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Coordenação
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Coordenação
O processo da coordenação
O processo gramatical da coordenação consiste em ligar duas ou mais estruturas por um operador (designado conjunção coordenativa na gramática tradicional), de tal modo que as expressões que são coordenadas desempenham conjuntamente uma função sintática na frase em que se inserem, se bem que seja possível coordenar constituintes de diferentes categorias. Exemplos:
Mais de metade dos rapazes e raparigas que se encontram nesta sala são açorianos.
(coordenação copulativa de nomes)
O Paulo fez um desenho ou escreveu um poema.
(coordenação disjuntiva de sintagmas verbais ou de frases, consoante a análise sintática)
O Paulo anda a precisar de boa alimentação e de muito repouso.
(coordenação copulativa de sintagmas preposicionais)
O Algarve é procura pelas suas praias e o Minho é apreciado pelas suas paisagens.
(coordenação copulativa de frases independentes)
Os fogos de Verão são um flagelo que a todos atinge e de que muitos são responsáveis.
(coordenação copulativa de frases encaixadas – orações relativas)
Em todas estas estruturas o constituinte resultante da coordenação tem no seu conjunto a mesma função sintática que teriam os constituintes que são coordenados, se ocorrerem isoladamente.
Na tradição gramatical greco-latina, o processo da coordenação surge normalmente associado apenas a estruturas frásicos. Neste quadro limitado, definem-se geralmente cinco tipos de estruturas de coordenação (frásica): copulativa (ou aditiva), disjuntiva (ou alternativa), adversativa, conclusiva e explicativa. Iremos concentrar-nos nas construções coordenadas copulativas e disjuntivas (frásicas ou não).
Coordenação copulativa e disjuntiva
No que respeita à sintaxe, deve-se acentuar que a coordenação copulativa e a coordenação disjuntiva podem aplicar-se a várias categorias de expressões. No que respeita ao plano semântico, as expressões coordenadas copulativa e disjuntivamente contribuem de forma autónoma, com a totalidade do seu significado, para a interpretação semântica das frases em que se inserem. Convém, no entanto, ter presente que, em certos casos de coordenação copulativa de estruturas nominais, se verifica um processo algo complexo de composição dos valores semânticos das expressões coordenadas, o qual dá origem às chamadas leituras grupais, que contrastam com as chamadas leituras distributivas.
A Rita comprou um carro.
A Rita e o Paulo compraram um carro.
Na segunda frase, a função sintática de sujeito é desempenhada pelo sintagma nominal a Rita e o Paulo. Assim sendo, podemos dizer que os sintagmas nominais a Rita da primeira frase e a Rita e o Paulo da segunda são equivalentes no que respeita à sua função sintática. No plano semântico, a frase (7) é ambígua, na medida em que pode significar que o Paulo e a Rita compraram um carro juntos ou que cada uma comprou o seu carro. Podemos considerar que a conjunção coordenativa e está a desempenhar uma de duas funções: ou está a permitir a referência a uma entidade coletiva formada a partir das entidades Rita e Paulo, entidade essa que é o comprador de um carro – leitura grupal –, ou está a permitir que a propriedade de comprar um carro se aplique tanto à Rita como ao Paulo, tomados independentemente um do outro – leitura disjuntiva. A primeira destas possibilidades de interpretação semântica de estruturas coordenadas, que pode ser objeto de um tratamento em termos matemáticos, parece restringir-se à coordenação de sintagmas nominais.
Acerca da coordenação copulativa, diremos ainda que ela pode ser efetuada mediante outros conectores – muitos dos quais constituídos por mais de uma unidade gráfica e por isso tradicionalmente designados locuções conjuncionais –, para além de e. Alguns operadores são provavelmente estruturas complexas que envolvem processos anafóricos. Exemplos com nem:
O Paulo não conhece a Ana nem a Rita.
*O Paulo conhece a Ana nem a Rita.
Ninguém conhece a Ana nem a Rita.
