GoConqr has a new look! Let us know what you think.

Notes

Morfologia e Morfossintaxe

Mariana Verdial Gramática Dificuldades do Português Portuguese 1 page

Content of the notes (1)

Page 1

Dificuldades relacionadas com a morfologia e a morfossintaxe

PARTE I: QUESTÕES DE FLEXÃO (NOMINAL) EM NÚMERO

Dificuldades na flexão de substantivos com certas terminações (no singular): -n, -r, -x, -l, -s, -ão.

Anomalias na formação do plural de palavras terminadas em n

Regra geral (portuguesa e brasileira): adição de -es

Hífenes, abdómenes, pólenes, dólmenes, gérmenes, líquenes, édenes; mórmones, néones, plânctones, mícrones, cânones, cólones; ímanes

Regra alternativa (só brasileira): adição apenas de -s

Hifens, abdomens, polens, dolmens, germens, liquens, edens [só PB]

[erros ortográficos: hífens, abdómens, pólens, dólmens, gérmens, líquens, édens]

Mórmons, néons, plânctons, mícrons, cânons, cólons [só PB]

- Formas terminadas em -en

Plurais sem acento gráfico (inválidos em PE, OK em PB):

“Mas no caso da época do megalitismo (dos dolens, das antas…), Portugal é um caso único (…).”

“O micro-ondas cria uma atmosfera sob pressão (…) que aniquila os germens.”

Plurais com acento gráfico (inválidos tanto em PE como em PB):

“Dispersos pela região, é ainda possível encontrar antas e dólmens (…).”

“O nosso sistema político tem, em si, os gérmens da instabilidade.”

“(…) os pólens que andam no ar na Primavera são responsáveis pela maior parte dos casos.”

“Na continuação lógica de muros cobertos de líquens (…).”

- Formas terminadas em -on

Plurais sem acento gráfico (inválidos tanto em PE como em PB):

“(…) entre o chão e o céu os neons derramam luz (…).”

“Todos os mormons vão, na juventude, dois anos para um país estrangeiro como missionários.”

Plurais com acento (inválidos em PE, OK em PB):

“E será a partir daqui que (…) se consolidará, mais tarde, a grande de Las Vegas, cidade de néons e de casinos (…).”

“Seis mulheres mórmons (…) esmeraram-se a responder às perguntas de uma plateia estarrecida (…).”

- Formas terminadas em -na (PE: íman, plural ímanes =/= PB: ímã, plural ímãs)

“Li Jun (…) diz que os ímans de frigorifico pintados à mão (…) estão a vender-se aos milhares.”

Cf. ainda aportuguesamento putativo das formas inglesas slogan (slôgan, plural slôganes) e vegan (végan, plural véganes).

Anomalias na formação do plural de palavras esdrúxulas terminadas em -n ou -r

Regra geral (portuguesa e brasileira): adição de -es e avanço do acento uma posição

Avanço do acento para evitar a formação de palavras sobresdrúxulas, não previstas nos acordos ortográficos. Porém, só as primeiras das quatro formas abaixo têm algum uso.

Espécimenes, ipsílones [PLURAIS DE PALAVRAS ESDRÚXULAS TERMINADAS EM -N]

Lucíferes, jupíteres [PLURAIS DE PALAVRAS ESDRÚXULAS TERMINADAS EM -R]

Regra alternativa (só brasileira): adição apenas de -s

Só se aplica a palavras terminadas em -n. Neste caso, a forma resultante é esdrúxula e, logo, sempre acentuada.

Espécimens, ípsilons [só PB]

Com a possível exceção de especímenes, as formas com deslocação do acento são claramente pouco usadas e consideradas estranhas pela generalidade dos falantes.

Por vezes, mas nem sempre, há alternativas que permitem evitar o problema. Por exemplo, no caso de especímenes, pode recorrer-se à substituição pela forma sinónima espécimes; no caso de ipsílones, pode optar-se pela forma yy (já que a duplicação de letras é uma forma canónica de pluralização – cf. os hh [os agás]).

