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Língua portuguesa: tecnologia e ensino Por Vilson J. Leffa in Parábola Editorial
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Do eu lírico à selfie
Meu objetivo específico neste pequeno texto é refletir sobre
o uso da selfie no ensino da língua
portuguesa. Para isso, desenvolvo a seguinte tese:
(1) todos
falam de si;
(2)
falar de si não é uma atividade superficial;
(3)
falar de si ajuda na aprendizagem da língua.
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Usarei como exemplo a
prática social da selfie.
Sabemos que falar de si não
é uma atividade muito bem vista em nossa cultura. Nietzsche já dizia que “falar de si mesmo é
esconder o que realmente se é”, ou seja, um jeito de enganar os outros. Voltaire
também não deixava por menos: “O orgulho dos pequenos consiste
em falar sempre de si próprios; o dos grandes em nunca falar de si”.
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No entanto, todos falamos de
nós mesmos, grandes e pequenos. Entre os grandes, temos os poetas, que dizem
falar de si como se estivessem falando pela voz do outro, fazendo de conta que
estão assumindo o “eu
lírico”, mas não é bem assim. Fala sério, Nietzsche. Fernando
Pessoa já deixou
isso bem claro, fingindo que era dor a dor que deveras sentia. No quesito
orgulho, meu caro Voltaire, ninguém supera
nosso Camões: "Cesse tudo
o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta". Nada
pode ser maior, nem o Grêmio de Porto Alegre. Os grandes falam de
si, e falam com muito orgulho.
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Também
entre os grandes, temos os pintores, com seus autorretratos. Rafael, Rembrandt, da Vinci, van Gogh, Rubens, Goya, Warhol, El Greco, Frida Kahlo, Dali, Picasso, Portinari, Tarsila, entre inúmeros
outros, não deixavam passar uma oportunidade de se pintar. Alguns se pintaram
várias vezes. Michelangelo, em suas Madonas,
projetava na figura do Menino
Jesus, sentado no colo
de Maria, autorretratos psicológicos de sua infância em Caprese, órfão de mãe e
espancado pelo pai.
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O advento da web
2.0 expandiu o falar de si. O que era privilégio dos
grandes, poetas e pintores, foi estendido aos pequenos e passou a ser de domínio público. Todos adquiriram
voz, no sentido figurado e literal da palavra. É aí que entra a selfie, dando a todos o direito de falar de si. O poeta, que se
enreda no eu lírico, e o pintor, que se espelha no autorretrato, trabalham com
modalidades diferentes: um usa a palavra; o outro, a imagem. Já o internauta,
que se projeta na selfie, caminha pela multimodalidade, ao vivo e a
cores. Usa, no mínimo, a imagem, mas pode usar
também a palavra, o áudio e o vídeo, incluindo a voz e
o gesto. Cada um produz sentido com o que tem: o poeta com a palavra, o pintor
com a imagem, o internauta com tudo.
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As críticas ao falar de si são bem conhecidas e
podem ser resumidas em dois grandes problemas, vistos como os malefícios
maiores da internet: culto ao ego e exposição da vida
privada. As críticas do culto exacerbado ao ego são
extremamente negativas: as pessoas aparentam o que não são, ostentam o que não
têm e dizem o que não sabem. A exposição excessiva da vida
privada é um
problema ainda mais sério, a aberração máxima, propiciada pela câmera
frontal do celular, auxiliada mais recentemente pela inclusão
do pau de selfie.
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Os sentimentos e as intimidades do dia a dia,
sejam o sorvete que alguém vai saborear, a roupa que vai vestir para esperar a
pessoa amada ou o filho recém-nascido no berço do hospital, tudo vira selfie,
e transforma a vida numa vitrine. A ideia é de que essa exposição pública dilui
e enfraquece os laços de amizade verdadeira que une as pessoas. Como diria Hannah
Arendt, autora muito citada pelos críticos da internet:
uma existência vivida inteiramente em público, na presença de outros, torna-se,
superficial.