Não venho almoçar nem venho jantar.
É importante salientar dois aspetos do comportamento do operador nem. O primeiro é que nem só pode ser usado quando ocorre uma expressão com uma marca negativa, como não ou ninguém. O segundo é que nem tem de ser substituindo pelo coordenador e seguido do operador de negação, isto é, pela sequência e não. Exemplos:
O Paulo conhece a Ana e não (conhece) a Rita.
Venho almoçar e não venho jantar.
Com tanto trabalho, almocei e não jantei.
O operador de negação não e o coordenador nem podem ser livremente substituídas por frases em que se empregue o operador descontínuo nem… nem. Do ponto de vista da sua semântica, este operador pode ser interpretado tanto copulativamente como disjuntivamente. Exemplos:
O Paulo não conhece nem a Ana nem a Rita.
Nem venho almoçar nem venho jantar.
Com tanto trabalho, nem almocei nem jantei.
Exemplos com outros coordenadores:
Serão restaurados alguns monumentos, assim como algumas casas de habitação.
O Conselho criticou o conteúdo dos programas, bem como o horário da sua difusão.
A comissão vai analisar não só os depoimentos dos inquiridos, mas também pareceres de especialistas.
Passando à coordenação disjuntiva, analisaremos o seu funcionamento sintático e semântico, cingindo-nos ao operador simples ou e ao operador descontínuo ou…ou. Exemplo:
Não sei se o proprietário pensa reconstruir o edifício ou deixá-lo arruinar-se.
Tal como a coordenação copulativa, há uma função sintática desempenhada pela expressão resultante da coordenação. Assumindo que estamos perante uma coordenação de orações, esta função é a de complemento (direto) do verbo pensar.
No que respeita ao plano do significado, podemos dizer que o valor semântico da expressão resultante de uma coordenação disjuntiva se pode definir, informalmente, como uma alternativa entre os valores das expressões coordenadas. Assim, em (21), afirma-se que uma dada entidade – referida por o proprietário – está perante a alternativa de reconstruir o edifício ou deixar o edifício arruinar-se, desconhecendo o enunciador as suas intenções. Neste caso concreto, em virtude do conteúdo proposicional, os dois termos da alternativa excluem-se mutuamente, pelo que diremos que se trata de uma estrutura de disjunção exclusiva. Exemplos:
Ou o Paulo passa no exame ou tem de repetir o ano.
Só há duas hipóteses: ou o Governo cai ou o Governo mantém-se.
Casos existem em que os termos da alternativa não se excluem necessariamente – são os casos de estrutura de disjunção inclusiva. Exemplos:
Podes ouvir música, ou ler, ou passear no jardim, ou fazer o que te der na real gana.
Leva do que quiseres, peras ou maçãs.
Os candidatos deverão ter um curso superior de Gestão ou cinco anos de experiência profissional adequada.
Até agora, fizemos coordenações disjuntivas de orações finitas ou infinitivas e de sintagmas nominais (sem e com determinante). Vejamos agora exemplos do mesmo tipo de coordenação entre expressões de outras categorias ou subcategorias:
Os estudantes, professores ou funcionários que pretendam participar na excursão devem dirigir-se à secretaria da Escola.
(coordenação disjuntiva de nomes)
Trata-se de um livro sobre a Idade Média ou sobre o Renascimento, não estou bem certo.
(coordenação disjuntiva de sintagmas preposicionais)
A campanha visava a proteção dos edifícios históricos ou pitorescos da zona.
(coordenação disjuntiva de sintagmas adjetivais)
Passaremos agora a referir algumas das condições para a boa formação das construções coordenadas copulativas e disjuntivas. A primeira é a condição de compatibilidade entre os constituintes coordenados, e é aplicável em todos os casos; a segunda é a condição de preservação de propriedades semânticas ou sintáticas dos constituintes coordenados, e apenas diz respeito à coordenação de expressões predicativas (verbais, adjetivais ou nominais); finalmente, a terceira é a condição de observação de restrições aplicáveis aos constituintes coordenados, e diz respeito aos casos em que a estrutura coordenada é selecionada por uma expressão predicativa.