- Espécimen, ípsilon (y)

Grafia inválida com formas nominais sobresdrúxulas

“(…) são corais cuja existência estava datada (…) do período geológico Ordoviciano, (…) a partir de espécimenes encontrados na América do Norte (…).”

Grafia só brasileira com plural -ns (formas nominais esdrúxulas)

“(…) fotografaram e capturaram espécimens vivos, que estão agora a estudar no laboratório.”

“Os pontinhos em forma de seta e de ípsilons vão desaparecer todos.”

Representação simples da letra (grafia inválida)

“Os Y [cromossomas] do mundo são tão semelhantes que alguns biólogos creem num Adão universal, que poderá ter vivido há apenas 60 000 anos.”

- Júpiter

Grafia inválida com formas nominais sobresdrúxulas (OK com aspas ou itálico?)

“Estas observações permitiram à equipa detetar uma variedade de objetos, como «Júpiteres quentes» (…).”

“Os astrónomos chamam os gigantes de gás quente de «Júpiteres quentes», (…) estão localizados a uma distância entre 2,2 e 75 milhões de quilómetros das suas estrelas.”

Grafia inválida com forma nominal grave

“Mesmo que só existem Jupiteres Quentes, como as centenas que já conhecemos, estes dois destacam-se por terem órbitas excêntricas (…).”

Não pluralização (sintaxe não canónica)

“Os grandes Júpiter próximos das estrelas dão antes a impressão de se aparentar a estrelas duplas (…).”

Dois casos especiais: o plural de júnior/sénior e caráter (palavras graves)

As palavras júnior e sénior constituem um caso especial, em que as formas canónicas de plural, com deslocação de duas posições do acento – juniores / seniores -, são ainda muito frequentes. Porém, muitos falantes (da variedade padrão) pronunciam as formas plurais como sobresdrúxulas, isto é, como júniores e séniores.

Grafia inválida com formas nominais sobresdrúxulas

“Ontem realizaram-se igualmente as finais de pares femininos, júniores masculinos e femininos.”

“Ana Maurício, vencedora da categoria feminina de séniores, não conteve as lágrimas (…).”

A palavra grave caráter ou carácter (quer no sentido de “feitio moral”, que no sentido de “letra/símbolo”) tem um plural canónico com deslocação do acento – caracteres, sendo desviante da forma regular, esdrúxula, carácteres.

“Mas, o mais curioso é que o embate de homens com fortes carácteres tende a relegar para segundo plano as considerações de ordem económica (…).”

“O filme é uma dramatização dos personagens, dos seus carácteres, feitas pelo escritor.”

Anomalias na formação do plural de palavras terminadas em x

O plural das palavras terminadas em -x é uma questão complexa, não totalmente estabilizada na gramática portuguesa. A regra mais conservadora parece ser a que prevê formas plurais idênticas aos singulares, pelo menos nas palavras graves. Para algumas palavras, está considerada a possibilidade de plural com a terminação -ces (frequentemente, mas nem sempre, associado a formas alternativas singulares terminadas em -ce).

“As restantes apresentações são feitas sem clímaxes.”

Anomalias na formação do plural de palavras terminadas em l

Regra geral: adição de –(i)s (e queda de l; razões históricas)

Avental > aventais; papel > papéis; funil > funis

Exceções (plural com adição simples de -es):

Palavras monossilábicas como mel/méis ou meles, fel/féis ou feles, til/tis ou tiles, ou algumas palavras dissilábicas, como aval/avales, cônsul/cônsules.

“(…) com ou sem avais do Estado, o problema da Casa do Douro está longe de poder ser resolvido.”

“A celebração de um novo contrato é (…) consequência da [sic] Rio Cocon não ter apresentado os necessários avais financeiros.”

NB1: as formas inglesas pixel/pixels (em vez dos aportuguesamentos píxel/píxeis) requerem aspas ou itálico; grafias inválidas abaixo:

“O DCC mais não é do que um chip (…) que contém uma enorme quantidade de pequenas regiões sensíveis à luz, chamadas de pixels. Os mais recentes DCCs podem ter mais de um milhão de pixels (…).”

