Modelos explicativos da chamada
economia colonial e a ideia de
Monarquia Pluricontinental: notas de
um ensaio
Annotations:
João Fragoso - Professor titular do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
11. Nova leitura da sociedade
europeia moderna: CRÍTICA A
TEORIA DA DEPENDÊNCIA
Mudanças dramáticas na historiografia
internacional. Nas décadas de 1980 e 1990, a crítica
à ideia de Estado Absolutista como sinônimo de
Antigo Regime, hipótese em voga desde o século
XIX. Uma das consequências desta crítica foi
desencadear novas leituras sobre a sociedade
europeia da época moderna. Por exemplo, o Estado
Leviatã cedeu espaço à agência dos poderes locais
e de grupos como a nobreza. A mesma crítica
também implicou uma nova leitura sobre a
dinâmica dos impérios ultramarinos, em especial
os ibéricos.
HESPANHA: MONARQUIA CABEÇA
DA REPÚBLICA: “Para uma teoria da
história institucional do Antigo
Regime”, impresso em 1984. Nesses
textos foi desenvolvida a hipótese
seminal, na qual Monarquia passa a
ser entendida como a cabeça da
república, porém sem se confundir
com essa, já que nela existiam
outros poderes concorrentes: da
aristocracia às comunas municipais.
Era ela a “cabeça pensante”, capaz
de articular as jurisdições das
várias partes que compunham o
conjunto do corpo social, seja no
reino, seja no ultramar. P. 114
JOHN ELLIOT: MONARQUIA COMPÓSITA:
Nele, a monarquia era algo constituído por
vários reinos, sendo que cada um deles
preservava, em grande medida, as
características de sua existência
institucional prévia, estando no interior da
monarquia (ELLIOT, 1992). Os vários reinos
eram, desse modo, preservados nos
termos de suas formações originais, com
seus corpos de leis, normas e direitos
locais. Cada uma dessas unidades mantém
sua capacidade de autogoverno no interior
de um complexo monárquico mais amplo.
Nesse formato, o rei - o monarca - operava
como a cabeça do corpo social, constituído
pelos vários reinos que eram regidos por
suas regras, coadunadas com as leis
maiores editadas pela coroa, como era o
caso do Vice-Reino de Portugal e a edição
das Ordenações Filipinas em 1602, por
exemplo. P. 115
J. GREEENE: AUTORIDADE NEGOCIADA:
como eixo nas relações metrópoles e
colônias, rompendo com isto a
tradição da inexorável subordinação
política das chamadas colônias e de
suas elites locais frente às
autoridades metropolitanas
europeias. (GREENE, 1994). Com isso,
chegavam à história política as críticas
feitas por historiadores da economia à
teoria da dependência aplicada à
história econômica, que desde, ao
menos, fins da década de 1970
criticava a teoria da dependência. P.115
1. Ruina de antigos modelos explicativos históricos - Caio Prado e Celso Furtado
Os antigos modelos explicativos da chamada economia colonial
dominada começaram a ruir à partir de 1970-80. Estes modelos,
construídos principalmente sob a pena de eruditos - como Caio Prado
Júnior nos anos de 1940 e, na década seguinte, Celso Furtado -,
defendiam que a sociedade da América lusa dos séculos XVII e XVIII fora
construída com o propósito de fomentar a transição do feudalismo para
o capitalismo na Europa, ou ainda com o intuito de viabilizar a revolução
industrial inglesa do século XIX (PRADO Jr., 1977; FURTADO, 1976).
Portanto, para aqueles autores e ainda seus atuais seguidores, a terra brasilis e
outras paragens do Novo Mundo presenciaram a instalação de estruturas sociais e
econômicas subordinadas aos interesses dos comerciantes de praças, como
Antuérpia, do século XVI e depois, de Amsterdam e Londres. E estes comerciantes,
não raro, foram definidos de forma caricatural pela sua avidez a lucros. Por serem
elaboradas com o objetivo de possibilitar a produção e transferência de riquezas para
o Velho Mundo, as estruturas econômicas da América deviam conter, ao menos,
algumas características ou um “sentido manifesto”, como destacava Caio Prado:
produzir mercadorias a baixos custos de modo a permitir na sua revenda lucros
extraordinários para o capital mercantil europeu; possuir um mercado que adquirisse
manufaturados, de modo a fomentar a produção industrial europeia; ter por base a
mão de obra africana e com isto ampliar o comércio de homens e mulheres no
Atlântico Sul, atividade controlada pelos ne
2. Para autores antigos a colônia não tinha dinâmica própria
O resultado destas vontades do capitalismo comercial europeu seria a constituição, na América lusa
da passagem do século XVI para o XVII, grosso modo, de um grande canavial gerenciado por
senhores de engenhos, porém dirigidos por um “capital não residente”, nas palavras de Celso
Furtado. Assim, a economia colonial não tinha dinâmica própria, e seu destino dependia dos
humores do mercado europeu. Outra consequência seria a inexistência de um mercado interno ou
ainda de produções mercantis in loco voltadas para o abastecimento da América. Estas atividades
não podiam existir, pois colocariam em perigo o sentido da colonização. p. 107
A estratificação social desta América também derivava do sentido da colonização. Desse modo,
comportava fundamentalmente dois grupos: senhores e escravos africanos. Todos os demais grupos
sociais da população seriam personagens marginais daquele canavial. Nisto se resumia o que se
entendia como sociedade escravista nos tempos modernos. p. 107
4. Foi nas décadas de 1980 e 1990 que as explicações sobre a economia colonial assentadas na
proeminência do capital europeu receberam golpes decisivos.