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Hannah Arendt faleceu em 1975, antes da internet e muito antes da selfie. Enquanto viveu, não sabia o que sabemos hoje, com o emprego
da ressonância
magnética que os
cientistas usam para perscrutar as profundezas do cérebro e mostrar o que
acontece lá dentro, muito além da superfície do couro cabeludo. Estudos
conduzidos pelos cientistas da Universidade
de Harvard, Diana I. Tamir e Jason P.Mitchell, mostraram que
quando as pessoas falam de si elas ativam as partes do cérebro que produzem a
dopamina, o hormônio do prazer. O efeito é uma conectividade mais intensa dos
neurônios. Resultado: falar de si não só é tão profundo quanto nosso cérebro,
como ainda o torna mais elástico, facilitando a memória, a motivação e a aprendizagem.
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Sobre a selfie, especificamente,
temos as investigações da Futurizon, uma empresa que
faz pesquisas sob encomenda e que prevê para as selfies uma
série de possibilidades para os próximos cinco anos. Em um artigo publicado em
2016, o pesquisador Ian Pearson antecipa dez possíveis usos das selfies, combinando recursos da inteligência
artificial com
análise de imagens e bancos
de dados disponíveis
em tempo real. As fotos de si mesmos tiradas pelos usuários podem trazer
melhorias para as áreas do lazer, segurança, saúde, trabalho, compras etc., não
só facilitando a verificação da identidade, mas também trazendo soluções para
muitos dos problemas que encontramos nas atividades do dia a dia.
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Em relação à aprendizagem
da língua, o falar de si tem a ver com a produção de sentido. Para produzir
sentido, precisamos de um instrumento de mediação que, de algum modo,
materialize o que pensamos. Essa materialização, por sua vez, produz um efeito
de feedback no
pensamento, que se amplia e também realimenta o instrumento, crescendo os dois,
como a célula de um ser vivo que se desenvolve numa flor, num fruto e, às
vezes, num câncer. Vamos ser realistas: a tentativa de produzir sentido nem
sempre dá certo; às vezes se multiplica desordenadamente.
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O uso da selfie não vai salvar o ensino da língua portuguesa, mas pode ajudar
bastante, dando o pontapé inicial. Nessas condições, o melhor a fazer para
produzir sentido é começar por si mesmo, tentando estabelecer um vínculo
inicial entre o que se sabe e o que precisa ser aprendido, seja interpretação de textos, verbal e não
verbal, literatura, gêneros textuais, gramática, o que for. Isso
não fazemos sozinhos, mas com o uso de um instrumento que nos empodera,
alicerça e refina a exposição de nossos pensamentos, criando um vínculo com o
conteúdo. É aí que entra o celular.
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O celular pode ser usando tanto para a recepção de conteúdo quanto para a produção
de textos, verbais e não verbais.
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Na recepção de conteúdo, o
ponto de emissão está fora do aluno. Os exemplos mais comuns são aplicativos
como dicionários, manuais
de redação, gramáticas e, obviamente, os motores de busca, como
o Google. O que proponho aqui é a inclusão de
um novo ponto de emissão, trazendo a produção textual para o lugar do aluno, que produz,
adapta, remixa e redistribui o conteúdo, usando imagem,
vídeo e texto verbal, fundidos
num artefato cultural único e multimodal.
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O uso do falar de si como
recurso de aprendizagem, tanto para
o ensino da língua portuguesa quanto o da literatura,
já tem sido tema de algumas dissertações e teses. Para o ensino da
língua, cito como exemplo a tese de Ana Cláudia Pereira de Almeida, De Brás Cubas à curva de Koch: produção
textual com base nas teorias da
complexidade (2015), disponível na internet.
Para o ensino da literatura, trago o exemplo da dissertação de Raquel Souza de
Oliveira, Currículo ecológico de língua e
literatura: o uso de tecnologias móveis para uma abordagem colaborativa (2017), que brevemente deverá também
estar disponível na internet.
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Concluindo, o que tentei demonstrar aqui é o seguinte:
(1) num primeiro momento, o falar de si cria um vínculo com o conteúdo a ser aprendido;
(2) depois, leva ao domínio e apropriação desse conteúdo;
(3) finalmente, na terceira e última etapa, reorganiza o sujeito.
Em outras palavras, quando
tudo dá certo, o falar de si pode levar à transformação de si. O aluno não
apenas decora, não apenas se apropria, mas se reconstitui ao falar de si. A
força está com ele. Disponível em: https://www.parabolaeditorial.com.br/blog/entry/lingua-portuguesa-tecnologia-e-ensino.html.
Acesso em: 13 maio de 2017.
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- Tania Aires Costa
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