NB2: álcool tem plural regular álcoois [cf. acentuação gráfica, como esdrúxula]; grafias inválidas abaixo:

“Espaçoso, bem guarnecido de vinhos e outros alcóois (…).”

“Noite de (…) mistura (…) de (…) alcóois vulgares, fumos nicotínicos e outros.”

“Quando grupos de populares carregam nos alcoois e vêm fazer desacatos (…).”

Anomalias na formação do plural de palavras terminadas em s

Duas formas de pluralização: algumas destas palavras são invariáveis, outras são variáveis formando o plural com adição de -es.

Lápis, ténis, parêntesis1, cais, cós

Ás/ases, deus/deuses, ilhós/ilhoses2, filhós/filhoses2, revés/reveses, convés/conveses

Os desvios abaixo resultam de formação de plural em discordância com o subgrupo a que pertencem na variedade padrão.

“(…) o cais ficou repleto de velejadores que tiravam a camada de gelo sobre os convés das embarcações (…).”

“O processo foi complicado e houve alguns revés pelo caminho.”

“(…) calças de corte descontraído, com coses altos e pregas caracterizaram a coleção (…).”

1 Existe a variante singular parênteses, com o plural regular parênteses.

2 Existem as variantes singulares ilhó e filhó, com os plurais regulares ilhós e filhós, respetivamente; assim, as formas ilhós e filhós tanto podem ser singulares como plurais.

Anomalias na formação do plural de palavras terminadas em -ão

Questão complexa, já que há três formas de pluralização – cf. melão/melões, pão/pães, irmão/irmãos. Algumas palavras admitem apenas uma forma plural ao passo que outras admitem duas ou mesmo três. Os dicionários nem sempre coincidem nos registos e, adicionalmente, nem sempre registam formas com elevadíssima frequência (e.g. refrões).

Exemplos de formas em -ões não dicionarizadas:

- Formas que, alegadamente, só admitem plural -ães (ainda que alguns instrumentos registem também plurais em -ãos para algumas das formas): refrão/refrães, capelão/capelães

“No meio daquela instantânea informalidade, já toda a gente cantava os refrões em coro (…).”

“O assalto deu-se (…) numa altura em que nenhum dos capelões se encontrava na capela.”

- Formas que, alegadamente, só admitem plural em -ães ou -ãos: charlatão/charlatães, charlatãos

“A passagem para os quilogramas (…) abre caminho aos charlatões e oportunistas.”

- Formas que, alegadamente, só admitem plural em -ãos: cidadão/cidadãos, bênção/bênçãos

“Para a edificação daquela (…) mesquita (…), todos os cidadões do país foram «convidados» a contribuir.”

“Os diversos pastores (…) incitam os ouvintes (…) a (…) relatar as bênções que têm recebido (…).”

PARTE II – QUESTÕES DE FLEXÃO VERBAL – VERBOS IRREGULARES E DEFETIVOS

Anomalias por flexão regular de verbos derivados do verbo vir

Exemplos: advir, convir, intervir, provir; desavir-se

- Intervir

“Deveriam os Estados Unidos ter intervindo para repôr a democracia (…)?” [OK ter intervindo]

Quando [eu] intervi (…) no esforço de diálogo entre os presidentes (…), tive oportunidade de lhes dizer (…).” [OK intervim]

“Cerca de mil pessoas desmantelaram parte da casa (…) até que a polícia interviu.” [OK interveio]

“Outros incidentes registaram-se (…) quando os fuzileiros (…) interviram para acabar com uma troca de tiros.” [OK intervieram]

“A indústria (…) sofreu (…) uma (…) revolução graças à utilização dos enzimas [sic] – substâncias orgânicas que intervêem nas reações bioquímicas (…).” [OK intervêm]

- Convir

“«(…) [os britânicos] recusam (…) abandonar a regra da unanimidade», podendo assim bloquear o que não lhes convir.” [OK convier]