Nova leitura proporcionada para as relações metrópole-colônia e
dos links entre economia colonial e Europa de fins do século
XVIII, quando Manolo Florentino (FLORENTINO, 1997; FRAGOSO,
1992; VERGER, 1987) demonstrou, em sua tese de doutorado,
que o controle do tráfico atlântico de escravos da época não
estava nas mãos do capital mercantil europeu, mas de
negociantes residentes na América lusa. p. 110
3. Modelos de Cario Prado e Celso Furtado - criticas
Na década de 1970, os modelos de Caio Prado e Celso Furtado começaram a ser alvo de críticas em
vários ensaios, dentre os quais se destacaram os no campo do marxismo, os de Ciro Cardoso e de
Jacob Gorender (CARDOSO, 1973; GORENDER, 1978).1 Ambos sublinharam ao menos duas
fragilidades nos argumentos daqueles modelos, relatadas a seguir. p. 108
1a fragilidade: O princípio teleológico
contido, principalmente, nas ideias de
Caio Prado - este e outros autores
explicavam a montagem da economia
colonial, processos dos séculos XVI e
XVII, a partir do que a economia
brasileira era na década de 1940. Para
Caio Prado, o Brasil de então se resumia
a uma economia agroexportadora
caudatária dos interesses externos ou
do imperialismo. Este mesmo princípio
teleológico, conforme seus críticos,
encontrava-se na ideia de explicar o
funcionamento da economia colonial
seiscentista como decorrente do que
ocorreria na Europa nos séculos
seguintes, XVIII e XIX, leia-se: a
Revolução Industrial. p. 108
2a. fragilidade: Outra crítica se referia à
ênfase dada à circulação das mercadorias
na determinação das formas sociais de
produção. Ciro Cardoso e Jacob Gorender
sublinhavam que o capital mercantil era
incapaz de caracterizar ou gerar formas de
produção, até porque comércio e
comerciantes são categorias existentes
em diferentes sistemas econômicos [...]
Em outras palavras, não somente existia
vida inteligente na Europa do
Renascimento, mas também na população
residente na sociedade da América lusa de
então e dos séculos seguintes. Afinal, até
que se prove o contrário, senhores de
escravos, índios, escravos negros e
mestiços também possuíam mais de dois
neurônios e com eles agiam e interferiam
na história de suas comunidades. p. 108
5. Teoria da dependência em duvida:
Pouco tempo antes, provei que outros segmentos da dita economia na passagem do século XVIII para
o XIX também eram controlados pela mesma comunidade de negociantes da Praça do Rio de Janeiro.
