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O Que é Piedade? por Joel Beeke
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O Que é Piedade?
Joel Beeke
28 de Dezembro de 2009 - Pensamento Cristão
As Institutas, escritas por João Calvino, fizeram-no receber o título de “o sistematizador preeminente da
Reforma Protestante”. Com freqüência, a reputação de Calvino como um intelectual é vista separadamente
do contexto pastoral e espiritual em que ele escreveu sua teologia. Para Calvino, o entendimento teológico e
a verdade, a piedade e a utilidade prática são inseparáveis. Antes de tudo, a teologia lida com o
conhecimento — conhecimento de Deus e de nós mesmos; mas não há conhecimento verdadeiro, onde não
há piedade verdadeira.
O conceito de piedade (pietas) ensinado por Calvino se fundamentava no conhecimento de Deus, incluindo
atitudes e ações direcionadas à adoração e ao serviço de Deus. Além disso, a pietas de Calvino incluía uma
hoste de temas relacionados, tais como o amor nos relacionamentos humanos e o respeito à imagem de
Deus nos seres humanos. Essa piedade é evidente em pessoas que reconhecem, por meio da fé
experiencial, que foram aceitas em Cristo e enxertadas no corpo dEle, pela graça de Deus. Nesta “união
mística”, o Senhor declara essas pessoas como pertencentes a Ele, tanto na vida como na morte. Elas se
tornam povo de Deus e membros de Cristo pelo poder do Espírito Santo. Este relacionamento restaura-lhes
o gozo da comunhão com Deus e recria-lhes uma nova vida. Liberta-as da escravidão ao mundanismo
carnal.
O propósito deste texto é mostrar que a piedade de Calvino é uma resposta suficiente ao problema do
mundanismo; seu conceito de piedade é algo que conquista o nosso coração. A piedade de Calvino é
bíblica, com uma ênfase no coração mais do que na mente. A mente e o coração devem trabalhar juntos,
mas o coração é mais importante.
A definição e a importância da piedade
Pietas é um dos grandes temas da teologia de Calvino. Como nos diz John T. McNeill, a teologia de Calvino
é a “sua piedade descrita em profundidade”. Ele estava determinado a confinar a teologia aos limites da
piedade. No prefácio dirigido ao rei Francisco I, Calvino afirma que o propósito em escrever asInstitutas era
“transmitir unicamente certos rudimentos pelos quais aqueles que possuem zelo pelo cristianismo podem ser
moldados na verdadeira piedade [pietas]”.
Para Calvino, pietas designa a atitude correta de um homem para com Deus. É uma atitude que inclui
conhecimento verdadeiro, adoração sincera, fé salvadora, temor filial, submissão e amor reverentes. Saber
quem e como Deus é (teologia) envolve atitudes corretas para com Ele e fazer o que Ele deseja (piedade).
Em seu primeiro catecismo, Calvino escreveu: “A verdadeira piedade consiste em um sentimento sincero
que ama a Deus como Pai e O reverencia como Senhor; apropria-se de sua justiça e teme mais o ofendê-Lo
do que o enfrentar a morte”. Nas Institutas, João Calvino é mais sucinto: “Chamo de piedade aquela
reverência unida ao amor a Deus, o amor que é fruto do conhecimento de seus benefícios”. Esse amor e
reverência para com Deus é um acompanhamento indispensável a qualquer conhecimento de Deus e
abrange todos os aspectos da vida. Conforme afirmou Calvino: “Toda a vida dos crentes deve ser um tipo de
prática da piedade”. O subtítulo da primeira edição das Institutas dizia: “Incluindo quase todo o resumo da
piedade e qualquer coisa necessária para se conhecer a doutrina da salvação: Uma obra muito digna de ser
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lida por todos os zelosos por piedade”.Os comentários de Calvino também refletem a importância de pietas.
Por exemplo, ele escreveu sobre 1 Timóteo 4.7-8: “Você fará algo de grade valor se, com todo o seu zelo e
habilidade, se dedicar unicamente à piedade [pietas]. A piedade é o começo, o meio e o fim do viver cristão.