“(…) todos conviram que a manutenção da legalidade (…) se impunha (…).” [OK convieram]

- Provir

“Não será coincidência se o financiamento provir de corporações estatais anacrônicas.” [OK provier]

“O culpado (…) não escapará à responsabilidade, mesmo se o delito de que provêem os bens tiver sido cometido no estrangeiro.” [OK provêm]

“Teresa Gouveia (…) adiantou que mais de metade daquele montante provêem de fundos comunitários.” [OK provêm]

Anomalias por flexão regular de verbos derivados do verbo ver

Exemplos: antever, prover, rever

- Antever

“Talvez antevesse n’aquela alvorada de vida uma alegria suave, um sorriso de esperança.” [OK antevisse]

“(…) optou (…) por desvalorizar as más condições metereológicas [sic] que se antevêm para o dia de hoje.” [OK anteveem]

- Rever

“(…) Cuba foi o único país (…) em relação ao qual os Estados Unidos não reveram a sua política.” [OK reviram]

“O emprenho terá disso mútuo, visto que a administração reveu alguns pontos (…).” [OK reviu]

“(…) é composto por sovietes que (…) revêm as suas posições e aceitem eleições locais antecipadas.” [OK reveem]

- Prever

“Neste verão um grupo de cientistas preveu que em 150 anos o envelhecimento estaria controlado.” [OK previu]

“(…) a sede da FLB deverá estar pronta antes do final de 1995, embora o protocolo (…) prevesse a conclusão do edifício-sede em 94.” [OK previsse]

“No caso do vinho, como a delegação portuguesa prevera antecipadamente, nada de novo se passou (…).” [OK previra]

“Também não é isenta de críticas a integração dos serviços nas Universidades, uma vez que os estatutos (…) não prevêm esta possibilidade.” [OK preveem]

Anomalias por flexão regular de verbos derivados do verbo ter

Exemplos: conter, deter, manter, obter, reter; ater-se; entreter/entreter-se

- Reter

“Agora vamos pagar cerca de 700 mil pesetas (…) e mais o que já nos reteram na fonte.” [OK retiveram]

- Manter

“(…) os membros daquele organismo dos Doze mantiam ainda em aberto a possibilidade (…).” [OK mantinham]

- Deter

“Alex, o filho que a polícia deteu em plena luta de rua (…).” [OK deteve]

“A agente baleou Gomez no peito quando o detia por embriaguês [sic] pública (…).” [OK detinha]

“Sessenta quilómetro depois, cinco carros-patrulha da polícia detiam-no numa bomba de gasolina.” [OK detinham-no]

- Obter

“Já no final do ano, as ações do BCP obteram o registo na SEC (…).” [OK obtiveram]

“Lee (…) obtera o cargo (…) graças à influência do seu pai (…).” [OK obtivera]

“Ao que parece, (…) a câmara do Canal 1 não obtia as melhores imagens.” [OK obtinha]

- Entreter(-se)

“Quem quiser ver (…) o espetáculo (…) – que entreteu os visitantes daquele pavilhão durante os quatro meses da exposição (…) – pagará (…).” [OK entreteve]

“(…) ergueram (…) um muro, que depois de entreteram a deitar abaixo.” [OK se entretiveram]

“Os ritmos (…) afogam-se em descontinuidades (…), como [se] se apagassem de repente todas as luzes (…) com que nos entretíamos a esquecer a vida.” [OK nos entretínhamos]

Anomalias por flexão regular de verbos derivados do verbo fazer

Exemplos: desfazer, perfazer, refazer

- Desfazer

“(…) Aníbal Ferreira disse que, no caso de ganhar (…), desfazerá imediatamente o negócio.” [OK desfará]

“Antes, (…) a empresa desfazer-se-á da participação (…) que detém no capital da Sabena (…).” [OK desfar-se-á]

“Sir Tony disse-me que jamais se desfazeria do seu smoking Cerruti, porque lhe dá sorte.” [OK desfaria]