Ao referir-se a existência da primeira das condições, quer-se dizer que nem tudo pode ser coordenado numa língua natural. Existem incompatibilidades, que podem ser tanto de ordem semântica como de ordem sintática. Vejamos uma incompatibilidade de tipo semântico:
O Paulo é o nosso candidato e continuará a sê-lo.
*O Paulo é o nosso candidato e passará a sê-lo.
Vejamos agora dois exemplos, o primeiro de uma incompatibilidade semântico-sintática e o segundo de uma incompatibilidade estritamente sintática:
*Este rapaz é americano e o professor de inglês da minha irmã.
*O Paulo acha a Ana simpática e que a Rita é antipática.
Parece-nos que o tipo de coordenação que ocorre no primeiro exemplo é de difícil aceitação. Igualmente nos parece que os falantes evitarão a coordenação do segundo exemplo.
Passaremos agora à segunda das condições. Exemplo:
*A Sara dirigiu-se e falou com o diretor.
O que se passa nesta frase é que se pretende que o sintagma preposicional com o diretor funcione como argumento simultaneamente do predicado verbal dirigir-se e do predicado verbal falar. Tal duplo funcionamento não pode verificar-se. Uma estratégia de obtenção de uma estrutura gramatical é a pronominalização:
A Sara dirigiu-se ao diretor e falou com ele.
Resta-nos dar um exemplo de agramaticalidade relacionada com a condição de observação de restrições aplicáveis aos constituintes coordenados.
*O Paulo está ansioso por ir para férias e em passar os dias de papo para o ar.
A razão por que nesta frase se viola a terceira das condições reside no facto de se coordenarem dois sintagmas preposicionais, dos quais apenas um é introduzido pela preposição requerida para esse argumento, por. Exemplos gramaticais:
O Paulo está ansioso por ir para férias e por passar os dias de papo para o ar.
O Paulo está ansioso por ir para férias e passar os dias de papo para o ar.
Problemas de compatibilidade entre constituintes coordenados
As razões da incompatibilidade podem ser de ordem semântica ou sintática ou, ainda, envolver os dois planos.
«Neste número desta sua revista, os nossos repórteres seguem o itinerário labiríntico da trama dos impostos. Como tem sido e vai passar a ser.»
Verifica-se neste primeiro caso uma incompatibilidade estritamente semântica estre os constituintes coordenados. A estrutura anómala constitui uma oração relativa com pronome relativo como e sem antecedente expresso. O sujeito desta oração é uma categoria vazia ligada pela expressão o itinerário labiríntico da trama dos impostos.
*como tem sido e vai passar a ser
o modo como [o itinerário labiríntico da trama dos impostos] tem sido e vai passar a ser
Em qualquer dos casos, estamos perante uma coordenação de dois sintagmas verbais complexos, que constituem predicações acerca da mesma entidade (o itinerário). O problema da coordenação está nos valores aspetuais introduzidos pelos verbos auxiliares dos sintagmas verbais em causa. No primeiro, exprime-se a continuidade de um determinado estado de coisas, enquanto no segundo se exprime o início de um estado de coisas. É obviamente um contrassenso aplicar estes dois valores aspetuais a uma única expressão predicativa aplicada a uma única entidade. Exemplos:
*As coisas têm corrido bem e vão passar a correr bem.
*O itinerário tem sido sinuoso e vai passar a ser assim.
Compare-se com as frases que se seguem:
As coisas têm corrido mal e vão passar a correr bem.
As coisas têm corrido bem e vão passar a correr assim.
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- Dificuldades do Português Gramática (Estruturas de Coordenação) Note on Coordenação, created by Mariana Verdial on 13/01/2025.
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- Mariana Verdial
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