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Onipotência Divina
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Esclarecendo o porquê falar de Onipotência e Bondade
O problema do sofrimento em sua forma mais simples é: “ Se Deus fosse bom, Ele desejaria fazer suas criaturas perfeitamente felizes, e se Deus fosse todo-poderoso poderia fazer tudo o que quisesse. Mas as criaturas não são felizes. Portanto, falta a Deus bondade, poder, ou ambas essas coisas". A ideia para refutar essa proposição é de imediato se perguntar o que significa ser bom, todo-poderoso e feliz fora da ideia do senso comum, mas de acordo com uma visão mais completa desses termos. E é isso que analisaremos nos próximos capítulos, isto é, a bondade e a onipotência de Deus.
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Onipotência Divina
Onipotência significa "poder para fazer tudo, ou todas as coisas". No entanto, podemos pensar que Deus poderia fazer isso ou aquilo se quisesse, mas ao mesmo tempo sabemos que aquilo é impossível de Deus fazer. Surge ai o problema da impossibilidade. No uso ordinário da palavra, impossível geralmente subentende uma cláusula suprimida iniciada com as palavras "salvo se", ou "exceto", ou ainda "a não ser que". Assim, é impossível para mim ver a rua de onde estou sentado escrevendo agora; isto é, é impossível ver a rua salvo se eu subir ao andar superior de onde posso olhar por cima do prédio que interfere com a minha visão. Dando mais um passo então, quanto a compreensão da impossibilidade, temos que é, de qualquer forma, impossível ver a rua enquanto eu permanecer onde estou e o prédio intermediário continuar onde está.
O absolutamente impossível pode ser também chamado de intrinsecamente impossível porque leva consigo a sua impossibilidade, em lugar de tomá-la de empréstimo de outras impossibilidades que, por sua vez, dependem de outras ainda. Ele não contém qualquer cláusula do tipo "salvo se". É impossível sob quaisquer condições e em todos os mundos e para todos os agentes. "Todos os agentes" aqui inclui o próprio Deus. A sua onipotência significa poder para fazer tudo que é intrinsecamente possível, e não para fazer o que é intrinsecamente impossível. É possível atribuir-lhe milagres, mas não tolices. Permanece verdadeiro que todas as coisas são possíveis com Deus: as impossibilidades intrínsecas não são coisas, mas insignificâncias (praticamente não existem). Não é possível nem a Deus nem à mais fraca de suas criaturas executar duas alternativas que se excluem mutuamente; não porque o seu poder encontre um obstáculo, mas porque a tolice continua sendo tolice mesmo quando é falada sobre Deus.
As inexoráveis "leis da natureza", que operam em desafio ao sofrimento ou mérito humano, que não são detidas pela oração, parecem, à primeira vista, fornecer um forte argumento contra a bondade e o poder de Deus. Vou apresentar a ideia de que nem mesmo a Onipotência poderia criar uma sociedade de almas livres sem ao mesmo tempo criar uma natureza "inexorável" e relativamente independente - PRESTE BEM ATENÇÃO AGORA PARA NÃO SE PERDER NAS IDEIAS. Não há razão para supor que a autoconsciência, o reconhecimento de uma criatura por si mesma como um "eu", possa existir exceto em contraste com um "outro", algo que não é o "eu", isto é, a alteridade. É contra um ambiente, e preferivelmente um ambiente social, que Eu me destaco. Mais uma vez, a liberdade de uma criatura deve significar liberdade de escolha: e escolha implica na existência de coisas a serem escolhidas. Uma criatura sem ambiente não teria escolhas a fazer: assim sendo, a liberdade, como a autoconsciência (se não forem na verdade a mesma coisa) exige novamente a presença no "eu" de algo além do "eu". A condição mínima de autoconsciência e liberdade seria, então, que a criatura devesse apreender a Deus e, portanto, ela mesma fosse diferente de Deus. É possível que tais criaturas existam, conscientes de Deus e de si mesmas, mas não de seus semelhantes? Caso positivo, sua liberdade é simplesmente aquela de fazer uma única e singela escolha: amar a Deus mais do que ao "eu" ou ao "eu" mais do que a Deus. Mas uma vida assim reduzida aos essenciais não pode ser concebida por nós. No momento em que tentamos introduzir o conhecimento mútuo dos semelhantes encontramos o obstáculo da necessidade da "Natureza". As pessoas falam com frequência como se nada fosse mais fácil do que duas mentes singelas se "encontrarem" ou perceberem uma à outra. Mas não vejo possibilidade de fazerem isso exceto num meio comum que forma o seu "mundo exterior" ou ambiente. Se os seus pensamentos e sentimentos me fossem apresentados diretamente, como os meus próprios, sem qualquer sinal de que fossem exteriores ou de outrem, como poderia distingui-los dos meus?. Você pode responder, como cristão, que Deus (e satanás), de fato, afetam meu consciente desta maneira direta sem sinais "exteriores". Sim: e o resultado é que a maioria das pessoas permanece ignorante da existência de ambos. Podemos, portanto, supor que se as almas humanas afetassem umas às outras direta e imaterialmente, seria um raro triunfo de fé e percepção para qualquer delas crer na existência das demais. Seria mais difícil para mim conhecer meu próximo sob tais condições do que é atualmente conhecer Deus: pois ao reconhecer o impacto de Deus sobre mim sou agora auxiliado por coisas que me atingem através do mundo exterior, tais como a tradição da Igreja, as Sagradas Escrituras, e a conversa de amigos religiosos.