“Mas imaginem que a cena se passava (…) com algum dos nossos homens (…) do «jet set», e o figurão (…) desfazer-se-ia certamente (…) em três mil vocábulos de enternecedor diálogo!” [OK desfar-se-ia]

- Perfazer

“Os custos (…) serão suportados paritariamente pelos segurados (…) e pelo patronado e perfazerá um por cento do rendimento bruto mensal (…).” [OK perfarão]

“Em 1995, quando perfazeria 60 anos se estivesse vivo, Elvis não é só um dos maiores mitos de sempre da cultura popular americana.” [OK perfaria]

Flexão regular de verbos derivados do verbo valer

Exemplo: equivaler

- Equivaler

“Não bastaria dizer (…) «se deixar de comparecer estará sujeito(a) às penas da lei» ou algo que lhe equivala no jargão jurídico?” [OK equivalha]

Anomalias na flexão do verbo requerer

O verbo requerer tem flexão irregular, mas apenas no presente do conjuntivo, seguindo o paradigma de querer – requeira, requeiras, … -, e na primeira pessoa do singular do presente do indicativo, seguindo um paradigma próprio – (eu) requeiro. Nos restantes casos, comporta-se como um verbo regular.

“(…) o PCP (…) já requis ao Governo esclarecimentos sobre se tenciona cumprir aquilo a que está legal e politicamente obrigado.” [OK requereu]

“A primeira visa facilitar os mecanismos de desanexação de terrenos (…), quando os seus proprietários o requiserem.” [OK requererem]

“(…) eu tendo a procuração de causa própria [,] eu pago o imposto e requiro a escritura (…).” [OK requeiro]

“Estribado pois neste princípio, requero a V. Ex.a se sirva ordenar ao Coronel Comandante da guarnição se preste a qualquer requisição minha (…).” [OK requeiro]

Anomalias na flexão do verbo reaver

O verbo reaver é um verbo irregular derivado do verbo haver e não de ver ou vir, não se conjugando nunca como esses verbos; assim, são forma não padrão, por exemplo, (para que eu) reaveja, reavenha.

É ainda um verbo defetivo, que não se utiliza nem no presente do indicativo (com exceção das formas com v: [nós] reavemos, [vós] reaveis) nem no presente do conjuntivo. Para contornar as limitações daí decorrentes, pode recorrer-se a sinónimos ([para que eu] recupere) ou a formas infinitivas acompanhadas de verbos auxiliares ou afins ([para que eu] possa/consiga reaver).

São pouco usadas as formas com ouv (reouve, reouver, reouvera, rouvesse), mas são formas canónicas, de que há inclusive algumas abonações literárias.

“E se a tua consciência reouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres viver.”

“Na passagem do Santo para a igreja, muitos enfermos recuperaram a saúde, falaram os mudos, ouviram os surdos e reouveram os coxos o uso perdido dos seus membros.”

“(…) Carlos Soares (…) acrescentou que estavam em negociações com o BPA para que a Coelima reavesse as ações que ali estão (…).” [OK reouvesse]

“(…) se os sírios não reaverem os montes Golã, o Sul do Líbano continuará a ser um cemitério para os soldados israelitas.” [OK reouverem]

(…) só depois da revolução de 25 de Abril (…) o Santo António reaveu o que perdera durante o antigo regime.” [OK reouve]

“Quanto aos santos (…) e às santas (…), 38 deles não reaveram o seu aspeto original.” [OK reouveram]

Anomalias na flexão do verbo precaver-se

O verbo precaver-se é um verbo regular e não um verbo irregular derivado de ver ou vir, não se conjugando nunca como esses verbos; assim, são forma não padrão, por exemplo, (para que eu) me precavenha, me precaveja.

As formas de primeira pessoa do singular do presente do indicativo, segunda pessoa do singular do imperativo e todas as formas do presente do conjuntivo (formas rizotónicas, isto é, com a sílaba tónica na raiz do verbo) são consideradas por alguns autores como inexistentes (sendo precaver um verbo defetivo) e por outros como passíveis de utilização: [eu] precavo-me; precave-te; [para que eu] me precava, [para que tu] te precavas, …).

