Notes
Unidade 2
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O que é texto?
Objetivo
Desenvolver e explorar o conceito de texto, analisando suas perspectivas de formação de sentido no processo de criação e organização.
Depois de nossas considerações acerca do processo de escrita, vamos abordar o significado do texto.
“Redija um texto”, “leia o texto a seguir”, “o texto está ilegível” – com certeza, você já teve contato com esses enunciados e acatou o que estava sendo solicitado ou informado. Todos realizamos a tarefa porque, bem ou mal, entendemos o que significa. Mas e se você tivesse de conceituar, como faria? São várias as possibilidades.
2.1 Compreendendo o conceito de texto Hoje, dispomos de leituras mais abertas quanto ao conceito de texto, mas sua origem remonta ao vocábulo latino textu, que significa tecido, ou seja, a uma peça cuja consistência depende do bom entrelaçamento de vários fios. Medeiros (2008, p. 137) diz que “[...] a imagem de tecido contribui para esclarecer que não se trata de feixe de fios (frases soltas), mas de fios entrelaçados (frases que se inter-relacionam)”.
Por consequência dessa definição, entendemos texto como o campo da página escrita – por exemplo – cujos fios (as palavras) estão dispostos em uma ordem coerente, e que independe da sua extensão. Vejamos como isso funciona na prática.
Talvez você more em um apartamento, que fica dentro de um condomínio. Todos os dias, ao se aproximar do portão, você vê a placa onde está escrito “não buzine”. Trata-se de um texto? Sim. Por se tratar de um lugar onde residem várias pessoas e que exige certas normas de conduta social, entendemos que a placa solicita bom senso a quem se aproxima, para que produza o menor ruído possível. A unidade de sentido, portanto, está concretizada. Mas e se em vez da frase escrita estivesse apenas a figura de uma buzina com a tarja de proibido sobreposta, seria um texto? Sim, pois o signo na placa, tal como as letras, indica-nos algo cujo sentido é compreensível.
Por outro lado, digamos que você esteja caminhando pelo centro da cidade e vê a mesma palavra, buzina, pichada num muro, ou mesmo o desenho de uma buzina. Trata-se de um texto? Pergunte-se: a relação de sentido se mantém?
Como não estamos mais no ambiente condomínio, que evoca os cuidados a que nos referimos antes (residência, família, silêncio), e trata-se apenas de um muro, o sentido não se efetiva. Não podemos captar a intenção comunicacional do autor da pichação nem por ela mesma nem pelo contexto que a cerca. Talvez na cabeça do autor aquilo faça muito sentido, mas seria apenas especulação de nossa parte. Não há interação comunicativa específica, que é o segundo movimento a que Medeiros (2008) faz referência.
Podemos, a partir desses breves exemplos, concluir que o significado não é autônomo. Para que ele se efetive, é preciso considerar o contexto onde ele se insere.
Assim, podemos apreender que o significado das partes que compõem um texto está atrelado às correlações que elas mantêm entre si e, além disso, que o contexto concerne a uma unidade linguística maior, em que se encaixa uma unidade linguística menor, otexto.
Outro caso bastante analisado para estudar os conceitos de texto e contexto refere-se a uma crônica de Ricardo Ramos, intitulada “Circuito fechado”, constante no livro de mesmo título, publicado pela primeira vez em 1972. Vejamos:
Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, telefone, agenda, copo com lápis, caneta, blocos de notas, espátula, pastas, caixa de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales, cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis. Relógio. Mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta, projetos de filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro-negro, giz, papel. Mictório, pia, água. Táxi. Mesa, toalha, cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa, guardanapo. Xícara. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Escova de dentes, pasta, água. Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista, copo de papel, cigarro, fósforo, telefone interno, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço, relógio, maço de cigarros, caixa de fósforos. Jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres, guardanapos. Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, externo, papéis, prova de anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e caneta, telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara, jornal, cigarro, fósforo, papel e caneta. Carro. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Paletó, gravata. Poltrona, copo, revista. Quadros. Mesa, cadeiras, pratos, talheres, copos, guardanapos. Xícaras, cigarro e fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e fósforo. Televisor, poltrona. Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa, sapatos, meias, calça, cueca, pijama, espuma, água. Chinelos. Coberta, cama, travesseiro.
E agora? É apenas uma lista de palavras ou há conexão entre elas?
Como você deve ter notado, a sequência de substantivos mostra a rotina de um homem ao longo de um dia, desde o momento em que sai da cama, vai ao banheiro, toma café, começa o seu trabalho, paga contas, vai ao banheiro, lê o jornal, descansa, volta ao trabalho, dirige, olha quadros, janta, volta, assiste à tevê, toma banho e se deita. Temos então um texto cujo contexto desvendamos por interpretação. De certo modo, é parecido com um poema bastante famoso de Augusto de Campos, poeta brasileiro do movimento concretista, em que a palavra lixo, grande, está escrita com a palavra luxo, repetidamente, e em formato menor.
Figura 2 – Luxo, poema de Augusto de Campos, 1966. Fonte: www.cibercultura.org.br
Também via interpretação, trata-se de um texto que questiona valores, que demanda outro texto – ou seja, quer que estabeleçamos uma relação entre um e outro vocábulo. É um texto que expõe a relação entre ambos os termos e comunica algo como “quanto mais luxo, mais lixo”, e faz com que pensemos criticamente, por exemplo, na sociedade em que vivemos. Assim, escreve-se um texto para participar de um contexto maior, ao qual se faz referência.
Texto é uma unidade concreta que percebemos pela visão, pela audição e até mesmo pelo tato (considere o sistema de Libras), e implica uma situação de comunicação de uma mensagem cuja extensão é variável, podendo formar-se por apenas uma palavra ou pela articulação de várias. Em termos genéricos, contexto é uma coisa grande em que cabe uma coisa pequena!
Fiorin e Savioli (2006) explicam que, em um texto, o significado de uma parte não é autônomo, no sentido de que depende das outras com que se relaciona. Assim, o significado global não é simplesmente resultado da soma de suas partes, mas de certa combinação geradora de sentidos. E daí percebermos o conceito implícito de contexto. Ou seja, devemos sempre levar em conta o contexto em que está inserida a passagem do texto a ser lida, entendendo-o como uma unidade linguística maior em que se encaixa uma unidade menor.