última.

É importante considerar as mudanças no padrão de financiamento externo destas economias no contexto macroeconômico nos anos 90. O início dos anos 90 testemunhou tanto no Japão, como na Coréia, Tailândia, Indonésia e Malásia uma desaceleração nas taxas de crescimento econômico. Com a retomada do crescimento econômico em 1993, o coeficiente de importações destes países aumentou significativamente nos anos subsequentes.

Por outro lado, as taxas de crescimento das exportações destes países embora estivessem situadas em níveis bastante elevados sob qualquer critério de comparação internacional, ainda assim ficaram bem abaixo das de importações.

Ao mesmo tempo, em 1993, o influxo de investimentos de porta-fólio afirma-se na maioria dos países situando-se em níveis elevados e crescentes.

Destes movimentos a China diverge fortemente. Houve intenso crescimento das importações, mas estas vinham de níveis muito mais baixos do que as exportações.

A lenta mas visível recuperação do crescimento no Japão entre 1995 e 1997, ao tempo em que ocorria desaceleração do crescimento nas demais economias, se fez acompanhar de acentuada recuperação no superávit da conta de serviços de fatores do balanço de pagamentos. Simetricamente, nos países da ASEAN-4 e na Coréia, houve abrupta elevação no déficit nos serviços de fatores.

as filiais japonesas na Ásia obtiveram em 1995 um verdadeiro boom nos lucros. China foi de longe o principal destinatário dos investimentos diretos e dos reinvestimentos locais. Houve em contrapartida fechamento de diversas filiais localizadas nos “tigres”, tendo em vista, segundo as respostas consolidadas no relatório, a elevação dos salários e o declínio das vendas ocorridos nestes países

A partir de 1995, há significativo declínio do crescimento econômico e das exportações na Ásia. Também caem as importações se bem que de forma menos acentuada, em todos, o coeficiente de importações se amplia. A diminuição do crescimento e do comércio regional afetou especialmente a Coréia, comprimida entre o seu déficit crescente com o Japão e a extinção, pós-96, do seu superávit com os Estados Unidos.

A mudança na paridade entre o iene e o dólar interrompeu – pelo menos provisoriamente – a relação construída pelo Japão entre as variações em seu superávit na balança de transações correntes e a saída de investimentos diretos dirigidos aos países asiáticos.

A expansão da rede de filiais e investimentos baseada na estratégia japonesa de subcontratação começou a operar com menores fluxos líquidos de capital de longo prazo, maior recurso ao crédito e, do ponto de vista do país hospedeiro, maior coeficiente de importações. Quando estas transformações se combinaram com a redução das exportações, as precondições para uma crise financeira especulativa estavam postas.

2.2. A valorização cambial e a supremacia do dólar

A consideração de que a valorização cambial das moedas asiáticas em relação ao dólar ocorrida a partir de 1995 foi um elemento básico da crise financeira de 1997 é comum a diversas abordagens.

historicamente países como a Coréia deslocaram sua taxa de câmbio para o dólar (segunda metade dos anos 80) ou para o iene (primeira

metade dos anos 80) segundo os interesses ditados pelo aumento da competitividade das exportações.

Os demais países da ASEAN-4 mantiveram desde 1985 taxas de câmbio desvalorizadas em relação ao dólar. A valorização ocorrida a partir de 1995 é portanto uma ruptura com a experiência histórica imediata.

ao contrário dos países latino-americanos nos anos 90, a valorização cambial e a indexação ao dólar ocorrida na Ásia não se deram

num contexto de políticas de estabilização em economias cronicamente inflacionárias ou à beira da hiperinflação. As economias asiáticas vinham de trajetórias de alto crescimento e baixa inflação.

ressalta-se que com exceção da China, a valorização atingiu simultaneamente as principais moedas da região.

A explicação usual para a valorização das moedas asiáticas em 1995 baseia-se na excessiva oferta de liquidez e na grande expansão de aplicações de curto prazo por parte de investidores internacionais egressos do colapso mexicano de 1994/95.23 Ainda que esta hipótese seja importante para a análise da valorização das moedas asiáticas, ela deve ser referida a um contexto mais geral.

Em geral, nas economias asiáticas a valorização de suas moedas em relação ao iene, a partir de 1995, deve-se à política americana de redução de seu déficit comercial e à supremacia do dólar na região.

Com efeito, no início dos anos 90, de acordo com o FMI, as reservas dos países em desenvolvimento denominadas em iene caíram depois de terem atingido seu auge em 1988, e houve forte expansão das reservas em dólares.

Este deslocamento de reservas corresponde não apenas à afirmação do mercado americano como principal mercado de venda das manufaturas asiáticas, mas à afirmação do dólar como moeda de referência e meio de pagamento no crescente comércio regional.

parcela substancial das importações do Japão é formada por matérias-primas (petróleo em especial oriundo da China e Indonésia) denominadas em dólar.

a China vem crescentemente absorvendo as importações americanas; os demais países e a Coréia, em particular, deslocaram-se para o comércio regional, baseado essencialmente no dólar, de forma a financiar o desequilíbrio com o Japão.

Dessa forma, a economia regional construída pela estratégia de investimento das grandes corporações japonesas tornou-se crescentemente

dependente da moeda americana.

2.3. A expansão chinesa e o preço do chip

Coreia nos anos 90 - país mais avançado que não altera suas exportações no mesmo ritmo em que perde mercado pela pressão das exportações oriundas dos países de menor grau de desenvolvimento.

já presente no início dos anos 90, especialmente a partir de 1995, foi a emergência da China – com uma taxa de câmbio mais favorável e custo mais baixo – como maior exportador das mercadorias de baixo valor unitário no mercado americano.

Com o acirramento da concorrência, não apenas os “gansos” foram deslocados pela expansão chinesa, mas também a Coréia cede mercado para a China tanto em produtos têxteis, como em chips.

Ao contrário dos “gansos”, muito afetados pela contração dos IDEs oriundos do Japão, a Coréia – país em que os IDEs japoneses tiveram pouca importância em seu dinamismo exportador – se viu pressionada pelos menores preços de exportação dos staples originados na China sem poder, ao mesmo tempo, “subir a escada” e transitar para uma especialização em bens de maior valor unitário que pudesse alterar sua posição deficitária com o Japão e, também agora, com os Estados Unidos.

Com a valorização do uon e com a pressão comercial americana eliminou-se o superávit com os Estados Unidos ampliando a dependência externa da Coréia.

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Note on Crise Asiática, created by Marcela Borges on 14/09/2018.
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