Para contornas as limitações daí recorrentes, pode recorrer-se a sinónimos ou a formas infinitivas acompanhadas de verbos auxiliares ou afins.

“A Holanda tenciona solicitar a todos os seus parceiros que se precavenham contra este drama terrível (…).” [OK se precavam; alternativa: se acautelem]

“Se for visitar a Áustria (…), precavenha-se com o Tempestade.” [OK precava-se; alternativa: acautele-se]

“É compreensível que os dirigentes da oposição se precavejam contra a tentativa do PSD de se livrar dos estigmas (…) do cavaquismo (…).” [OK precava-se; alternativa: acautele-se]

“O canal precavê-se em relação às apetências do grande público (…).” [OK precave-se; alternativa: acautela-se]

“(…) as pessoas não se precavêem e depois não têm possibilidade de se defenderem (…).” [OK se precavem; alternativa: se acautelam]

Anomalias de flexão de outros verbos irregulares ou verbos disputadamente defetivos

CASOS ENVOLVENDO VERBOS IRREGULARES

“Homens a quem caba a responsabilidade de dar vida às relações (…).” [OK caiba]

CASOS ENVOLVENDO VERBOS DISPUTADAMENTE DEFETIVOS (i.e. com formas alegadamente “inexistentes”)

Há forte variação nos registos – e reconhecimento – destas formas verbais em diferentes dicionários e dicionários de verbos conjugados.

“Resta esperar que ela não exploda.” [OK (disputadamente] expluda; alternativa: rebente]

“As belíssimas luzes de Spencer Brown iluminam e coloram de vermelho o vestido 2.” [OK (disputadamente) colorem; alternativa: atribuem coloração vermelha]

“O Estádio 2 está quase deserto, ganhando mais ênfase o listado horizontal verde e vermelho que o colora.” [OK (disputadamente) colore; alternativa: que é a sua coloração]

“(…) artistas que (…) são nomes cativos na Renascença, sendo previsível que reemerjam com destaque na TVI.” [OK (disputadamente) reemirjam]

“Nem por isso aquela classe (…) perderá predominância, por muitos que à sua roda emerjam (…) novos milionários (…).” [OK (disputadamente) emirjam]

“É necessário (…) recolher toda a informação (…), antes que as águas (…) submerjam os sítios datados da pré-história (…).” [OK (disputadamente) submirjam]

“Submerjamos, pois, e com convicção.” [OK (disputadamente) submirjamos]

PARTE III – ANOMALIAS NA ÊNCLISE E NA MESÓCLISE

Exemplos de ênclises e mesóclises gramaticais (algumas relativamente complexas):

“É preciso estabelecer constantemente essa base, e tu tem-lo feito melhor do que ninguém.”

“Este é um caminho que tem de começar por ser trilhado, e tem-no já sido, a partir da iniciativa daqueles que se sentem mais despertos para estas questões (…).”

“Nós visitávamo-lo com frequência (…).”

“-Precisamos de ver uma cópia desta mensagem.

-Sim, eu entregar-vo-la-ei – prontificou-se Reynir.”

Anomalias por uso das sequências verbo-clítico anómalas {r, s, z}-{lo, la, los, las} em vez das sequências correspondentes sem r, s ou z

Regra geral: uso das formas antigas dos pronomes acusativos (lo, la, los, las) e supressão (historicamente associada a fenómenos fonéticos de assimilação regressiva e queda) do grafema que representa o som final da forma verbal (r, s, z).

- com r: comprar + lo = comprá-lo

- com s: (eu) pus + lo = pu-lo; (tu) trazias + lo = trazia-lo

(tu) vês + lo = vê-lo; (tu) sabes + lo = sabe-lo

(tu) tens + lo = tem-lo; [mas (ele) tem + lo = tem-no]

(nós) visitamos + lo = (nós) visitamo-lo

- com z: (ele) faz + lo = fá-lo; (ele) prediz + lo = predi-lo

Exemplos com r (anomalias muito infrequentes)

“A Câmara não negra que tenha depositado os resíduos na saibreira, mas diz que, neste momento, está a retirar-los dali, e não a cobri-los.”

