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Geração de Orpheu
O Modernismo iniciou, em Portugal, em 25 de março de 1915, com a publicação do primeiro número da revista Orpheu, revista trimestral elaborada por um grupo de jovens artistas, dos quais merecem destaque Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Luís Montalvor (pseudônimo de Luís da Silva Ramos) e Almada Negreiros. A revista ainda apresentava poemas próximos à estética simbolista, mas também trazia textos inspirados nos movimentos da vanguarda europeia, desejando romper com o convencionalismo e chocar a sociedade da época. A primeira edição da revista foi dirigida por Luís Montalvor, com o brasileiro Ronald de Carvalho que, desde a apresentação do volume, afirmavam:
Bem propriamente, ORPHEU é um exílio de temperamentos de arte que a querem como um segredo ou tormento...
Nossa pretensão é formar, em grupo ou ideia, um número escolhido de revelações em pensamento ou arte, que sobre este princípio aristocrático tenham em ORPHEU o seu ideal esotérico e bem nosso de nos sentirmos e conhecermo-nos.
Entender o artista como possuidor de uma sensibilidade singular que lhe possibilita captar o lado misterioso do mundo real é uma atitude tipicamente simbolista. Mas, por outro lado, esse mesmo grupo estava disposto a realizar a “Literatura de Manicômio”, expressão usada, na época, para avaliar os textos publicados na revista. Essa literatura encontrava-se permeada das vanguardas artísticas que estudamos no módulo anterior – fauvismo, expressionismo, cubismo, futurismo, dadaísmo, surrealismo. Convém destacar que a passagem do Simbolismo para o Modernismo, em Portugal, ocorreu de forma gradativa, haja vista a força do movimento simbolista em terras lusitanas. Nos tópicos em que estudaremos o Modernismo brasileiro, perceberemos que os acontecimentos foram diferentes, pois o Simbolismo, aqui, não possuiu a mesma intensidade que na Europa. Encontraremos, portanto, os primeiros modernistas brasileiros combatendo, efetivamente, os Parnasianos.
Em uma carta a Armando Cortes Rodrigues, colaborador açoriano da revista, Fernando Pessoa relata o comportamento da sociedade, demonstrando a satisfação dos objetivos estéticos alcançados:
Somos o assunto do dia em Lisboa; sem exagero lho digo. O escândalo é enorme. Somos apontados na rua e toda a gente – mesmo extraliterária – fala do ORPHEU.
Dito de outra maneira, a proposta dessa revista vinculava-se ao desejo de atualizar a literatura portuguesa em face dos movimentos artísticos ocorridos na Europa, bem como escandalizar o público burguês conservador. Em razão da repercussão do primeiro número dessa revista, Orpheu passou a ser considerada como o marco inicial do Modernismo português.
A revista ainda terá sua segunda edição, publicada em 28 de junho de 1915, dirigida por Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa. O volume contava com poemas hoje célebres da literatura, tal qual “Ode Marítima”, de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa; trataremos disso em outro item). Os escritores foram, inclusive, tachados de pornográficos e criaturas de maus sentimentos, pela sociedade lisbonense. A terceira edição de Orpheu começou a ser editada e impressa, mas o projeto foi abandonado, pois Mário de Sá-Carneiro, principal financiador da revista, comunicou que não mais pagaria os custos da edição. Logo em seguida, sentindo-se “perdido no labirinto de si próprio”, conforme o poeta diz em carta a Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro cometeu suicídio.
Atenção
Lembrar alguns antecedentes históricos do Modernismo português é importante para que entendamos as razões para o surgimento das revistas que fomentaram o sentimento de necessidade de mudanças no país. O primeiro antecedente relevante data de 1890, nomeado Ultimatum Inglês. Esse foi um ultimato que a Inglaterra deu a Portugal para que as tropas portuguesas desocupassem as terras africanas, a fim de que a Inglaterra assumisse o território. Esse fato desencadeia uma comoção em Portugal, pois o país não possuía condições de enfrentar belicamente a Inglaterra. Tal acontecimento permitirá o desenvolvimento de movimentos antimonárquicos, iniciados, portanto, à medida que o neocolonialismo instaura-se.
Em 1908, há, como ápice desses movimentos antimonárquicos, o assassinato do Rei D. Carlos e de seu filho Luís Felipe. Em 1910, acontecerá a deposição de D. Manuel, seguida da proclamação da República.
Já em 1926, acontecerá o Golpe Militar, com Gomes da Costa assumindo o poder e formando a República Corporativa e Unitária de Portugal. Em 1932, Antônio de Oliveira Salazar assume o poder e a presidência de Portugal. Dessa forma, instaura-se um regime ditatorial nesse país e, com ele, o Estado Novo. Esse é um momento em que Portugal terá austeridade e prosperidade econômica mediante a exploração acontecida durante o neocolonialismo. Entretanto, esse crescimento realizar-se-á mediante a instauração de um regime extremamente opressor, suprimindo a liberdade individual e fechando instituições que se posicionassem contra ele. Esse momento também foi chamado de salazarismo.
Várias outras revistas foram editadas depois de Orpheu: Centauro, Exílio, Portugal Futurista, Contemporânea, Athena, Bysâncio, Tríptico. Todas elas tinham o intuito de tentar continuar o trabalho iniciado com Orpheu: promover o Modernismo em Portugal e combater o academicismo. Porém, somente em 1927, com a publicação do primeiro volume da revista Presença, é que será possível dizer que o Modernismo em Portugal atingirá sua segunda fase. No entanto, antes de passarmos a essa fase, estudaremos o principal nome da literatura modernista portuguesa: Fernando Pessoa.