Além disso, começou-se a demonstrar que a economia era mais do que uma plantation exportadora,
existia um circuito de mercados internos disseminados pela América. Mesmo nas regiões até então
vistas como açucareiras, como o recôncavo baiano, observou-se a existência de áreas dedicadas à
lavoura mercantil de alimentos. O conjunto desses resultados colocou dúvidas sobre uma série de
hipóteses a respeito da dependência. p. 110
6. A análise teleológica e o risco do anacronismo
Ainda hoje, diversos pesquisadores partem para estudar a América lusa profunda com
concepções construídas para o século XIX. Talvez bons exemplos disso sejam os estudos
sobre elites sociais, plantations, mestiçagem, sociabilidades escravas e alforrias. É
valido que tais ideias sejam hipóteses iniciais, desde que se tenha certo cuidado para
não cair, nas palavras do Professor Fernando Novais, no pior dos pecados do
historiador: o anacronismo. Por exemplo, nunca é demais lembrar que no século XIX a
ideia corrente sobre escravidão era diferente daquela vigente no século XVII. p. 110
Foi com muito custo e depois de bastante tempo que percebemos que a América não era um simples
canavial, habitado por prepostos do capital mercantil e semoventes (escravos), conectado à
humanidade apenas por rotas comerciais. p. 111
7.População economicamente ativa da colônia lusa na América
Eramprincipalmente essas 35.802 pessoas que davam vida à economia açucareira de base escravista,
às lavouras de alimentos e aos currais de gado. Este reduzido número de habitantes assegurava a
existência de metade do território do Estado do Brasil de então. Essa população, inferior aos 100 mil
habitantes de Nápoles de fins do século XVI, estava em um território superior ao do império europeu
dos Áustrias da mesma época. p.112
8. Dinâmica da economia local dos mortos
Podemos ter uma ideia do significado destas decisões pias sobre o funcionamento da economia
desta cidade quando comparamos o valor declarado nas determinações testamentárias (terça) feitas
na freguesia da Candelária - área habitada por donos de plantations e, principalmente, por grandes
negociantes, nos anos de 1674 e 1675 - com o total dos bens (engenhos de açúcar, sobrados, terras)
negociado nos cartórios da cidade. O equivalente a 40% do valor dos negócios registrados em
cartórios iam para missas, igrejas e irmandades pias (FRAGOSO, GUEDES, no prelo). Assim, parte
significativa da riqueza social era destinada para o além-túmulo na forma de missas ou de vínculos.
Ao que parece, esta economia tinha os seus investimentos comandados pelos mortos, e não tanto
pelo capital mercantil europeu. p. 113
9. O mercado de consumo de bens europeus América era ainda
protoindustrial e o seria ainda por muito tempo, como mais uma vez os
testamentos informam.
Quanto à América lusa como mercado de
manufaturados europeus, mais uma vez os
testamentos podem nos ajudar. Na primeira
década do século XVIII, camisas, vestidos, lençóis e
utensílios domésticos eram vistos como bens
preciosos e doados como tal nos testamentos a
entes queridos como filhos, irmãos e amigos
10. Enfim, há
indícios de que o
mundo até então
escondido pelos
modelos explicativos
de meados do século
XX era diferente e
mais complicado do
que uma economia
exportadora
comandada pelo
“capital mercantil
não residente”.
12: A monarquia pluricontinental como hipótese de trabalho P.117
Ao contrário da Monarquia dos Áustria espanhóis, nas terras lusas dos Avis - depois dos Bragança -
existia apenas um reino e várias conquistas disseminadas pela América, África e Ásia. Nas terras
portuguesas o rei era, como na monarquia hispânica, cabeça do corpo social e também não se
confundia com ele. Leia-se: a exemplo de outras arquiteturas políticas da Europa Moderna, a portuguesa
era polissinodal e corporativa, portanto existia concorrência e negociação entre seus poderes.
Na monarquia brigantina existiam as conquistas no além-mar, e a organização destas últimas era feita
pela administração periférica da coroa e, em especial, pelos municípios. Ou ainda, entre a coroa e o as
elites locais situadas nos municípios das conquistas existiam negociações e pactos políticos (CUNHA,
MONTEIRO, 2005; FRAGOSO, GOUVÊA, 2009; MONTEIRO, 2010). Em outras palavras, no reino ou em
Portugal, os poderes concorrentes na monarquia polissinodal consistiam na administração da Coroa, no
poder senhorial e no municipal. Já nas conquistas, o poder senhorial, na forma das donatarias,
progressivamente foi eliminado pela sua incorporação ao patrimônio régio
13. COMPLEMENTARIEDADE
Como afirmei há pouco, a municipalidade cuidava do bem comum, dos assuntos do dia a dia, cabendo à
Coroa defender e dirimir os conflitos dentro da monarquia. A hipótese de conexão e
complementaridade entre tais conceitos parece-me essencial, especialmente para a América lusa, pois
evita confundir poder local com localismo. Ao mesmo tempo, no momento em que a Coroa conferia
autonomia aos conselhos e assegurava a legitimidade das normas locais e de uma hierarquia social
costumeira, possibilitava a fluidez da vida nas comunidades lusas espalhadas pelos vários cantos do
planeta. Aquele autogoverno dos conselhos dava um aparato institucional a uma monarquia que
convivia, por se espalhar pelo mundo, com diversas realidades culturais e sociais, permitindo-lhe
resolver os problemas comuns aos impérios ultramarinos e multiculturais. P.120