Exemplos com z (anomalias infrequentes)

“Esse tipo de desafio faz-lo saltar para a rua e salvar-se.” [OK fá-lo]

“Heidegger diz-lo mais simplesmente (…): para o homem ocidental, «o próprio mito é grego».” [OK di-lo]

“A D. Alzira sagazmente compreende-o e traduz-lo na sua sábia recomendação ao neto.” [OK tradu-lo]

Exemplos com s (anomalias mais frequentes)

“São professores, advogados, médicos, (…) e vemos-los mais ao nível associativo, na vida local (…).” [OK vemo-los]

“Tudo o que somos, somos-lo através de um corpo, o nosso.” [OK somo-lo]

“Esse Hermann, tínhamos-lo conhecido há sete anos, em «Heimat» (…).” [OK tínhamo-los]

Anomalias por uso da forma clítica o ou lo em vez de no a seguir a terminação nasal (-ão, -õe, -am, -em)

“Ele morde o isco e eles vão-o puxando para cima (…).” [OK vão-no]

“Não é novidade para ninguém que há montes de professores que (…) dão o programa todo de uma assentada (…), ou não o dão, ou dão-o mal.” [OK dão-no]

“São-o na impossibilidade de qualquer normalização das afetividades.” [OK são-no]

“Mais tarde, o «pai» põe-a fora de casa por não concordar com o namoro da jovem (…).” [OK põe-na]

“Atira-lhe com o presente e descompõe-o por nunca lhe prestar atenção?” [OK descompõe-no]

“As posições conservadoras tornam-o popular junto da ala dos velhos nacionalistas (…).” [OK tornam-no]

“(…) os assaltantes (…) juntaram os clientes e mandaram-os deitar-se no chão.” [OK mandaram-nos]

“Os toiros (…) passam por cima das malas, pisam-as e corneiam-as.” [OK pisam-nas e corneiam-nas]

“Esta certeza, tem-a Jorge Ferraz (…).” [OK tem-na]

“Foi um Verão a responder a anúncios, e tem-os ali todos, à mão.” [OK tem-nos]

“Mas Mandela também sabe, e tem-lo dito, que a população negra da África do Sul é relativamente afortunada (…).” [OK tem-no]

Anomalias por uso das sequências verbo-clítico -mos-nos (em vez de -mo-nos)

“Temos-nos dado bem com esse sistema nos jogos grandes (…).” [OK temo-nos]

“O país parece-me, sinceramente, posto em sossego. Mas não há como afastarmos-nos dele por uns tempos para chegarmos a esta curiosa conclusão.” [OK afastarmo-nos]

“Mas penso que é melhor sentarmos-nos e conversar sobre estas questões.” [OK sentarmo-nos]

“Fechemos os olhos e percamos-nos neste labirinto de harmonias que conduzem ao paraíso.” [OK percamo-nos]

“Detenhamos-nos um pouco sobre o ensaio (…) «Portugal na Europa: o caminho certo».” [OK detenhamo-nos]

Anomalias por uso de ênclise em vez de mesóclise com o futuro e o condicional

As formas de futuro imperfeito do indicativo e do condicional presente combinam-se com pronomes clíticos ou em próclise ou em mesóclise, nunca em ênclise, na variedade padrão do português europeu contemporâneo, que tem um comportamento diferente da variedade padrão do português brasileiro.

Exemplos de português brasileiro:

“Voltaria para um terceiro Governo de São Paulo e em seguida tornaria-se Senador.” [PE: tornar-se-ia]

“(…) o futuro presidente chamaria-se Luiz Inácio Lula da Silva (…).” [PE: chamar-se-ia]

“Eles operacionalizariam o módulo de comando (…) e dois deles se transfeririam para o módulo lunar (…), e operariam-no em meio ao ambiente sem peso do espaço pela primeira vez.” [PE: operá-lo-iam]

Há exemplos de ênclise com futuro e condicional em autores clássicos portugueses (e a construção parece existir em variantes dialetais contemporâneas e ter sido usada em frases mais antigas da língua):

“Contentaremo-nos com advertir que do contexto desta carta se colhe terem sido infrutuosas todas as diligências feitas ano e meio antes (…).”