Se a matéria, porém, deve servir como um campo neutro, ela precisa possuir uma natureza fixa. Se um "mundo" ou sistema material tivesse um único habitante, ele poderia conformar-se a todo o momento com os seus desejos - "as árvores para satisfazê-lo juntar-se-iam dando sombra". Mas se você fosse introduzido num mundo que variasse dessa forma a cada capricho meu, ficaria incapacitado de agir nele e perderia então o exercício de seu livre-arbítrio. Não fica também claro se poderia tomar sua presença conhecida a mim, desde que a matéria com que tentou fazer-me sinais já se acha sob o meu controle e portanto incapaz de ser manipulada por você. Então, se a natureza fixa da matéria impede que seja sempre, e em todas as suas disposições, igualmente agradável até mesmo para uma única alma, muito menos poderá a matéria do universo ser distribuída a qualquer momento de maneira a ser igualmente conveniente e agradável a cada membro de uma sociedade. Se alguém viajando numa direção está descendo um monte, outro alguém na direção oposta estará subindo o monte, isto é, um confortável e outro não. Se até mesmo um pedregulho estiver onde eu quero que esteja, ele não poderá, exceto por coincidência, encontrar-se onde você quer que se encontre. E isto está bem longe de ser um mal: pelo contrário, fornece ocasião para todos aqueles atos de cortesia, respeito e generosidade através dos quais o amor, o bom humor e a modéstia se expressam. Mas ele com certeza deixa aberto o caminho para um grande mal, o da competição e hostilidade. A natureza permanente da madeira que nos capacita a usá-la como viga também nos permite fazer uso dela para golpear nosso próximo na cabeça. A natureza permanente da matéria significa em geral que, quando os seres humanos brigam, a vitória quase sempre cabe ao que possuir superioridade em armas, habilidades e número, mesmo que sua causa seja injusta.
Podemos, talvez, conceber um mundo em que Deus tenha corrigido os resultados deste abuso do livre-arbítrio pelas suas criaturas a cada momento: de maneira que uma viga de madeira se tornasse macia como grama se usada como arma, e o ar se recusasse a obedecer-me se tentasse utilizá-lo em ondas sonoras que transmitissem mentiras ou insultos. Num mundo assim, porém, os atos errados seriam impossíveis e, portanto, ficaria anulado o livre-arbítrio; se o princípio fosse levado à sua conclusão lógica, os maus pensamentos tornar-se-iam também impossíveis, desde que a massa cerebral que usamos para pensar se recusaria a fazê-lo quando tentássemos estruturá-la. Toda matéria nas proximidades de um homem perverso estaria sujeita a alterações imprevisíveis. A ideia de que Deus pode modificar, e realmente modifica, ocasionalmente, o comportamento da matéria produzindo o que chamamos de milagres, faz parte da fé cristã; mas a própria concepção de um mundo comum e portanto estável exige que tais ocasiões sejam extremamente raras. Num jogo de xadrez é possível fazer certas concessões arbitrárias ao seu oponente, que se colocam em relação às regras gerais do jogo como os milagres para as leis da natureza. Você pode privar-se de uma torre, ou permitir que o adversário se arrependa de um movimento já feito, anulando-o. Mas se você aceitasse tudo que ele pudesse desejar a qualquer momento - se todos os movimentos dele fossem revogáveis e se todas as suas peças desaparecessem toda vez que a posição delas no tabuleiro o desagradasse - não haveria então na realidade um jogo entre vocês. O mesmo acontece com a vida das almas num mundo: as leis fixas, as consequências desenvolvendo-se através da necessidade causal, e toda a ordem natural, são tanto limites dentro dos quais sua vida comum fica confinada como também a condição única sob a qual essa vida pode existir. Tente excluir a possibilidade do sofrimento que a ordem da natureza e a existência do livre-arbítrio envolvem, e descobrirá que excluiu a própria vida.
Mundos possíveis só podem significar "mundos que Deus poderia ter feito mas não fez". A ideia do que Deus "poderia" ter feito envolve um conceito excessivamente antropomórfico - significado: Criado com aparência, características ou particularidades humanas - da liberdade de Deus. O que quer que seja o significado da liberdade humana, a liberdade divina não pode significar indeterminância entre alternativas e a escolha de uma destas. A bondade perfeita não pode jamais estar em dúvida quanto ao fim a ser alcançado, e a perfeita sabedoria não pode vacilar quanto aos meios mais adequados para chegar a esse fim. A liberdade de Deus consiste no fato de que nenhuma outra causa além dele mesmo produz os seus atos e nenhum obstáculo externo os impede - que a sua própria bondade é a raiz de que todos eles brotam e sua própria onipotência o ar em que todos florescem. Isso nos leva ao nosso próximo tópico - a bondade divina. Nada até agora foi dito sobre isto e nenhuma resposta dada quanto à objeção de que se o universo deve, desde o início, admitir a possibilidade do sofrimento, então a absoluta bondade teria deixado o mesmo incriado.
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- CS Lewis Materiais CS Lewis (Notas) Note on Onipotência Divina, created by Luis Corso on 04/10/2016.
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- Luis Corso · Oct 2016
- Updated
- Feb 6, 2018
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