Onde ela é completa, não há falta de nada... A conclusão é que devemos concentrar-nos, exclusivamente,
na piedade, pois, uma vez que a tenhamos atingido, Deus não exige de nós qualquer outra coisa”.
Comentando 2 Pedro 1.3, Calvino disse: “Quando Pedro fez menção da vida, acrescentou imediatamente a
piedade [pietas], como se esta fosse a essência da vida”.
O alvo supremo da piedade: Soli Deo Gloria
O alvo da piedade, bem como de toda a vida cristã, é a glória de Deus — a glória que resplandece nos
atributos de Deus, na estrutura do mundo, na morte e na ressurreição de Jesus Cristo. No que diz respeito a
todos os que são verdadeiramente piedosos, o glorificar a Deus supera a salvação pessoal. Por isso,
Calvino escreveu ao cardeal Sadoleto: “Não é uma teologia bastante saudável confinar os pensamentos de
um homem a ele mesmo e não apresentar-lhe, como motivo fundamental de sua existência, o zelo pela
glória de Deus... Estou convencido: não existe nenhum homem que possua a piedade verdadeira e não
considere como insípida aquela extensa e laboriosa exortação em favor do zelo pela vida celestial, um zelo
que o mantém totalmente dedicado a si mesmo e que não o desperta, nem mesmo por uma única
expressão, a santificar o nome de Deus”.
O alvo da piedade — que Deus seja glorificado em nós — é aquilo para o que fomos criados. Portanto, o
nascido de novo anela por vivenciar o propósito de sua criação original. De acordo com Calvino, o homem
piedoso confessa: “Somos de Deus; vivamos e morramos para Ele. Somos de Deus; sejamos governados
por sua sabedoria e vontade em todos os nossos atos. Somos de Deus; em harmonia com isso, devemos
segui-Lo como nosso único objetivo lícito, em todo os aspectos de nossa vida”.
Deus redime, adota, santifica o seu povo, para que sua glória resplandeça neles e os liberte da busca pelo
egoísmo ímpio. O profundo interesse do homem piedoso é Deus mesmo e suas coisas — sua Palavra, sua
autoridade, seu evangelho, sua verdade. O homem piedoso tem intenso desejo de conhecer mais a Deus e
de ter mais comunhão com Ele como o seu único alvo.
Mas, como glorificamos a Deus? Calvino escreveu: “Deus nos prescreveu uma maneira pela qual Ele pode
ser glorificado por nós, a saber, a piedade, que consiste na obediência à sua Palavra. Aquele que ultrapassa
esses limites não está honrando a Deus; pelo contrário, está desonrando-O”. A obediência à Palavra de
Deus significa refugiar-se em Cristo para o perdão de nossos pecados, conhecê-Lo por meio de sua
Palavra, servi-Lo com um coração repleto de amor, praticar boas obras em gratidão por sua bondade e
exercitar auto-renúncia, a ponto de amar os nossos inimigos. Esta resposta envolve rendição total a Deus
mesmo, à sua Palavra e à sua vontade.
Calvino disse: “Ofereço-Te meu coração, Senhor, imediata e sinceramente”. Esse é o desejo de todos os
que são verdadeiramente piedosos. Contudo, esse desejo pode ser realizado apenas por meio da
comunhão com Cristo e da participação nEle; pois, fora de Cristo, até a pessoa mais religiosa vive para si
mesma. E apenas em Cristo os piedosos podem viver como servos voluntários, soldados leais de seu
Comandante e filhos obedientes de seu Pai.
Tradução: Wellington Ferreira
Revisão: Tiago Santos
Texto extraído do livro: Vencendo o Mundo – 1ª Edição, cap. 4 – Beeke, Joel. Editora Fiel, São José dos
Campos, SP. 2009.
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- texto produzido por Joel Beeke e disponibilizado por Editora Fiel
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- Alexandre Almeida
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