“Consolaremo-nos eu e ela, orando por ti.”

“Naturalmente demorarei-me todo o Inverno em Lisboa.”

“Perderíamo-nos, sem por isso salvarmos a pobre desgraçada em que ele os olhos pôs (…).”

“Se fosse no Porto, saudaríamo-nos muito cerimoniaticamente e passaríamos.”

A mesóclise tem uma justificação histórica.

As formas de futuro e condicional derivam de uma combinação da forma infinitiva do verbo principal (e.g. comprar), (a que se pode aplicar o pronome acusativo lo, las, los, las, em ênclise) com uma forma, por vezes reduzida, do verbo haver (hei, hás, h[av]emos, h[av]eis, hão; h[av]ia, h[av]ias, …).

Logo por exemplo:

A. Comprar hei > comprarei

B. Comprar hia [= havia] > compraria

A. Comprar-lhe hei > comprar-lhe-ei

B. Comprar-vos hia [= havia] > comprar-vos-ia

Ênclises anómalas:

“Muitos dos nomes encontraremos-los também nas listas da Cruz Vermelha.” [OK encontrá-los-emos]

“Se os bósnios concordarem com este processo (…), nós apoiaremos-lo.” [OK apoiá-los-emos]

“Se fôssemos o ministro da Instrução Pública, (…) mandaríamos chamar o dr. Matoso, e encarregaríamos-los imediatamente de redigir o programa (…) do ensino da Física e da Química nos liceus portugueses.” [OK encarrega-lo-íamos]

“Segundo a Greenpeace, as energias doces «já são economicamente competitivas e seriam-lo ainda mais se se tomassem em conta os subsídios aos combustíveis fósseis».” [OK sê-lo-iam]

“Se as autoridades croatas o descobrissem, teriam-na recambiado sabe Deus para onde (…).” [OK tê-la-iam]

Notas sobre a combinação de dois pronomes clíticos (dativo + acusativo)

- me + lo, la, los, las > mo, ma, mos, mas

- te + lo, la, los, las > to, ta, tos, tas

- lhe + lo, la, los, las > lho, lha, lhos, lhas

- nos + lo, la, los, las > no-lo, no-la, no-los, no-las

- vos + lo, la, los, las > vo-lo, vo-la, vo-los, vo-las

- lhes + lo, la, los, las > lho, lha, lhos, lhas

Note-se que lho + lo não se distingue de lhes + lo, já que ambas as combinações resultam em lho. Mais genericamente: nestas formas contraídas com lhe, só se distingue o número do complemento direto, não o do complemento indireto.

Dar-lhe-emos o livro {a ele / a eles}

Dar-lhes-emos os livros {a ele / a eles}

Observe-se a seguinte anomalia (uso de nos-lo em vez de no-lo):

“(…) dar a significação de uma frase representa recorrer a outra frase (…), tal como a experiência quotidiana nos-lo ensina.”

Exemplos de uso canónico de contrações de dois pronomes:

“A cadeira é minha; emprestei-a, não ta dei.”

“O amor que ela viu nascer, que cultivou com alegria, não lhe era destinado; arrancar-lho-ão do seio (…).”

“Se os que te ofenderam viessem agora ajoelhar-te aos pés e implorar piedade, negar-lha-ias tu?”

“Querem os leitores acerca do caso Matoso a nossa humilde opinião? Dar-lha-emos, sem mastigar (…).”

“O nome não vo-lo direi.”

Information

Description
Dificuldades do Português Gramática (Morfologia e Morfossintaxe) Note on Morfologia e Morfossintaxe, created by Mariana Verdial on 13/01/2025.
Created by
Mariana Verdial
Views
0
Rating

Feedback

What is it about?

What do you think of the new look?

How do you like it?